Sexta-feira, 17 de Maio de 2013

O que é um filme de ciência? (A)Mostra tenta encontrar resposta

(Informação recebida da Associação Viver a Ciência)



Resposta à pergunta "O que é um filme de ciência?" procura-se na (A)MOSTRA | Filmes e Ciência, a realizar no domingo, dia 26 de Maio, no Pavilhão do Conhecimento em Lisboa.

A busca faz-se através da projecção de sete filmes portugueses com características bem distintas, desde longas-metragens documentais a vídeos educativos e episódios de séries televisivas.A (A)Mostra é comissariada pela Associação Viver a Ciência (VAC) e promovida pela organização do Congresso de Comunicação de Ciência Sci Com PT 2013 (que acontece a 27 e 28 de Maio).

Programa:

26 de Maio*, Auditório do Pavilhão do Conhecimento (PACO)
*Evento aberto ao público e de entrada livre

14h: Orlando Ribeiro, Itinerâncias de um geógrafo (2010; António João Saraiva e Manuel Carvalho Gomes)

15h: ANGST (2010; Graça Castanheira)

16h15: Curtas-metragens
:: A flor, a formiga e a borboleta ameaçada (2008; Bruno Cabral, Ivânia West e Patrícia Garcia-Pereira)
:: EX VIVO, aquilo que tem lugar fora do organismo (2012; Júlio Borlido, André Macedo e Augusto Gomez)
:: Nós, os fantásticos seres vivos: uma breve história sobre Evolução (2012; Osvaldo Medina)
:: LPDJLQH D VHFUHW (2010; Armindo Albuquerque Moreira)
:: A tabela é mesmo periódica (Antestreia: 2013; Rui Brás)

17.20h: DEBATE: O que é um filme de ciência?
Com:
Graça Castanheira (ANGST),
Bruno Cabral (A flor, a formiga e a borboleta ameaçada),
André Macedo (EX VIVO, aquilo que tem lugar fora do organismo)
Osvaldo Medina (Nós, os fantásticos seres vivos)
Rui Brás (A tabela é mesmo periódica)
Manuel Carvalho Gomes (Orlando Ribeiro, Itinerâncias de um geógrafo)
Armindo Albuquerque Moreira (LPDJLQH D VHFUHW)

Moderação:
Martin Pawley (produtor, programador, crítico de cinema e divulgador de ciência. Responsável  pela Mostra de Ciencia e Cinema da Coruña).


A próxima sessão de milplanaltos é já na próxima terça, 21 de Maio.
Carlota Simões apresenta 'O número de ouro. De Camões a Almada Negreiros'.

Contamos com a vossa presença no Museu da Ciência, às 16 horas.



“A proporção áurea ou razão de ouro aparece regularmente na Arte desde pelo menos o Séc. V a.C., quando o arquitecto Phideas a utilizou na concepção do Parténon. Desde então, este número tem surgido pela mão de artistas de diversas épocas e formas de arte, seja na pintura de Giotto, na música de Bartok, na poesia de Camões, na arquitectura do Iluminismo, nas construções de Le Corbusier ou nas obras de Almada Negreiros.
Data de 1509 a obra De Divina Proportioni de Luca Paciolli. Pedro Nunes refere-a nos seus livros, e pode tê-la feito chegar a Camões, que, alegadamente, terá utilizado a razão de ouro na sua obra. Finalmente, e celebrando os 120 anos do nascimento de Almada Negreiros, iremos conhecer a sua obsessão com as proporções – entre as quais o número de ouro – culminando na última obra da sua vida, Ode à Geometria.”
Nota biográfica
Carlota Simões é Professora Auxiliar do Departamento de Matemática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, é membro do Centro de Física Computacional da Universidade de Coimbra e actualmente é Vice-Directora do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra. 
Um dos seus principais interesses é a divulgação da Matemática, que concretiza através de artigos, palestras ou actividades interdisciplinares.

Quinta-feira, 16 de Maio de 2013

A CIÊNCIA LUSA


MEU ARTIGO NO ÚLTIMO JL (JORNAL DE LETRAS):

A exposição 360º Ciência Descoberta, que está na  Fundação Gulbenkian, comissariada por Henrique Leitão, é imperdível. Pela primeira vez o público pode ver uma grande mostra, bem planeada e apresentada, sobre o período de ouro da ciência portuguesa, a época dos Descobrimentos, que teve lugar nos séculos XV e XVI. Não se trata de uma exposição sobre os Descobrimentos – outras houve como Encompassing the World, que esteve há anos em Washington antes de vir para o Museu da Arte Antiga – mas sim sobre a ciência dos Descobrimentos, que inclui tanto a ciência náutica que permitiu as navegações em mar aberto, como as descobertas que, nos domínios da geografia, da meteorologia e da história natural, acrescentaram saber ao saber anterior sobre o mundo.

Num volume sobre a história do mundo, Portugal aparece numa página, ou pelo menos nuns parágrafos, precisamente por causa do seu papel na expansão marítima do Ocidente. Os portugueses estavam no sítio certo na hora certa. E os navegadores lusos aventuraram-se sem vacilar, nos vastos oceanos, primeiro o Atlântico e depois o Ìndico e o Pacífico.  Alguns autores chamam justamente  a esse período o da primeira globalização. Foram os primeiros ocidentais a ver novos céus, novas terras, novas espécies e novas gentes. Isso não se conseguiu fazer sem ciência e tecnologia e não se fez sem se acrescentar ciência e tecnologia à que já se tinha. Ora, se o papel das descobertas explorações portuguesas consta dos livros de história mundial, já o mesmo não se pode dizer em relação à história da ciência do papel que os portugueses desempenharam nesse período. Se se abrir um livro estrangeiro de história da ciência, a ciência portuguesa não aparece ou quase não aparece. Uma das razões foi o facto de a história da ciência se ter centrado talvez excessivamente na Revolução Científica, que eclodiu convencionalmente em 1543, o ano em que saíram os livros de Copérnico (A Revolução dos orbes celestes) e de Vesálio (A Fábrica do corpo humano), quando a epopeia portuguesa já começava a esmorecer. A tal ponto que algumas histórias da ciência começam só nessa altura o seu relato. Depois desses grandes nomes seguem-se outros como Galileu, Kepler, Newton e Harvey, numa narrativa  pontuada pelas obras desses heróis da ciência.

Ora, como bem ilustra a exposição, a Revolução Científica não só foi precedida pela expansão portuguesa como.não teria sido possível sem esta. Os portugueses – e também os espanhóis – protagonizaram uma Pré-Revolução Científica, sem nomes tão sonantes mas numa acção decisiva para se adquirir uma nova visão do mundo, caracterizada pelo empirismo. “Vi, claramante visto”, escreveu Camões, ecoando Garcia da Orta, o seu amigo na Índia. O livro recente de história da ciência mundial que começa muito antes da Revolução Científica Science: a four thousand years history, da autoria da historiadora de ciência inglesa Patrick Fara,  é um dos poucos que refere os portugueses dos séculos XV e XVI. Fala da qualidade dos mapas lusitanos (dos “portulanos” do Mediterrâneo passou-se para as cartas da costa de África e a seguir para a cartografia da costa asiática), fala do rinoceronte que Duerer desenhou com base num esboço do exótico animal que o rei D. Manuel I tentou oferecer ao Papa, e fala ainda das plantas da América do Sul, que portugueses e espanhóis trouxeram para a Europa, modificando o regime alimentar da cristandade. A exposição da Gulbenkian exibe em destaque alguns livros raros, alguns únicos porque manuscritos, como o Ars nautica e o Liuro da fabrica das naus de Fernando Oliveira, ou o Esmeraldo de situ orbis, de Duarte Pacheco Pereira. Mas, em consonância com Fara, mostra os mapas mais sofisticados de há quinhentos anos, um rinoceronte embalsamado e várias das espécies vegetais que cruzaram os oceanos em direcção à Europa. E mostra também as tecnologias da construção naval (a caravela) e da navegação astronómica (o astrolábio). Embora não elabore muito sobre a medicina e farmácia da época (há sobre isso um livro recente: Germano de Sousa, História da Medicina Portuguesa durante a Expansão, Temas e Debates / Círculo de Leitores, 2013), tem patentes algumas obras médicas e vasos de botica..

