domingo, 25 de setembro de 2016

OUTONO


À semelhança do grande escritor russo Fiódor Dostoiévski, o Outono também se me afigura como um tempo sombrio a condizer com o Outono da vida, numa espécie de angústia escondida face ao confronto com esta realidade, ao mesmo tempo que me traz memórias nostálgicas de há muitos, muitos anos.

Nunca gostei do Outono. Este sentimento enraizado em criança, creio que tem a ver com o ano em que me mandaram para a escola primária de São Mamede, tinha eu nove anos. O Verão, de que sempre gostei, mesmo sem nunca ter visto o mar e brincado na praia, acabara. Caíam as primeiras chuvas e a alegria do sol tinha dado lugar a um céu cinzento.

Quando, aos sete anos, chegou a minha vez de entrar para a 1ª classe, a minha mãe entendeu que eu era muito frágil para enfrentar a crueldade, repito, a crueldade de alguns dos seus “pedagogos” que ali exerciam o seu mister. E essa realidade entrava-nos quase diariamente, pela casa adentro, nas mãos do meu irmão Mário a frequentar a aula de um desses desalmados. Mesmo no inverno, com frieiras nos dedos, esse “bandido”, no dizer deste meu irmão, não se coibia de lhe ferrar meia dúzia de reguadas em cada mão.

Nesse tempo, o ano escolar chegava-nos com o mês de Outubro, mais precisamente, na segunda semana deste mês, um ou dois dias depois do feriado comemorativo da Implantação da República.

A pedido de minha mãe, o meu pai inscreveu-me no então Ensino Doméstico e a minha entrada na escola oficial só teve lugar aos nove anos, directamente para a 3ª classe, já suficientemente crescidinho para poder enfrentar os castigos do mestre-escola, nesse outro Outono igualmente sombrio e triste dominado pelo medo.

Talvez seja esta a razão pela qual nunca gostei do Outono. Entristecem-me o tempo chuvoso e os fins de tarde que encurtam os dias em contraste com os tardios ocasos do verão que findou.

Entristece-me o cair das folhas que encheram de verde as ruas e avenidas da cidade.

É, tradicionalmente, a época da caça desportiva, que de desporto não tem nada, actividade que repudio como atentado gratuito e cruel contra a vida de maravilhosas criações da mãe natureza, nossos pares na biodiversidade e detesto o Dia de Finados e os macabros crisântemos, de sinistro aroma, à porta dos cemitérios.

As castanhas assadas e o vinho novo pelo São Martinho não são suficientes para inverter este sentimento.

A. Galopim de Carvalho

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

CASA DAS CIÊNCIAS



Casa das Ciências. Recursos digitais para professores.
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E quando eu não puder decidir?

Informação dos Blogtailors:

Viver implica decidir e morrer. Se pensamos e avaliamos todas as decisões que tomamos no nosso quotidiano, por que evitamos fazer o mesmo com a morte? E Quando Eu Não Puder Decidir? é uma reflexão sobre os momentos em que podemos preparar um fim de vida com a dignidade, a paz e consciência de se terem tomado decisões de forma reflectida.
Mais do que uma análise angustiada e desesperada sobre a morte, pretende-se uma conversa sobre a vida na sua plenitude e finitude, as decisões que tomamos no quotidiano, a forma como lidamos ou não com a doença, a informação, o consentimento, bem como os desafios colocados pela eutanásia ou suicídio assistido.

Neste ensaio, que abre uma nova colecção da Fundação Francisco Manuel dos Santos, intitulada Ética Para O Nosso Tempo, Lucília Nunes reflecte sobre o fim de vida não como um momento, mas como um processo.