A exposição invoca os grandes cientistas portugueses: Pedro Nunes, Garcia da Orta e D. João de Castro. O primeiro, sem nunca ter entrado num barco, criou com base na matemática a ciência da navegação astronómica, o segundo escreveu em português sobre as plantas da Índia, e o terceiro, na carreira da Índia, realizou  as primeiras medidas de geomagnetismo global. De Nunes pode o visitante ver o “manuscrito de Florença”, o único que chegou aos nossos dias, de Orta os Colóquio dos simples da Biblioteca a Nacional, e de D. João de Castro um manuscrito conservado na Biblioteca de Évora. Para perceber melhor a exposição, o leitor não pode deixar de levar para casa o excelente catálogo, com um excelente preço, onde sencontram reproduções destas e doutras peças expostas.

- Henrique Leitão (coordenador), 360º Ciência Descoberta, Lisboa: Fundação Gulbenkian, 2013.

HISTÓRIA DA CIÊNCIA NA UNIVERSIDADE DE COIMBRA

Meu texto que acaba de sair na revista RESISTANCE dos alunos de Física da Universidade de Coimbra:

Tem aumentado muito o interesse entre nós pela história da ciência, em particular a história da ciência em Portugal e, dentro desta, pelo papel essencial desempenhado pela Universidade de Coimbra. Em Coimbra esse interesse é ampliado pela candidatura da Universidade de Coimbra a Património Mundial, cujo resultado vai ser conhecido em Junho.

O Instituto de Investigação Interdisciplinar da Universidade de Coimbra submeteu com êxito um projecto sobre este tema que tem produzido abundantes frutos. Com efeito, meia centena de investigadores das Universidades de Aveiro, Coimbra e Évora têm trabalhado desde 2000 no projecto História da Ciência na Universidade de Coimbra (1547-1933), que beneficia do apoio da Fundação para a Ciência e Tecnologia. No âmbito desse projecto, procedeu-se à recolha de fontes documentais sobre o tema em causa. Foi efectuada nos ricos acervos das bibliotecas e arquivos de Coimbra uma selecção de fontes históricas a digitalizar, tendo sido contratada uma bolseira que ficou a trabalhar na Biblioteca Geral. Os documentos digitalizados foram colocados no sítio http://almamater.uc.pt (Repositório de Fundo Antigo da Universidade de Coimbra), onde estão acessíveis a todos. Por outro lado fez-se uma selecção de peças das colecções do Museu da Ciência para inventariar e fotografar, tendo sido contratada uma segunda bolseira que ficou a trabalhar no Museu de Ciência.  As imagens foram colocadas no sítio Museu Digital.

Dois encontros internacionais foram realizados no quadro do projecto. Teve lugar em 2010, na Biblioteca Joanina um Colóquio e uma Exposição sob o tema Membros Portugueses da Royal Society organizado em colaboração com a Royal Society, que deu origem a um livro bilingue com esse mesmo título. E, em 2011, ocorreu em Coimbra o Congresso Internacional de História da Ciência. Participaram cerca de 200 investigadores de Portugal e do Brasil, tendo sido publicadas actas em formato electrónico.

O congresso foi um êxito pela oportunidade que constituiu de divulgar estudos recentes assim como pelo encontro de historiadores da ciência dos dois lados do Atlântico. Um livro contendo as comunicações principais vai aparecer em breve do prelo da Imprensa da Universidade de Coimbra: História da Ciência Luso-Brasileira: Coimbra entre Portugal e o Brasil. Ainda no domínio da edição, foram publicados em 2010 o livro Breve História da Ciência em Portugal, a primeira síntese em livro da história da ciência nacional, e o catálogo Ver a República referente a uma exposição realizada na Biblioteca Geral, no Museu da Ciência e no Museu Nacional Machado de Castro sobre o centenário da República, e foram concluídas várias teses doutorais. Para além disso, foram publicados numerosos trabalhos de investigação em revistas internacionais e nacionais. A página Web do projecto encontra-se aqui, podendo lá ler-se algumas sínteses históricos sobre vários aspectos da história da Universidade de Coimbra, algumas das quais vão também sair em breve num volume intitulado História da Ciência na Universidade de Coimbra. 

Relacionado com o trabalho realizado neste projecto, foi aprovado um novo programa doutoral em História das Ciências e Educação Científica, organizado em conjunto pelas Universidades de Aveiro e Coimbra. Agora todos os interessados em aprofundar estudos sobre história da ciência têm mais uma possibilidade para o fazer.

"Do meu lavrar na areia..."

S. Bababoião, Anacoreta e Mártir, romance de Aquilino Ribeiro, dado à estampa em 1937, foi dedicado ao amigo advogado, que declara muito estimar, José Gomes Mota. É a ele que se dirige para explicar que, nesta obra, decorrente de "imaginária pura", quis dar, muito modestamente, sem intelectualismos filosóficos, metafísicos ou outros, voz a uma preocupação que, por ser tão simples deve ser tratada de modo simples. "A minha preocupação foi dar o conflito do espiritual e do humano de modo concreto, qual deles por baixo, qual deles por cima". E assim, no seu "lavrar na areia", o fez...


"Leva que leva por atalhos e caminhos esgarrados, daqueles em que os santos soltavam palavrões e as cabras rompiam o casco, veio-lhes vontade de comer. Beltrasanas, instruído nas produções da pródiga natureza, pôs-se à busca de pútegas, que se estava na sazão. esta planta é a parasita dos sargaços , consistindo a sua frutescência em gomos leitosos, ordenados em pinha, dum vermelho, de ananás maduro, emergindo da terra o que basta para se dar a perceber a sua coroa radiosa. Os pastores espremem-nos entre as polpas dos dedos e com regalo lhe chupam a massa tenra, levemente acidulada. Com o fruto desta planta e de panaqueijas que, em despeito da haste fina, delicada como alfinetes, deitam tubérculos brancos, maiores que ovos de tanjasno, restauraram as forças e puseram-se novamente a caminho, mais além."

Andar nas nuvens para sempre...

Li hoje que uma escola (privada) do nosso país despediu dois dos seus professores. A razão é uma fotografia que terão publicado no Facebook. A revista Visão online informa que é "o primeiro caso de conflito laboral que chega a julgamento em Portugal".

A propósito, em boa hora, os jornalistas Mário David Campos e Luís Ribeiro perguntam: Qual a fronteira entre a vida pessoal e a vida profissional? 

E especificam: Num mundo cada vez mais online (...) que ética deve seguir um funcionário, mesmo fora do horário de trabalho? Como se defende um dos valores fundamentais de uma sociedade democrática (...) a liberdade de expressão? Como ter um perfil (mesmo) privado?

A terminar, lembram aquilo que todos os utilizadores da internet deveriam saber:
Depois de cair na rede é quase impossível sair de lá. E mesmo que feche o perfil, os seus dados vão andar na "nuvem" para sempre. Por isso tome algumas precauções:
- Tenha atenção às definições de privacidade. Isso não o protege daquilo que comenta nas páginas de outros mas dá-lhe mais garantias na sua página;
- Um dos truques para evitar problemas com colegas de trabalho (ou com os chefes) é organizá-los em listas, colocando-os como conhecidos e não como amigos. Assim, se lhe sair um desabafo menos agradável sobre o chefe, ele não o lê;
- Adicione apenas pessoas que conheça e não amigos de amigos;
- Tenha cuidado com o que escreve e com as fotografias que coloca, inclusive a de perfil. Mesmo que retire o que lá colocou, a informação pode já ter sido partilhada;
- Reveja as definições periodicamente. Quando surgem novas funcionalidades, por vezes sofrem alterações.

Quarta-feira, 15 de Maio de 2013

FameLab 2013


Quem será o representante português na final internacional do Famelab 2013?


Dez candidatos disputam a final do Famelab Portugal no próximo domingo, *19 de Maio*, às *15.30*, no Pavilhão do Conhecimento. *A* *entrada é gratuita*.

Venha conhecer os novos talentos da comunicação de ciência em Portugal e ajude-nos a escolher o nosso representante na final internacional, no /Cheltenham Science Festival/, Reino Unido.

Cada concorrente dispõe de apenas três minutos para demonstrar a sua capacidade de comunicar os mais diversos temas científicos, do sexo dos cangurus ao vinho do Porto, das nanotecnologias na saúde ao efeito da Lua no nosso dia-a-dia. Assista às apresentações e vote no seu favorito.

O Famelab é um concurso de comunicação científica para o grande público. Em Portugal, o Famelab é organizado pela Ciência Viva e pelo British Council.

Conheça os dez finalistas da 4.ª edição do Famelab Portugal aqui e aqui.

Confirme a sua presença aqui.

Conversas ao fim da tarde




No próximo dia *16 de Maio de 2013, pelas 18h00*, no RÓMULO – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, no piso térreo do Departamento de Física da Universidade de Coimbra, terá lugar uma “Conversa ao fim da tarde”, com Nuno Camarneiro que, a propósito do seu livro mais recente "Debaixo de algum céu", falará sobre Copérnico, Dante e o Purgatório.

A sessão é aberta a quem pretender conversar com Nuno Camarneiro. O convidado será apresentado por Carlos Fiolhais, Director do Rómulo CCVUC.

Sobre o convidado: Vencedor do prémio Leya 2012, com “Debaixo de Algum Céu”, Nuno Camarneiro nasceu em 1977. Natural da Figueira da Foz, licenciou-se em Engenharia Física pela Universidade de Coimbra, onde se dedicou à investigação durante alguns anos. Foi membro do GEFAC (Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra) e do grupo musical Diabo a Sete, tendo ainda integrado a companhia teatral Bonifrates. Trabalhou no CERN (Organização Europeia para a Investigação Nuclear) em Genebra e concluiu o doutoramento em Ciência Aplicada ao Património Cultural em Florença. Em 2010 regressou a Portugal, sendo actualmente investigador na Universidade de Aveiro e professor do curso de Restauro na Universidade Portucalense do Porto. Na literatura, começou por se dedicar à micronarrativa, tendo alguns dos seus contos sido publicados em colectâneas e revistas. “No Meu Peito não Cabem Pássaros” foi a sua estreia no romance.

O GOVERNO QUÂNTICO


Minha crónica no "Público" de hoje:

Em 1935 o físico austríaco Erwin Schroedinger exibiu as dificuldades conceptuais da teoria quântica, então recente, criando um paradoxo que ficou conhecido por “gato de Schroedinger”. De que dificuldades se trata? Nessa teoria, que governa o comportamento do mundo microscópico, um estado de um sistema pode ser uma sobreposição ou mistura de dois estados possíveis, mas opostos. Contudo, quando se efectua uma observação, encontra-se, não o estado de mistura, mas sim um ou outro dos estados opostos. Só podemos a priori conhecer probabilidades de obter um estado ou outro. No exemplo de Schroedinger, o gato está fechado dentro de uma caixa e um dispositivo quântico pode matá-lo. Antes de abrirmos a caixa, o gato está numa sobreposição de vivo e morto. Mas, quando a abrimos, verificamos que o gato está vivo ou morto e não as duas coisas ao mesmo tempo. Schroedinger interrogou-se sobre esse mistério quântico: como pode um gato estar vivo e morto ao mesmo tempo?

O actual governo de Portugal é quântico, quer dizer, parece-se com o gato de Schroedinger. Se não observarmos está entre o vivo e o morto. Assim uma espécie de zombie. Quando o observamos está, por vezes, vivo e, noutras vezes, morto. Numas ocasiões está a seguir fielmente o que diz a troika - o governo está vivo – e noutras ocasiões protesta contra os “senhores da troika” – e está morto. Olhamos para Vítor Gaspar, ministro de Estado e das Finanças – e o governo está vivo; mas olhamos para Paulo Portas, ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros – e o governo está morto. Portas esclareceu que uma coligação não é uma fusão. Pois não: é uma confusão.

Esta característica quântica do governo levanta uma questão semelhante à de Schroedinger em relação ao seu gato: como pode um governo estar vivo e morto ao mesmo tempo? Se aceitarmos a ideia de sobreposição de contrários, estará mais vivo do que morto ou mais morto do que vivo? Nos últimos tempos, está, sem dúvida, mais morto do que vivo. Luís Marques Guedes, ministro da Presidência e dos Assuntos Parlamentares, referiu-se por um lapso que é revelador, ao seu colega Paulo Portas como “líder do principal partido da oposição”. O governo tem a oposição dentro de si, enquanto a oposição cá fora, apesar de ruidosa, é inofensiva.

Lili Caneças afirmou um dia, numa frase que ficou célebre, que “estar vivo é o contrário de estar morto”. Ora isto é sabedoria clássica, ultrapassada pela sabedoria quântica. Não foram os portugueses que descobriram a teoria quântica, mas existem, na nossa língua, expressões quânticas como estar “mais morto do que vivo”, o que, de facto, significa, estar mais vivo do que morto, embora por pouco, isto é, às portas da morte. Também dizemos “mais para lá do que para cá” para descrever o mesmo tipo de situação. Temos, portanto, um lado quântico em nós que vai além do nosso lado Lili Caneças. Mesmo o fado cantado por Amália Rodrigues, “É ou não é”, que, a avaliar pelo título parece clássico, pois não há justaposição de opostos, é afinal quântico a avaliar pelo final do refrão, que contém uma reviravolta surpreendente: “Digam lá se é assim ou não é?/ Ai, não, não é! / Digam lá se é assim ou não é?/ Ai, não, não é! Pois é!”

Pois é. A lógica quântica não é fácil de perceber. Como é que um governo pode diminuir as pensões aos reformados da função pública e, ao mesmo tempo, garantir o pagamento integral das mesmas pensões? O porta-voz do “maior partido da oposição”, João Almeida, tentou explicar a confusão. Mas tudo ficou ainda mais confuso: ele tem a "profunda convicção de que a medida nunca será aplicada", pois "o cenário de ela ser aplicada seria contrariar uma decisão do Conselho de Ministros". Acontece que a extraordinária medida de aumentar a austeridade dos depauperados pensionistas foi mesmo aprovada em Conselho de Ministros (extraordinário) e enviada à troika para garantir o pagamento da próxima tranche do empréstimo. Mas mais: sabemos, por  Vítor Gaspar, que o referido corte será aplicado em caso de “absoluta necessidade”, coisa que  não nos tem faltado. Por um lado, há a “absoluta convicção” do porta-voz e, por outro, a ”absoluta necessidade” do ministro. Vamos ver se ganha a convicção ou a necessidade. Aceitam-se apostas.

O que falta hoje ao governo? Obviamente um rumo claro. Mais austeridade ou crescimento económico? Mais miséria ou sensibilidade social? O primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, que tem estado do lado de Vítor Gaspar, não pôs na ordem Paulo Portas quando este, com evidente quebra do dever de lealdade, se demarcou publicamente de um documento aprovado em Conselho de Ministros. Passos Coelho perdeu uma boa oportunidade de afirmar a sua autoridade face à oposição interna. E um governo sem liderança só pode andar ao acaso, não podendo nós adivinhar para onde vai.