Recorrendo a verbos activos como pensar, distinguir ou consentir, a autora elabora sobre um dos temas fundamentais da filosofia e da ética e alerta para uma crescente distanciação da morte e como a tentamos esconder. Mais do que se focar na possibilidade de decidir o instante em que se coloca termo à vida, urge debater a forma como se chega a esse momento.
«Ao longo dos tempos, fomos lidando com a morte, umas vezes de formas mais próximas, atualmente de forma mais distanciada, às vezes como se não existisse. Para isso também tem contribuído o “morrer no hospital”, criando distância em relação ao quotidiano, afastando doentes e moribundos do contacto com os seus, medicalizando a morte. Prestamos pouca atenção ao facto de não podermos vencer a morte mas podermos lidar com o medo que temos dela.»
E Quando Eu Não Puder Decidir? é o volume inaugural da nova coleção da Fundação Francisco Manuel dos Santos, Ética para os Nossos Dias. Uma coleção que pretende trazer o debate sobre questões éticas transversais a toda a comunidade para a realidade e o discurso contemporâneo. Serão dez títulos, assinados por notáveis figuras e qualificados especialistas, que explorarão e esclarecerão algumas das questões éticas do nosso tempo, que muitas vezes dividem a opinião púbica.

A coleção é fruto de uma parceria entre a FFMS e o Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida. Com E Quando Eu Não Puder Decidir? como primeiro volume, seguir-se-ão outros nove a publicar ao longo de 2017.

Lucília Nunes é doutorada em Filosofia, com agregação em Filosofia, especialidade Ética. Vice-presidente do Conselho Nacional de Éticas para as Ciências da Vida, Presidente do Conselho Técnico-Científico e responsável pelo Departamento de Enfermagem da Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Setúbal. É também membro da Comissão de Ética para a Saúde do Centro Hospitalar de Setúbal.
Já disponível na bancas.

O lançamento de E Quando Eu Não Puder Decidir? e da coleção Ética para os Nossos Dias terá lugar no Salão Nobre da Reitoria da Universidade de Lisboa, no dia 27 de setembro, entre as 18.30 e as 19.30. A apresentação contará com a presença da autora e estará a cargo de João Lobo Antunes e António Araújo, director da Fundação Francisco Manuel dos Santos. 

90%* do caro leitor foi feito nas estrelas


Apresentação, em primeira mão, do livro de Alexandre Aibéo, com o título de cima, que é o próximo da colecção "Ciência Viva". este é o capítulo introdutório do livro (o primeiro que conheço que tem uma nota de rodapé no título).

"Nem sei bem por onde começar... se pelo título, uma mistura entre slogan de auto‑ajuda, impresso
numa t‑shirt, e o nome de uma novela da hora de almoço; se pelo fascínio que a Astronomia me suscita ou da paixão que é transmiti‑lo; se pela lenta cadência que será iniciar uma relação consigo, amigo leitor, ainda antes de encetarmos esta série de conversas que resolvi juntar sob a forma de livro.

Diz‑me a experiência de quase vinte anos a comunicar ciência que a Astronomia é, geralmente, algo que desperta o interesse das pessoas... mas devo dizer‑lhe que já me aconteceu de tudo! Desde públicos mais interessados numa carroça puxada por uma burra [1] até miúdos completamente extasiados por simplesmente espreitarem por um telescópio, apesar de as nuvens não lhes permitirem ver astro algum.

Sei bem que o leitor, que agora me segue nestas linhas, nutre alguma curiosidade pelo mundo que o rodeia, mas deixe‑me já garantir‑lhe que, no fim das nossas conversas, a sua noção de mundo terá mudado. Existe, claro, uma possibilidade de tal não acontecer e isso significará que este volume deveria ter ido mais longe: falar‑lhe da fusão de buracos negros, da detecção de neutrinos, na essência da energia escura, das técnicas para detectar a atmosfera de planetas extra‑solares, da possibilidade de objectos de outros sistemas estelares estarem a orbitar o nosso Sol. Repare, contudo, que não o conhecendo não faria muito sentido alavancar‑me para essas questões sem saber se outros temas mais «prosaicos» lhe são familiares.

Terá certamente notado que não tenho um discurso infantilizado; mesmo quando me dirijo a crianças, não o uso. O meu ponto de partida é, no entanto, uma criança de oito anos. O que estou a dizer é que assumo sempre que o meu público tem os mesmos conhecimentos científicos e igual espírito inquisitivo. E este é também o meu ponto de chegada — pretendo que após este nosso encontro o caro leitor se sinta de novo um miúdo de oito anos: siderado, com a imaginação «a mil» e ansioso por saber, conhecer, perguntar‑se mais!