OS CEM ANOS DO “AHA” DE BOHR


Crónica que está a sair na "Gazeta de Física", órgão da Sociedade Portuguesa de Física (na foto Niels Bohr):



Estão a passar cem anos desde que Niels Bohr publicou a primeira parte do seu artigo seminal  “Sobre a Constituição de Átomos e Moléculas”, na Philosophical Magazine, com a benção de Ernest Rutherford, em cujo laboratório o autor tinha trabalhado em 1912. Bohr quando teve o “aha” extraordinário da quantização das orbitais atómicas só tinha 28 anos. Tinha completado o doutoramento com uma tese sobre teoria de metais em 1911, quando Rutherford anunciou ao mundo o núcleo atómico que obrigava ao modelo dos electrões planetários. A física mais revolucionária costuma surgir de mentes jovens. Já Einstein tinha proposto a teoria da relatividade e a explicação quântica do efeito fotoléctrico com apenas 26 anos. E o mesmo haveria de acontecer no ano “mágico” de 1926, com Heisenberg e Dirac, que, com 25 e 24 anos respectivamente, substituíram a mecânica quântica antiga de Bohr pela mecânica quântica que sobreviveu até hoje.

Em 1913 Rutherford, com 42 anos, estava em Manchester no auge da sua glória. Em contraste, um dos pais da física moderna J. J. Thomson, com 56 anos, estava anquilosado. Pelo menos deve ter sido essa a impressão de Bohr que, doutorado de fresco, foi ao seu encontro em Cambridge e quase não conseguiu comunicar com ele. Por um lado, o inglês de Bohr era muito deficiente e, por outro e principalmente, Thomson não quis saber dos erros nos seus escritos que o jovem doutor lhe apontava. A mudança para o laboratório de Rutherford foi a solução apesar de Bohr ter sido obrigado a reprimir a sua vocação teórica para fazer trabalho experimental, na companhia entre outros de Charles Darwin, não obviamente o famoso naturalista mas um seu neto.

Rutherford gostava de pôr as mãos na massa, não sendo dado a devaneios teóricos. Mas percebeu e encorajou o “aha” de Bohr, que com duas hipóteses revolucionárias (estacionaridade de certas órbitas electrónicas e “saltos quânticos” entre elas, com emissão ou absorção luz) fixou as bases do modelo atómico actual. Em Março de 2013 Bohr informava Rutherford do bom acordo com a experiência do seu modelo: “Tentei demonstrar que... parece possível dar uma interpretação simples da lei do espectro do hidrogénio e que do cálculo resulta um acordo quantitativo íntimo com a experiência.“ E mais adiante: “Espero que concorde em que adoptei um ponto de vista razoável em relação à delicada questão da utilização simultânea da antiga mecânica e dos novos pressupostos introduzidos pela teoria da radiação de Planck. Estou ansioso por saber o que pensa disto tudo.”

Como o acordo era inequívoco, Rutherford pensava bem, descontado o facto de o “artigo era bastante denso e longo para uma só publicação”, pelo que que ele acabou por sair em três partes, tendo a primeira  e mais importante aparecido em Julho (estão publicadas entre nós em “Sobre a Contituição de Átomos e Moléculas”, Fundação Gulbenkian, 1969). Einstein, então a caminho da fama, também pensou bem, impressionado como Rutherford pela descrição dos espectros. Estavam ainda longe os tempos da sua famosa querela com Bohr. Thomson não pensou nada, mas a sua opinião pouco interessava.

O modelo de Bohr, aliando Rutherford e Planck, ainda hoje não só um bom exemplo de como se faz física nova: intuição poderosa escorada em dados experimentais. Mas Rutherford colocou logo uma notável questão: como saberia um electrão numa órbita mais alta para que órbita cair? O indeterminismo estava escondido na nova mecânica.

Universidade da expansão cultural e científica



Texto que elaborei no quadro da divulgação da candidatura da Universidade de Coimbra a Património Mundial da UNESCO (na imagem Pedro Nunes):

Portugal protagonizou a primeira globalização, isto é, o contacto entre povos e culturas de diferentes continentes que teve lugar nos séculos XV e XVI. Esse processo, enraizado na observação e na experiência, precedeu a Revolução Científica ocorrida no século XVII.

Antes de 1537, a Universidade portuguesa estava em Lisboa. E, quando mudou para Coimbra, veio com ela aquele que é talvez o maior sábio português de todos os tempos: Pedro Nunes, o cosmógrafo-mor de D. João III. Esse matemático é o criador na navegação astronómica, que resolve alguns problemas que se colocavam aos marinheiros da época. Duas das obras de Nunes saíram de prelos conimbricenses para conhecerem o mundo. O maior responsável pela divulgação dessa obra foi o jesuíta alemão Christophoro Clavius, que estudou em Coimbra no Colégio das Artes, antes de se ter tornado astrónomo papal, tendo presidido à comissão que instituiu o calendário gregoriano que Portugal foi um dos primeiros países a seguir e que hoje vigora.

Os jesuítas, estabelecidos em Coimbra nos Colégios das Artes e de Jesus, tiveram uma acção essencial na Revolução Científica, graças à intermediação que fizeram de ideias e instrumentos para as terras orientais, em particular a China e o Japão. O telescópio de Galileu chegou ao Oriente passando por Lisboa e Coimbra. Exemplo de contacto cultural e científico fecundo com o Império do Meio foi, no fim do século XVI e início do século XVII, a acção do jesuíta italiano Matteo Ricci, que estudou em Coimbra antes de deixar a Europa.

Não se pode dizer, porém, que a ciência em Coimbra tenha estado em crescendo após a morte de Nunes. A Contra-Reforma, que se opôs à expansão da ciência moderna, instalou-se em Coimbra com a escola chamada dos Conimbricenses, em referência aos livros com esse título em que os jesuítas comentavam Aristóteles. Tendo sido uma referência na Europa, esse movimento filosófico, chegou ao jovem René Descartes, a estudar num colégio jesuíta, cujo pensamento conduziu a uma visão diferente da Natureza e do homem.

A Universidade de Coimbra foi, durante muitos anos, a única do vasto Império. Neste, o Brasil foi privilegiado na expansão cultural, como prova a moderna presença da língua. No século XVIII muitos foram os jovens brasileiros que estudaram em Coimbra. Um caso notável é de Bartolomeu de Gusmão, o inventor da Passarola e autor de um dos primeiros pedidos de patente. Mas um outro nome foi José Bonifácio, o químico descobridor do minério de lítio, que depois de ter ensinado em Coimbra se tornou o patriarca da independência da nação brasileira. Bonifácio trabalhou no Laboratorio Chimico, num tempo marcado pela reforma pombalina. Destaque no iluminismo português tiveram também as viagens philosophicas ao Brasil e a África, revelando novas espécies e novos povos.

Nos tempos seguintes e até aos dias de hoje, com as dificuldades e sobressaltos da história nacional, a Universidade de Coimbra continou a espalhar no mundo, em particular no mundo lusófono, cultura e ciência. 

Segunda-feira, 13 de Maio de 2013

Dívida Nacional

A dívida do meu país foi uma pêra que cresceu do pedúnculo até à terra.

Com a árvore à vista, apanhámos uma grande pêra!

PÊRA PENDENTE

A
P
Ê
R
A
ESTÁ
SUSPENSA
E CRESCE ATÉ À
TERRA A PÊRA ESTÁ
SUSPENSA E CRESCE ATÉ À
TERRA A PÊRA ESTÁ SUSPENSA
E CRESCE ATÉ À TERRA A PÊRA
ESTÁ SUSPENSA E CRESCE ATÉ À
                TERRA A PÊRA ESTÁ SUSPENSA E
CRESCE ATÉ À TERRA A PÊRA ESTÁ
SUSPENSA E CRESCE ATÉ À TERRA
A PÊRA ESTÁ SUSPENSA E CRESCE
ATÉ À TERRA A PÊRA ESTÁ
SUSPENSA E CRESCE ATÉ
À TERRA A PÊRA ESTÁ
SUSPENSA E CRESCE
ATÉ À TERRA
……………………………………………………………………

O CÉU NAS PONTA DOS DEDOS

Recensão publicada na imprensa regional


Que estrela é aquela que brilha mais do que as outras? Porque é que algumas estrelas só se veem numa dada estação e a partir de uma dada hora? As estrelas também “nascem” e também se “põem” aparentemente como o nosso Sol? E aquele astro errante? É um planeta ou um satélite? Como é que sei orientar-me pelas estrelas para poder sonhar com viagens de descoberta?

A resposta a estas e muitas outras perguntas encontram-se, numa linguagem simples mas rigorosa e metodológica, no livro “O Céu nas Pontas dos Dedos” do prestigiado astrónomo amador Guilherme de Almeida, publicado em Fevereiro de 2013 pela Plátano Editora.

Este é o oitavo livro do autor do “Roteiro do Céu”, obra publicada em 1996, também pela Plátano Editora (actualmente na 5.ª edição e com uma edição em 2004 em língua inglesa pela Springer Verlag-London), título incontornável e pioneiro no panorama da divulgação científica específica à astronomia em Portugal.

Este último livro de Guilherme de Almeida é muito oportuno e, curiosamente, uma excelente introdução às suas obras anteriores, mais densas e específicas.

É um livro muito bem construído e conseguido nos seus objectivos. Possui os elementos e conteúdos fundamentais para uma iniciação segura à observação e contemplação do céu nocturno por qualquer pessoa. Mas também é útil ao astrónomo experiente uma vez que o leitor é brindado com a inclusão no livro de um mui útil planisfério celeste multifuncional, optimizado para observações a partir de Portugal continental e Regiões Autónomas. Destacável e utilizável livremente com as mãos, com ele é possível identificar estrelas e constelações em qualquer data do ano e hora do dia.

Guilherme de Almeida

Ao longo de três capítulos, curtos quanto baste, Guilherme de Almeida acompanha e guia o leitor aprendiz, passo a passo, com a virtuosa e eloquente paciência dos mestres. No primeiro capítulo são introduzidos os elementos fundamentais que constroem a linguagem e referenciais da observação astronómica. O planisfério celeste é explicado no segundo capítulo. No terceiro, o autor exemplifica casos concretos e práticos para o uso do planisfério, as suas funções básicas, e aconselha, como se estivesse ao nosso lado a observar o céu, alguns procedimentos úteis para uma melhor observação astronómica a olho nu. Por fim, descreve as funções especiais ou avançadas do planisfério celeste, o que encoraja a evolução do principiante amador para o astrónomo disfrutante.

Este livro ganha em rigor e qualidade pela existência de um quarto capítulo que inclui informações complementares e mais avançadas, respostas a perguntas que só surgem de depois da utilização efectiva do planisfério celeste, e um imprescindível glossário com a necessária terminologia astronómica.

Refira-se que o texto está muito bem compaginado com fotos, ilustrações e esquemas que reforçam e complementam a clareza da mensagem textual. Acrescente-se a existência aqui e acolá de caixas laterais que permitem uma aprendizagem complementar e mais aprofundada ao longo do livro, consoante o interesse e disponibilidade de cada leitor. É um livro que pode ser lido a vários tempos permitindo uma mesma observação celeste.

Destaquem-se as cinco magníficas fotografias astronómicas da autoria do fantástico foto-astrónomo português Miguel Claro, que acrescentam beleza e informação visual adicional ao livro.

Para saber mais, o livro acaba com indicações sobre outras obras e sítios na Internet onde o leitor poderá saciar o espanto resultante das observações que resultarão, acto contínuo, da leitura deste livro e do uso do planisfério celeste incluso.

Para ver mais, basta ter “O Céu nas Pontas dos Dedos”, com olhos contemplando o cosmos pela janela do nosso horizonte celeste.

António Piedade 

"Obreiro das letras"

Mais para finais de Maio faz cinquenta anos que morreu Aquilino Ribeiro, o escritor das Beiras, o escritor da prosa ardilosa, o escritor que dá palavra à alma do povo, o escrito não alinhado, o escritor rebelde, o escritor comprometido com o ideal... ou, tão simplesmente, e como ele dizia se si próprio, um "obreiro das letras".

Aqui, no De Rerum Natura, sem obedecermos a um critério cronológico ou outro que não seja a oportunidade, lembaremos, até ao final do mês, algumas das suas obras e alguns aspectos da sua vida.

E começamos pelo livro O servo de Deus e a casa roubada, duas novelas publicadas em 1940. No preâmbulo escreveu Aquilino.
(...) A hora corre nada propícia para a arte que não se subordina. Os interesses materiais sobrepõem-se aos interesses do espírito com uma tirania nunca vista. Esperemos que o género humano se salve ainda desta feita do cataclismo por mastodontização. Esperemos, por outra, que o logos, que é a racionalidade, volte a pairar sobre o caos.
Eis as linhas iniciais da primeira novela - O servo de Deus:
Na noite em que cheio de confusão e pranto perfez a idade de Cristo, o servo de Deus teve um sonho. Uma voz branca e alada, de todo celeste, chamava-o ao juízo. Já que se tratava de prestar contas da sua alma, com ditosa agilidade, o estouvamento febril de quem não teme porque não deve - não lhe permitia Deus fazer milagres por um peneira velha, semear às rebatinhas nas dez léguas ao redor dos dons da graça, ser em vida adorado como santo? - desatou a pleitar inocência plenária, para se lhe abrirem de par em par as portas do Céu e adiantarem-se anjos, bem aventurados, ordens a recebê-lo solenemente debaixo do pátio. (...)


NOVO LIVRO DE GUILHERME DE ALMEIDA


Contém um planisfério celeste que mostra o céu em qualquer data e hora.

QUATRO OU TRÊS?


Domingo, 12 de Maio de 2013

Nós e os outros

"Sabemos, de há longa data, que a humanidade está dividida em duas categorias: Nós, os melhores e os Outros, os menos bons. Todos os grupos, com efeito têm tendência a privilegiar os próprios membros e a depreciar os que deles não fazem parte."
Jacques-Philipp-Leyens e Georges Schadron, 1980, 161.
Artigo: Porque discriminam mais os grupos que os indivíduos? categorização ou pretexto? In Revista Psicologia, 1, 2, pp 161-168.

Sexta-feira, 10 de Maio de 2013

Não digo versos...

Porque eu não saberia escrever uma nota melhor do aquela que António José Ferreira escreveu para assinalar o centenário do nascimento de João Henrique Pereira Villaret ou, como é conhecido, João Villaret, aqui reproduzo uma parte dela.

"Não digo versos; procuro reproduzir o momento de angústia, 
de alegria, de revolta que o poeta sentiu ao escrever o seu poema. 
Recitando, encontro a plena libertação, pois dou-me esse infinito gosto 
de interpretar aquilo que amo e que me tocou profundamente."

João Villaret

"A sua vocação para a arte de dizer e de representar manifesta-se nele desde tenra idade, mas não sem enfrentar algumas contrariedades.

A primeira desilusão surge quando a directora do Anglo-Portuguese College, Miss Price, decide não o integrar na récita do colégio por manifesta "falta de jeito para representar". O sentimento que o pequeno João nutria por Miss Price era recíproco, considerando-a "uma chata". Mas admirava, com veneração, outra professora, de seu nome Amália, que sentia por ele a mesma admiração. Chamava-lhe, com muita ternura, "Frei João sem cuidados". E talvez por essa empatia, essa mútua compreensão, Villaret lia de tal maneira "Os Lusíadas" que a docente ficava rendida e nem se atrevia a sugerir qualquer alteração.