A matriz deste livro é uma série de palestras que tenho «colocado no terreno» nos últimos anos, a maior parte delas muito testadas, reformuladas e muito reescritas, são, em grande medida, fruto da ligação com as pessoas. É importante que o público se sinta identificado com o que lê ou ouve, mas não é esse o meu objectivo, a ideia é antes atirá‑lo para fora de si, para fora do sistema solar,
arremessá‑lo pelo espaço fora e puxá‑lo, para na volta questionar as suas referências iniciais. Pode ser violento, bem sei. Poder‑se‑á encontrar a pensar nos impressos do IRS, estar preso no trânsito ou à espera do autocarro e,  ao mesmo tempo, deixar‑se levar para a superfície solar e ver as arcadas de plasma que o circundam, atravessar uma estrela até ao seu interior momentos antes de ela explodir, ou a tentar compreender os instantes imediatamente após o início do Universo. Tudo no mesmo dia! Na viagem de volta verá toda a história humana, todo o conhecimento e ideias, todas as angústias, as perdas, as vitórias, as alegrias, todas as lágrimas, reduzidas a um pequeno, insignificante, pontinho azul‑claro [2]. Num piscar de olhos do Universo, este ponto ter‑se‑á obliterado, mas não para sempre... Todos os átomos serão espalhados e reaproveitados para fazer novas estrelas e, quase certamente, novos planetas, nova vida e, quem sabe, novas angústias e alegrias, novo conhecimento e ideias, novas lágrimas que desta vez poderão não ser de água e cloreto de sódio.

Devo confessar‑lhe que, enquanto punha no papel estas conversas sob o formato de livro de divulgação científica, acusei o toque da responsabilidade, não só pela necessidade de rigor como pelo facto de ter de me comparar, se alguma comparação é possível, com nomes tão grandes como Carl Sagan, Hubert Reeves, Stephen Hawking, Brian Cox, Brian Greene, e muitos outros que, ao longo das décadas, têm publicado tratados absolutamente extraordinários e têm guiado e produzido gerações de novos cientistas nos quais este seu autor se inscreve.

Vemos uma profusão imensa de informação, está em todo o lado e caminha, literalmente, no nosso bolso. «Está tudo na internet!», não é raro ouvir‑se dizer. É fundamental, contudo, perceber que informação não é conhecimento, muitas vezes até são opostos. Uma colagem de informações gera, regra geral, uma visão distorcida do mundo que nos rodeia e é aqui que a explicação se assume como fulcral para a construção do conhecimento. Nunca, como hoje, foram necessários a conversa, o artigo, o livro.

Mas que tem este livro de novo ou diferente, porque não ficar com os grandes mestres? Posso apenas
dizer‑lhe que procurei ser fiel à minha experiência de «campo» e que assumi esticar o limite do simples livro de divulgação. Introduzo algum formalismo, mas não se assuste: proponho‑lhe,
sempre que possível, caminhos alternativos se não quiser explorar a elegância da matemática. Acredito, no entanto, que, na altura devida, se sentirá suficientemente confiante para me seguir. Na
verdade, a natureza está escrita em linguagem matemática, é o idioma em que ela se revela, especialmente quando roça os limites da nossa imaginação.

Procurei um tom coloquial de escrita, como certamente já terá percebido, convidando‑o para as poltronas que tenho junto à janela na sala lá de casa. Arranjo‑lhe uma bebida fresca ou um chocolate quente, até talvez uns aperitivos, enquanto conversamos sobre Astronomia e tudo o resto que vier a propósito. Se não souber responder a todas as suas questões, então estamos no bom caminho, iremos procurar as respostas e, com toda a certeza, descobrir novas perguntas. No penúltimo capítulo puxarei um pouco mais por si com o único intuito de o lançar mais longe... Imagine‑se colocado numa fisga com o elástico bem tensionado e prestes a ser largado... É assim que espero que se sinta no final deste livro.