Pelo precoce entendimento que tinha da poesia, e por se considerar a sua leitura tão exemplar, o jovem, quando frequentava o 3.º ano no Liceu Passos Manuel, era enviado para as salas do 7.º ano (actual 11.º ano de escolaridade) a ensinar os colegas como se devia ler o nosso grande épico. Quando se matriculou na Secção Teatral do Conservatório Nacional de Lisboa, em 1928, aos quinze anos de idade, ninguém previa que decorridos apenas três anos, na noite de 16 de Outubro de 1931, Villaret se estrearia profissionalmente no Teatro Nacional D. Maria II, integrado na Companhia de Amélia Rey Colaço/Robles Monteiro, na reposição da peça "Leonor Teles", de Marcelino Mesquita. Assim se iniciava a gloriosa carreira do actor que, no entanto, não se confinaria ao drama e à alta comédia (Gil Vicente, Shakespeare, Molière, Almeida Garrett, Bernard Shaw, Eugene O'Neill, etc.). João Villaret também nutria um especial apreço pelo teatro de revista, onde se vem a estrear em 1941, suscitando o escândalo daqueles que consideravam o género uma arte menor (...)

Com uma sensibilidade invulgar e dotado de uma notável intensidade expressiva aliada a um inexcedível poder de comunicação, reabilitou a difícil arte de recitar poesia, prendendo a atenção do expectador, quer em sessões ao vivo (...), quer através da televisão (...).

Miguel Torga referiu-se-lhe nestes termos: «Nunca é demais agradecer a Villaret o que ele tem feito pela poesia. Os poetas devem-lhe uma espécie de requintada edição oral de alguns dos seus melhores versos; o público, esse resgata-se a ouvi-lo da preguiça que o afastava tragicamente dum convívio que nenhum oiro da terra pode suprir.»"

Ler mais aqui.

Amplo o destaque, pobre a discussão

Texto na sequência deste.


Como os leitores bem sabem, os jornais em papel e online, bem como os rádio e telejornais têm dado amplo destaque aos exames nacionais de Português e de Matemática para o 4.º ano de escolaridade que se realizaram nesta semana e que têm uma certa ponderação na classificação final dos alunos.

Amplo o destaque mas pobre a discussão, polarizada, basicamente, em três aspectos: o stress das crianças, novas demais para saírem ilesas da situação; o caso único ou quase único de Portugal nesta insistência dos exames; e o regresso a um passado obscurantista e politicamente marcado.

(A imagem acima reproduzida, de que não consigo identificar a fonte, ilustra um texto onde esses aspectos são evidentes).

Entrevistam-se especialistas, que corroboram tudo isto; entrevistam-se representantes disto e daquilo que são da opinião dos especialistas; entrevistam-se pais e encarregados de educação, e pessoas de comuns que respondem de acordo com a formulação (orientada) das perguntas dos jornalistas...

Vi apenas duas mães (do Norte, se é que isso interessa) que tinham ido acompanhar os filhos ao transporte para a escola-sede trocarem as voltas a uma jornalista. "As senhoras concordam...?". E as senhoras, que sim, que os exames fazem parte do que a escola é... "E os vossos filhos não estavam nervosos de manhã?". E as senhoras, também que sim, mas que isso é normal, revela algum sentido de responsabilidade dos miúdos... Um delas, salientou que eles, mesmo pequenos, em certas coisas são mais capazes do que aquilo que os adultos pensam.

Não me apercebi de alguém ter perguntado se a realização de exames contribui para a aprendizagem (conheço estudos recente da psicologia e pedagogia cognitiva que indicam que sim), se um nível aceitável de ansiedade relacionado com o desempenho académico desde idades precoces é estruturante da personalidade (não conheço estudos, mas entendo que a pergunta é pertinente), se os exames escolares devem continuar a associar-se a opções políticas, de esquerda ou de direita (devo salientar que, se não são tratadas como coisas absolutamente distintas, devem passar a sê-lo)....

Teria sido importante que alguém fizesse perguntas de teor mais elaborado do que as que circularam a pessoas que sabem do assunto, que as deve haver no país.

E ainda haveria oportunidade para noticiar os incidentes ocorridos na rede escolar pública: as deslocações para a escola-sede de centenas de crianças, a vigilância das provas por professores externos a essa escola, as declarações de honra assinadas pelos alunos para não usarem telemóveis, a confusão das partes do teste antes ou depois do intervalo...

ISTO NÃO É (SÓ) MATEMÁTICA

Recensão efectuada para a revista Papel



A literatura portuguesa de divulgação de ciência tem ganho nos últimos anos obras de qualidade internacional. Uma delas foi publicada em Outubro do ano passado (2012) e, devo escrever, eleva o patamar da excelência e da exigência para este género tão importante para o desenvolvimento da cultura científica de um povo em liberdade. Estou a referir-me ao livro feito a quatro mãos por Alexandre Aibéo, que o escreveu, e por Pedro Aibéo que o ilustrou, e que tem por título “Isto não é (só) matemática”.

Editado pela QuidNovi, este livro rasga os cenários impossíveis e apresenta uma obra sui generis no panorama da divulgação científica escrita e desenhada originalmente em português. Sui generis, ou por outras palavras, única no seu género, pois os autores conseguem compaginar a divulgação acessível de conhecimento científico (com fórmulas matemáticas), com a ilustração na forma de cartoons e banda desenhada e com humor quanto baste para que o leitor não perca o fio à meada e lhe apeteça mesmo continuar a ler e ver.


Bom humor. E, se os cultores do género falam da inteligência intrínseca que existe no bom humor, então estamos perante um livro muito inteligente, que consegue, a meu ver, alcançar os seus objectivos: «abordar alguns aspectos que a Matemática trata mas sem estar muito preocupado com um formalismo muito denso, não pretendendo, com isso, carecer de rigor», conforme escreve Alexandre numa introdução intitulada “Ah não?”.

O livro está escrito num tom coloquial, com uma linguagem do dia-a-dia, o que facilita muito a eficácia com que consegue comunicar com o leitor. Prende livremente o leitor ao livro. E o leitor leva o livro com ele.

«Se “Isto não é Matemática”, então o que é?» assim começa a introdução. Os autores desafiam o leitor a descobrir a resposta a esta pergunta logo no início da introdução. O convite dos autores é ainda mais provocador, sem ser pretensioso, ao sugerirem que o leitor se prepare para uma caminhada de “mochila às costas”, ao longo de dez capítulos, cujos títulos apelam à curiosidade como uma boa inspiração de ar puro no cimo de uma montanha (ou num prado verde, como queiram): 1.º Naturais, reais e algo surreais; 2.º Balanças, baloiços e criminosos; 3.º Coelhinhos, zangões e conspirações; 4.º O que é o quê?; 5.º Bem, mal ou assim-assim?; 6.º Vou ver-me grego?; 7.º Evolução, taxas de juro, montes de dados e átomos radioativos; 8.º De origens e índios; 9.º Um mundo cheio de riscos e setinhas; 10.º Somas, cobrinhas e parêntesis indecisos?

Nuno Markl não ficou indiferente a este livro, muito pelo contrário. Sim, o autor de “O Homem que mordeu o cão”, que diz odiar matemática, «apesar de nunca lhe ter virado as costas», não só leu o livro como é dele o prefácio onde diz que tem «pena que este livro não lhe tenha aparecido mais cedo» na sua vida. Para Markl, este livro conseguiu estabelecer-lhe «o elo perdido entre os meus (dele) professores de Matemática e a Samantha Fox». «Eles (os Aibéo) conseguiram dar uma estranha espécie de sex-appeal à Matemática mas, mais importante do que isso, são pessoas inteligentes que perceberam que pelo humor é que vamos. Eles lograram criar um sacana de um livro de Matemática que tem piada», acrescenta Nuno Markl.

Por fim, e já que este é o primeiro livro de divulgação de ciência de Alexandre Aibéo, o necessário agradecimento pelo feito e o voto nesta assembleia de leitores, em que me incluo, para que seja (só) isso: o primeiro.