Antes de lhe servir o café ou o refresco deixe‑me contar‑lhe uma história. Quando comecei nestas andanças da promoção da cultura científica, julgava que uma boa idade para o público‑alvo seria os quinze anos. Argumentava na altura que seria essa a idade em que já se dominaria algumas ferramentas científicas essenciais e a partir das quais já seria possível construir algo mais robusto. À medida que os anos foram passando, fui antecipando essa idade e, neste momento, julgo que devemos começar de forma orientada ao três anos de idade. É aí o tempo certo para se dar a revolução! Certo dia convidaram‑me para ir a um jardim de infância falar sobre Astronomia, levei um projector de vídeo, na altura ainda pesavam dez quilos, e mostrei algumas fotografias de nebulosas, maternidades de estrelas, explicando de forma muito simples, para crianças dos três aos seis anos, que as estrelas são como as pessoas, também nascem e crescem.

Após muitos «Ahhhhs» e «Oohhhhhhss» de espanto, seguiu‑se um imenso rol de perguntas e uma delas foi sobre eclipses. Pegando em três meninos mais velhinhos pela mão, dei‑lhes os papéis de Sol, Terra e Lua para, com os seus movimentos relativos, lhes explicar o que provocava o eclipse. Estava eu no processo de montar a mecânica deste modelo simples do mundo quando sinto algo a puxar‑me
as calças: um menino de três anos tinha‑se levantado e chamava‑me para me dizer: «Eu queria ser o Mercúrio!»

Estas próximas páginas, amigo leitor, são para que se sinta a querer ser, de novo, «o Mercúrio».

Alexandre Aibéo

*Proporção em massa.

1 História verídica. Este livro está cheio de notas de rodapé, como terá certamente reparado logo na capa. Serão momentos de descontracção ou notas que prezam o rigor. No fundo, uma surpresa constante!

2 «A pale blue dot», diria Carl Sagan.

O INTRÉPIDO CAPITÂO LUNARDI


Meu artigo no último "As Letras entre as Artes":

O recente Congresso Internacional sobre Manuel Maria Barbosa do Bocage (1765 1805), realizado em Setúbal), foi uma excelente oportunidade para lembrar as primeiras ascensões em balão em Portugal, já que ele assistiu à  primeira subida em balão em Portugal, um evento que celebrou em verso.  O primeiro balonista entre nós foi o “capitão” italiano Vincenzo Lunardi (1759-1806) e a proeza foi efectuada do Terreiro do Paço em Lisboa no dia 24 de Agosto de 1794.

O Padre Bartolomeu de Gusmão (1685-1724) teve o mérito de ter sido o primeiro em todo o mundo a efectuar uma experiência subida de um pequeno balão de ar quente, no interior de um edifício. O eventio deu-se a 8/8/1709 na presença do rei D. João V, numa sala do seu Palácio, no Terreiro do Paço em Lisboa. A experiência, embora pioneira, não teve seguimento, talvez devido à onda de chacota que se abateu sobre o “padre voador”. O poeta Tomás Pinto Brandão (1664-1743) foi uma das vozes mais verrinosas.

O balonismo haveria de ser redescoberto, sete décadas mais tarde, com a primeira experiência não tripulada, agora já ao ar livre, efectuada em Annonay, França, em 5/6/1783, pelos irmãos Montgolfier. Estes realizaram uma experiência diante do rei Luís XVI em Versailles, com animais a bordo, a 19/9/1783, que precedeu a primeira subida tripulada, protagonizada pelo físico Pilâtre de Rozier e pelo Marquês de Arlandes, em Paris, a 21/11/1783, Mas uma tecnologia alternativa ao ar quente é a dos balões de hidrogénio, que foi testada pelo físico Jacques Charles e pelos seus assistentes Robert em Paris, em 27/8/1783 (um evento presenciado pelo poeta português Filinto Elísio, 1734-1819, fugido da Inquisição portuguesa, que compôs uma ode aos “novos Gamas”). Charles e Robert fizeram uma ascensão tripulada em Paris no dia 1/12/1783.

Em Portugal as primeiras experiências não tripuladas ao ar livre foram efectuadas pelo Padre João Faustino, nos Jardins do Paço da Ajuda, em Lisboa, em 3/4/1784, uma experiência que foi replicada em Coimbra pelo lente de Química Domingos Vandelli e seus discípulos no largo em frente ao Laboratorio Chimico em 25/7/1784.

O capitão Lunardi não era, de facto, capitão. Ganhou direito ao título honorífico, que dava direito ao uso da farda, pela Honorável Companhia de Artilheiros, de cujo quartel em Londres partiu em 15/9/1784 a primeira ascensão em balão em solo inglês, movido a hidrogénio (a tecnologia triunfante). Essa experiência haveria de ser repetida onze vezes, na Inglaterra e na Escócia, até um acidente ter ensombrado a florescente carreira britânica de Lunardi. O capitão era um aventureiro, secretário do embaixador do Reino de Nápoles em Londres, com quem partilhava a adesão à Maçonaria. Alcançou fama nas ilhas britânicas, tendo sido dado o nome de “lunardi” a um chapéu em forma de balão.

 Lunardi dirigiu-se então para Itália, tendo feito ascensões em Roma (8/07/1788), Nápoles (13/9/1789) e Palermo (31/7/1790). Depois viajou até Madrid, onde se elevou nos céus num balão  a  12/08/1792 e a 8/01/1793, Finalmente no final de 1793 chegou a Lisboa. Ao contrário do que se passou noutras terras – foi o primeiro a subir em Inglaterra, Itália e Espanha, com a presença de membros da família real – em Lisboa deparou com inusitadas dificuldades. Talvez devido às ligações maçónicas do italiano, o intendente Pina Manique levantou impedimentos à concretização da ideia de fazer uma ascensão a partir do Terreiro do Paço, tendo inclusivamente ordenado a sua prisão no Limoeiro. Finalmente, e após boa procura de de bilhetes, Lunardi conseguiu encher o Terreiro do Paço de povo que o viu subir  no dia 24/8/1794. O príncipe regente D. João estava em Queluz e não teve curiosidade em vir assistir ao voo. Bocage escreveu um soneto exaltando a proeza: 

“Ressoa, aplaude, exalta o sábio, o forte,
  Que, além das altas nuvens assomaiado,
 Colheu no Olimpo o antidoto da morte.” 

Num poema mais alargado da mesma altura Elogio poético à admirável intrepidez, com que, em Domingo 24 de Agosto de 1794, subiu o Capitão Lunardi no Balão Aerostático, publicado em folheto, deu largas à exaltação do feito, comparandoa aventura dos ares à epopeia marítima: 

“Gamas, Colombos, Magalhães famosos.
 Eternos no áureo Templo da Memória,
 Sirtes domando os Mares espantosos.
 De assombros mil e mil dourais a História; 
Mas ir dar leis aos ares espaçosos 
É triunfo maior, e até mais glória. 
Porque não traz à louca, à cega Gente
Os males de que sois causa inocente.” 

Não foi só Bocage que versejou sobre Lunardi. O mesmo fez o impetuoso poeta José Agostinho de Macedo (1761-1831). E, mais tarde, em Noites de Insónia, Camilo Castelo Branco (1825-1890) haveria de lamentar, em prosa, as dificuldades que Lunardi enfrentou entre nós. O voo de Lunardi chegou até perto de Vendas Novas, tendo o aeronauta voltado a Lisboa ao fim de duas noites e um dia. Ele próprio escreveu um relato da viagem num prospecto que publicou, que contém uma gravura do balão (provavelmente o mesmo que usou em Madrid).

 Lunardi repetiu o seu voo no Porto. Existe uma gravura relativa ao evento portuense que noticia  que  “às 5 horas e 12 minutos do dia 10 de Março de 1795, na praça de Santo Ovídio [hoje Praça da República, Cedofeita) subiu esta Máquina, e viajou até Sobreiras [Lordelo do Ouro] (...) Desceu às seis horas da mesma tarde”. Mas há pouca informação sobre este primeiro voo no Norte do país.


Quer Lisboa quer o Porto foram palco de voos antes de Barcelona. Foi ainda Lunardi o primeiro aeronauta a subir em Barcelona no dia  5/11/1802, tendo sido salvo por pescadores após queda no Mediterrâneo. Pouco se sabe sobre o fim de Lunardi. Sabe-se, porém, que morreu em Lisboa em 1606. Uma de duas – ou gostou de aqui ficar (era um galã, mas morreu solteiro) ou, mais provavelmente, ficou pobre e doente em Portugal. A Gazeta de Lisboa informou em 15/08/1806 que o intrépido capitão tinha falecido nno dia 1/8/1806 após internamento prolongado no Hospício dos Capuchinhos italianos em Lisboa.