"Isto não é (só) Matemática" também aqui:
http://istonaoesomatematica.wordpress.com/ e https://www.facebook.com/istonaoe.matematica

António Piedade

AÇORDA DE MÃO NO BOLSO

CABEÇA DE CEIFEIRO ALENTEJANO (1941) Dórdio Gomes (1890-1976)
Numa destruição galopante dos belos ideais de Abril, estamos hoje a assistir a quadros como este de que fui testemunha, em finais dos anos 30 do século que passou.

Nesses anos da minha infância, a fome nos campos do Alentejo era muita. Sem um quinhão de terra para cultivarem, as famílias viviam das magras e esporádicas jornas, ao sabor dos caprichos do Sol, das chuvas e das geadas.

Sem trabalho, os cifrões cresciam no livro dos fiados, na venda da aldeia, sem esperança de os ver reduzir ou apagar. Os homens, nunca as mulheres, acabavam por vir para a cidade, pedir esmola.

Vinham aos grupos de três ou quatro, não para se imporem pelo número, mas porque se envergonhavam e intimidavam se viessem sozinhos. Batiam-nos à porta, e tendo vindo abrir-lha, cumprimentavam de chapéu na mão e o que falava apenas dizia que não tinham trabalho e que precisavam de levar de comer para os filhos.

Voltando à cozinha, a chamar a minha mãe, dizia:
- Estão ali os trabalhadores do campo, a pedir!

Não lhes chamávamos pobrezinhos nem, muito menos, mendigos porque, de facto, não o pareciam nem eram. Tinham dignidade e majestade e, na resignação que mostravam, adivinhava-se a revolta dentro do peito. Pediam pão ou algum dinheiro para comprarem avio que levassem de volta para casa.

A minha mãe respeitava-os profundamente e dava-lhes o que podia, como se fossem irmãos. Sem que o dissesse abertamente, ensinou-me a amá-los. E, embora a vida fizesse mais de mim um menino, um rapaz e um homem da cidade, sempre me senti filho do campo e irmão dos camponeses.

Com eles, não só aprendi a olhar os homens e a natureza, como fiquei a saber o que é comer “pão com navalha”, uma forma muito expressiva de dizer pão sem conduto, e que “açorda de mão no bolso”, no seu sentido crítico pleno de humor, muito comum neste povo, significa que, não havendo na tijela mais do que o caldo e o pão migado, só se usava a mão que pegava na colher.
Galopim de Carvalho

SONHO

Poema publicado na revista Papel


Sonho

Sonho que os Selenitas
Cultivam nas crateras lunares
Pomares de luar para os amantes,
Que iluminam Cyrano de Bergerac nos seus poemas escaldantes.
Sonho que viajo até aos Estados e Impérios do Sol
E que me plasmo em labaredas cómicas e auroras errantes.

Sonho que viajo com Micromegas,
Entre Sirius e Saturno, à velocidade da luz.
E que num instante, encontro gigantes
Companheiros de Gulliver e de outros viajantes.

Sonho que encontro uma Nova Atlântida,
Em mares para sempre imaginados,
Ilha científica, em que nasce tecnologia
Por entre canteiros de ficções oníricas
Indistinguíveis da pura magia.

Sonho que esvoaçam por entre neurónios,
Inconstantes realidades que me fazem,
Ora Monstro, ora Homem,
Numa transmutação insustentável e
Socialmente odiável.

Acordo.
Descubro o medo de já não ser mais o centro da criação,
Do sistema solar, do Universo,
De já não ser dono da consciência sem emoção
Despojado de qualquer livre-arbítrio adverso,
Como uma criatura só, por ter nascido retalhada,
Aprisionada num medo ancestral cheio de nada.

Sonho que converso com Frankenstein,
Sobre a origem das espécies.
E que ele me fala de um Homem velho,
Num Admirável Mundo Novo.
Sonho que ao sonhar compreendo melhor,
E que a consciência irradia em expansão acelerada pelo Cosmos.

Sonho.


António Piedade
04 de Maio de 2013

Um grande poeta grego: Ares Alexandrou

Novo texto de Eugénio Lisboa: 

 No dia 29 de Setembro, na bela Livraria Buchholz, foi lançado, em língua portuguesa, em tradução de Amélia Muge, apoiada numa versão inglesa de Michales Loukovikas (que seguiu, de perto, todo o trabalho da cantora portuguesa), o livro O Ouro do Céu, dedicado ao poeta grego Ares Alexandrou. O livro inclui, a valorizà-lo, um CD, com a poesia de Alexandrou admiravelmente musicada por Michales.

 Acompanhei, com todo o cuidado, o processo de tradução para português, a que se entregou, de alma e coração, Amélia Muge. E poucas vezes um poeta me “agrediu”, emocionalmente, com a força com que o fez o grande poeta grego.

 Ares nasceu em Petrogrado (antes, S. Petersburgo e, depois, Leninegrado), em 1922, filho de pai grego e mãe russa. . De seu nome originário, Aristoteles Basileiades, mudou-se, com seus pais, para a Grécia, com apenas seis anos (1928). Residiram, inicialmente, em Tessalonica, e mudaram-se, pouco depois, para Atenas. Terminado o ensino secundário, fez, sem êxito, o exame de admissão à escola de engenharia, tendo, a seguir, sido admitido na universidade (Economia e Comércio). Em 1942, decidiu abandonar a universidade, dedicando-se ao ofício de tradutor. Ao mesmo tempo, juntou-se a um pequeno grupo de resistência aos nazis, que, por então, ocupavam a Grécia. Este pequeno grupo fazia parte integrante de um movimento de resistência da juventude comunista. Alexandrou, espírito fortemente independente, não conseguiu adaptar-se à rigidez da organização hierárquica do partido comunista e, em consequência disso, abandonou-o, poucos meses depois de nele ter entrado. Esta ruptura não impediu as autoridades britânicas, após a libertação da Grécia e da sua actuação no país, como governantes de facto, de o prenderem e mandarem para o campo de prisioneiros de El Tampa, onde permaneceu até Abril de 1945 (“Sou um traidor para Esparta para os hilotas espartano”, dirá num verso célebre de um poema também célebre: “A primeira pedra”).

 A seguir, mesmo não tendo participado na subsequente guerra civil (1946 – 1949), foi preso por se ter recusado a repudiar as suas convicções políticas. De Julho de 1948 a Outubro de 1951, foi sucessivamente mandado para os campos de Moudros, Makronisos e Agios Efstratios. Em Novembro de 1952, foi submetido a Conselho de Guerra, por se ter recusado a ser recrutado para o serviço militar. A pena inicial foi de dez anos de prisão, cumprida nas prisões de Averof, Aighina e Gyaros. O painel de revisão viria a reduzir a pena para sete anos, tendo Ares sido posto em liberdade em 1958.

 Depois de libertado, Alexandrou casou com Kaiti Drosou e, em 1967, para evitar serem presos pela Junta Militar no poder, foram viver para Paris. Ali morreria o poeta e romancista, em 1978, de um ataque de coração, tendo ainda visto, em 1975, a publicação do seu único romance (To Kiviótio, Atenas, 1975; em edição inglesa, de 1996: The Mission Box). Em 1978, publicaram-se os seus Poemas (1941 – 1974), em Atenas, e, em 1984, Dialexa (tradução, para grego, de uma miscelânea de poemas).