Imagem: Pescadores catalães a resgatarem Lunardi no Mediterrâneo no seu voo de Barcelona, de 1802, o único que fez após os seus voos portugueses.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Investigação em História da Medicina Tropical

Um grupo de investigadores de vários países reuniu-se em Lisboa, entre 14 e 16 de Outubro de 2015, para apresentar e debater os resultados das suas pesquisas no âmbito da História da Medicina Tropical. O objetivo foi promover uma “reflexão histórico-social obre o papel da medicina tropical no âmbito da saúde pública global, nos séculos XIX e XX” [1]. Os três dias de evento deram lugar a 17 sessões temáticas, 66 comunicações, 3 conferências plenárias, uma mesa redonda, 2 exposições e uma visita ao Museu da Associação Nacional de Farmácias [2].

Estas apresentações levaram à publicação de artigos nos Anais do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, num volume especial dedicado a este encontro. Na impossibilidade de referir todos os artigos, irei debruçar-me apenas sobre aqueles que foram escritos pelos investigadores do Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia (CIUHCT), por ser o centro de investigação ao qual pertenço. O total dos artigos pode ser consultado aqui.


A professora Isabel Amaral analisou o impacto da II Guerra Mundial na obra de Aldo Castellani (1877-1971) e a influência do médico na escola portuguesa de medicina tropical (1946-1971), partindo do estudo do espólio legado ao Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT).

O italiano Aldo Castellani foi investigador na London School of Tropical Medicine e na Ceylon Medical College, onde estudou a doença do sono e a framboesia, respetivamente. Ensinou micologia, medicina tropical e foi médico pessoal da Família de Savóia, que acompanhou no seu exílio para Portugal, após a II Guerra Mundial. Quando chegou a Portugal já era conhecido dos médicos tropicalistas, pois, no início do século XX, vira-se envolvido numa disputa internacional com os médicos portugueses sobre quem tinha descoberto o agente etiológico responsável pela Doença do Sono. A prioridade da descoberta seria dada à equipa inglesa, da qual Castellani fazia parte. A sua carreira foi pautada pela identificação de microrganismos responsáveis pela causa de doenças tropicais. Autor prolífico, publicou mais de 500 artigos científicos. Apesar de estar inserido na comunidade médica portuguesa, optou por movimentar-se por outros circuitos, buscando reconhecimento internacional. [3]

O trajeto de Francisco de Cambournac na OMS (1952-1964) foi estudado pela Rita Lobo e por mim, cujos resultados apresentámos em co-autoria. Tendo encontrado novos documentos em arquivo, conseguimos complementar uma lacuna existente na historiografia da medicina tropical, discutindo os meandros da escolha de Cambournac para o Bureau Regional Africano da OMS [4]. Os resultados do nosso trabalho já mereceram destaque na Imprensa.

Sendo a literatura farmacêutica no século XVIII relevante para a história da farmácia e da medicina portuguesa, Wellington Filho apresentou o estudo das obras de Frei Jesus Maria (1716-1795), monge-boticário e administrador da botica do Mosteiro de Santo Tirso, influenciado pela classificação de Lineu e pela ilustração do naturalista Domenico Vandelli - duas figuras históricas importantes para a Botânica. As obras de Jesus Maria revelavam a preocupação em melhor utilizar as riquezas coloniais e em conciliar os conhecimentos populares do uso das plantas com o conhecimento médico-farmacêutico do Iluminismo [5].

Ana Paula Silva, num artigo exploratório, recorrendo a análise de documentos, procura argumentar que o trabalho de técnicos e cientistas portugueses, nos anos 1960-1970, envolvidos na construção do lago artificial de Cahora Bassa, terá aberto o caminho para a Medicina Ambiental em Portugal e para a atual linha de investigação transversal do IHMT, as “Doenças Emergentes e Alterações Ambientais”. Este trabalho deixou-lhe em aberto uma questão que procurará responder no futuro, se a Medicina Ambiental foi introduzida em Portugal através da Medicina Tropical [6].

Na organização do evento, estiveram envolvidos o Centro Interuniversitário de História das Ciências e Tecnologia (CIUHCT), a Faculdade de Ciências e Tecnologia da Univ. Nova de Lisboa (FCT-UNL), o Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT), a Casa de Oswaldo Cruz, a Universidade de York e a Fundação Friedrich Ebert.

Notas:
[1] Isabel Amaral (2016), in Anais do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, p.7
[2] Maria Paula Diogo (2016), idem, p.17
[3] Isabel Amaral (2016), idem, pp.119-124
[4] Rita Lobo & João Lourenço Monteiro (2016), idem, pp.133-140
[5] Wellington Filho (2016), idem, pp.161-166
[6] Ana Paula Silva (2016), idem, pp.175-182

"Todo o sistema educativo europeu está feito para esmagar a inteligência"

Extractos de uma entrevista realizada por Paulo Moura ao jornalista e escritor espanhol Arturo Pérez-Reverte, publicada hoje no jornal Público.
"A boa e velha Europa dos direitos do homem, que iluminou o mundo, essa Europa que nasce na Bíblia, no Talmude, no Islão, em Homero e em Dante, em Virgílio, Camões, Cervantes, Voltaire e Rousseau, na Enciclopédia e na Revolução Francesa, essa Europa foi condenada à morte. E isso é um problema de educação. Estamos a criar gerações de jovens que carecem de mecanismos culturais e históricos que lhes permitam saber quem são. Estamos a criar órfãos culturais. Todo o sistema educativo europeu está feito para esmagar a inteligência. Para igualá-la à mediocridade. 
(Mas alguma vez foi diferente?)
Antes era diferente, sim. Antes, o miúdo brilhante era apoiado, potenciado, porque sabiam que dali sairia a elite do futuro. Aqueles que poderiam iluminar os que o não são. 
(Mas isso não era característica de um ensino mais elitista? Talvez o nível médio tenha descido porque agora muitos mais têm acesso à Educação.)
Não. Uma coisa é todos terem acesso, que é um princípio irrebatível. Outra coisa é que os brilhantes não tenham direito a subir a um patamar superior. Se numa turma há um medíocre e um brilhante, o medíocre não pode ficar para trás, mas o brilhante não pode ser mandado para trás do medíocre. Ou estaremos a esmagar a inteligência. Veja os políticos. Onde está um Churchill? Um Adenauer? Um De Gaule, um Kennedy?  
(Mas ainda se ensina História nas escolas)
É uma História desnatada, pasteurizada, homogeneizada, sem referências."

É função dos pais protegerem os seus filhos

A exposição da vida privada (própria e de outrem) nos meios de comunicação social, em especial no espaço online, tem-se revelado particularmente aliciante. As ditas novas tecnologias da informação e da comunicação, ao acesso de todos, permitem essa exposição no imediato e com retorno também imediato. A gratificação (e a punição) na hora, são, pelo que me é dado perceber, empolgantes.

Sem grande compreensão do sentido e das consequências dessa exposição, sem filtros morais, legais e outros ou, simplesmente, negligenciando-os, mais novos e mais velhos, mais escolarizados e menos escolarizados, assumem-se como personagens centrais de alguma coisa e falam de si e dos que lhe são próximos como se estivessem a falar descontraidamente com os amigos do peito, mostram vídeos e fotografias cujo lugar é o álbum de família.

Serão discursos e imagens reais, imaginados os falsos, isso pouco importa; o que importa é o estímulo, o impulso que milhões e milhões de pessoas sentem para mostrarem a sua vida privada ou uma vida privada que fabricam com intenções diversas a outros tantos milhões de pessoas.

Isto entranhou-se tão depressa e vê-se como tão normal que, não se estranhando, não é, naturalmente, notícia. Notícia é uma ou outra reacção contra sempre muito isolada.

Por isso, é notícia o caso de uma rapariga australiana que, contra-maré, pediu aos pais para retirarem fotografias suas do espaço online, que eles publicaram ao longo da sua infância e adolescência.  Diz-se que o pai recusou, muito determinado, esse pedido, alegando que, tendo sido ele a tirar as fotografias, elas lhe pertence e faz delas o que entender. Um processo em tribunal contra os pais foi o passo que a rapariga entendeu dar de seguida.