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 Ares Alexandrou foi, essencialmente, um grande poeta, isto é, um homem apaixonado, antes de mais nada, pela linguagem: conhecendo-lhe os poderes, mas, também, os limites. Como todos os poetas, quero dizer, como todos os seres que trabalham, sobretudo, com palavras, embora trabalhem, igualmente, com ideias e com emoções – que as palavras tentam, algo incompetentemente, transmitir - , Alexandrou cedo deve ter-se apercebido de que vivia a manipular um instrumento de enorme delicadeza. Os poetas e os escritores, em geral, apercebem-se, cedo, de que as palavras fazem só o que podem e não podem tudo. Dizia o grande Joseph Conrad que “as palavras são grandes inimigas da realidade.” A afirmação talvez seja exagerada, mas a verdade é que há sempre algo do que observamos ou sentimos ou pensamos que fica além do poder que as palavras têm para o transmitir. Sente-se que elas são relativamente impotentes para darem toda a gama do inefável. No entanto, o poeta persiste na sua tentativa de realizar o impossível, de convir, até nós, toda a teia de emoções e ideias que o devoram. Era isto mesmo que T. S. Eliot pretendia sugerir-nos, ao dizer: “É estranho que as palavras sejam tão inadequadas / e, contudo, como o asmático lutando pelo fôlego / assim o amante deve lutar pelas palavras.” Portanto, entre o saber que as palavras são fracas, para o “grande desígnio” e a persistência, mesmo assim, no combate, servindo-se delas, vai o poeta movendo o seu rochedo de Sísifo. E o motor de arranque, para este combate sem garantias de vitória, é o próprio desespero, como observava Camus: “Se estiveres convencido do teu desespero, deves ou agir como se afinal tivesses esperança ou, então, suicidar-te.” (Carnets) A profundidade do desespero é, em alguns escritores, tão grande, que não têm remédio senão acreditarem no grande poder de agressão que as palavras possuem: “tu podes agredir as pessoas com as palavras”, dizia o romancista americano Scott Fitzgerald, que desceu ao fundo da angústia e da falta de esperança. Mas, mesmo quando a fé nas palavras é apenas relativa, o poeta ama a linguagem, como a sua única salvação e, por isso não consente em prostituir as palavras em causas duvidosas. É o uso da linguagem a sua principal fonte de felicidade, razão por que a preserva contra compromissos indecentes. Por isso, também, Alexandrou, fiel à poesia, logo, à linguagem, nos diz, no poema, significativamente intitulado “Palavras de ordem”:

 O cérebro não é uma barba. 
 Não deixes os padres 
 os governantes 
 os controleiros 
 fazer-ta. 

 Poetas 
 de todos os países 
 desengajem-se." 

 O poema “Vê bem” dá-nos, com vigor, a “ars poetica” do escritor:

 "Vê bem se tornas teus versos vertebrados
 com as articulações encaixadas em palavras rudes, exactas. 

 Faz de modo que sejam extensões da realidade 
 tal como os dedos da mão a sua continuidade. 
 Só assim teus versos vão ser iguais à mão do doutor
 reanimando à bofetada os que já desfaleceram
 face aos seus rostos sem nada." 

 Ainda noutro poema – “O punhal” – o poeta dá-nos, com acuidade e precisão, o enorme esforço e paciência que são necessários para se encontrar as palavras mais adequadas, a linguagem mais eficaz.

 Vimos o que foi a vida de “exilado” perpétuo de Ares Alexandrou, passando uma boa parte dela na prisão. Nunca bem aceite, nunca inserido: suspeito, à direita e à esquerda, aos conquistados e aos conquistadores, personalidade independente e íntegra que era.. Isso mesmo “diz”, num poema, em versos de fogo, que já citámos: “Sou um traidor para Esparta para os hilotas espartano.

 O exílio é talvez o tema fundador desta poesia. É um tema milenar, cantado, desde há muitos séculos, pelos poetas – se calhar, porque ser poeta é já uma forma de se viver exilado. Já o dramaturgo e poeta Eurípedes cantava essa ferida, em versos como estes: “Não há perda maior / do que a perda da terra natal.” No caso de Alexandrou, pode dizer-se que o exílio foi ainda mais devastador, porquanto não chegou nunca a ter um enraizamento original de que se arrancasse depois: ser um “outsider”, sem mesmo a melancolia de uma “perda” foi a sua condição permanente – um exílio, por assim dizer, de toda a normalidade da condição humana.

Vivendo, primeiro, uma guerra – mal saído da adolescência – depois, uma guerra civil e, sempre, uma obstinada perseguição, Alexandrou teve, como paisagens quotidianas, o exílio, o cerco e a morte ou a proximidade dela.

 O poeta pergunta: “para que serve, afinal, todo este esforço?” À pergunta, escaldante, responde um poema, cujo título é a medalha dessa resposta: “Vais resistir” . Cito os últimos cinco versos:

" Aqui entre ruínas que foram semeadas com sal 
 queiras ou não vais continuar a andar
 calculando a inclinação das superfícies 
 vais persistir serrando tu mesmo as rochas 
 queiras ou não o teu próprio lugar vais ter que achar. "

 Isto é, mesmo que não acredites no resultado do esforço (Sísifo), mesmo que saibas ser o resultado de resistir uma acumulação de ruínas, mesmo assim, resiste e persiste. É esta a mensagem do poeta, herdeiro esbelto de Sísifo, com todo o panache que isso acarreta: dizer aos outros, aos menos fortes, que há outra vida, que não esta, de exílio, ruína e morte. “O poeta”, dizia Edith Sitwell, “fala a todos os homens dessa outra vida deles, que eles abafaram e esqueceram.” O poeta não a conheceu mas também não a esqueceu.

 Poderíamos, pois, resumir a “sabedoria” deste grande poeta, nestas “palavras de ordem”:

 - Se resistir não resolve, resiste.
- Se persistir não resulta, persiste.
- Se o mundo não faz sentido, faz de conta que faz.

 Eugénio Lisboa

Sobre o erro disse Huxley...

"O remorso crónico, e com isto todos os moralistas estão de acordo, é um sentimento bastante indesejável. Se considerais ter agido mal, arrependei-vos, corrigi os vosso erros na medida do possível e tentai conduzir-vos melhor na próxima vez. E não vos entregueis, sob nenhum pretexto, à meditação melancólica das vossas falhas. Rebolar no lodo não é, com certeza, a melhor maneira de alguém se lavar."
Estas foram as primeiras linhas que Aldous Huxley escreveu no prefácio da edição de 1946 do Admirável Mundo Novo.

Quinta-feira, 9 de Maio de 2013

QUESTÕES DOS ALUNOS DO 3.º A

 E os alunos do 3.º A da Quinta das Flores mandaram-me algumas questões:

Olá  somos a turma da escola EB1 Quinta das Flores - o 3.ºA - onde veio outro dia. Estamos a estudar os Astros e temos algumas dúvidas:

 Porque é que o céu é azul?
A luz do Sol é uma mistura de todas as cores, as cores do arco-íris. Se não houvesse atmosfera veríamos o Sol branco. Mas o ar, formado por pequenas partículas, espalha mais a luz azul, que se torna a nossos olhos a cor que domina. Portanto, o céu é azul graças ao Sol e à nossa atmosfera. Com outra estrela ou com outra atmosfera p céu poderia ser de outra cor. Sem atmosfera o céu é negro, tal como vêem os astronautas.

De que cor é o Universo?
A cor está associada à luz emitida pelos corpos do Universo. Não havendo luz, vemos negro: é o caso do céu à noite, se não houver luar (se houver luar, que é a luz do Sol reflectida na Lua, o céu continuará a ser azul, mas muito escuro). Há corpos de várias cores no Universo, por exemplo estrelas como o Sol. Há uma luz espalhada por todo o Universo, mesmo onde não há corpos: é  luz de microondas, que os nossos olhos não conseguem ver directamente e à qual por isso não atribuímos cor.

Porque é que os planetas são esféricos?
Por causa da lei de gravitação universal de Newton. Essa força atrai todos os objectos para o centro de uma corpo. O planeta formou-se atraindo coisas para o seu  centro.

Porque é que o Plutão (planeta anão) orbita em sentido contrário dos outros planetas - sentido contrário aos ponteiros do relógio?  
Não orbita em sentido contrário. Todos os planetas giram no mesmo sentido, o sentido contrário ao dos ponteiros do relógio, o que tem a ver com a origem do sistema solar a partir de uma nuvem de gás. A órbita de Plutão está um pouco inclinada relativamente à dos outros planetas.