Recorda-se na notícia que corre nos nossos jornais a declaração de um colectivo de juízes do Tribunal da Relação de Évora (ver aqui), a propósito de um caso que se passou entre nós e que também chegou a tribunal, “Na verdade, os filhos não são coisas ou objetos pertencentes aos pais e de que estes podem dispor a seu belo prazer. São pessoas e consequentemente titulares de direitos."

Os pais deveriam ter este princípio tão simples em conta quando decidem, de maneira mais ou menos consciente, expor os seus filhos ao mundo e para sempre. É função dos pais protegerem os seus filhos.

Maria Helena Damião  

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Precisão de relojoeiro nos detalhes da esporulação de bactérias


Se já sabemos o que nos faz ter neurónios, glóbulos brancos ou epiderme, apesar de todas essas células terem exactamente os mesmos genes, em bactérias esses mecanismos são ainda pouco conhecidos. Perceber como funciona a formação de esporos bacterianos é essencial para saber como podem depois voltar à forma activa e desencadearem infecções. Investigadores do Instituto de Tecnologia Química e Biológica António Xavier, ITQB NOVA, publicaram na prestigiada revista científica PLOS Genetics o intrincado mecanismo responsável pela forma final de esporos na bactéria patogénica Clostridium difficile.

O Clostridium difficile (ou C. difficile) é uma bactéria que persiste em infecções hospitalares. Provoca um síndrome intestinal, cujos sintomas podem ir de diarreia simples a complicações potencialmente mortais. Estas bactérias têm a capacidade de disseminar e persistir em ambiente hospitalar graças à sua capacidade para formar esporos que resistem ao ar e também aos desinfectantes. Como não respondem à maioria dos antibióticos disponíveis, é urgente encontrar-se formas de conter a propagação dos esporos e desenvolver novas terapias.

A esporulação passa pela formação de um pré-esporo dentro de uma célula-mãe; o pré-esporo será um “condensado” de bacteria, com os elementos essenciais para o seu crescimento quando encontrar condições favoráveis. Contém o genoma e algumas proteínas essenciais. A célula-mãe que o contém tem o mesmo genoma e todo o conteúdo normal de uma célula bacteriana.

Bactérias de Clostridium difficile, esporos a laranja ou a verde e célula mãe a azul. 

Durante o processo de formação de esporos, são precisos centenas de genes para que tudo decorra com o rigor e precisão necessários para garantir a sobrevivência do esporo. Nada é deixado ao acaso, e o modo como cada gene é posto a trabalhar em cada altura é fundamental.

Sabia-se que uma proteína, chamada sigmaK, é responsável pela formação da camada exterior do esporo, sendo a superfície do esporo importante para a infecção. O que o grupo do investigador Adriano Henriques agora percebeu é que o mecanismo que controla sigmaK é muito mais complicado do que se pensava. 

A investigadora Mónica Serrano dedicou os últimos meses a tentar responder à questão de que proteínas regulam quais, de que forma e em que altura. Os resultados agora publicados na PLOS Genetics dão-nos a descobrir um intrincado mecanismo de relojoeiro, controlado de forma muito precisa. A activação da proteína sigmaK requer a excisão da sequência que interrompe o gene, pela acção de uma enzima chamada recombinase. A actividade desta recombinase é controlada por outra proteína, e são estas que em conjunto determinam o tempo exacto de activação do sigmaK. A alteração deste controlo temporal resulta em defeitos drásticos na estrutura da superfície do esporo - pode-se ver na imagem abaixo a diferença entre a integridade do esporo bem produzido e a desagregação completa das camadas exteriores na ausência deste controlo. Com o desvendar do mecanismo molecular, perceberam ainda que a recombinase tem a capacidade de tirar, inserir e inverter genes bacterianos, o que abre novas possibilidades de engenharia genética in vivo e in vitro.

 
 Esporo normal (esquerda) e esporo produzido na ausência de controlo sigmaK. Imagem captada pelo Laboratório de Desenvolvimento Bacteriano ITQB NOVA

“Um dos aspectos mais excitantes do trabalho é que enquanto que o controlo da excisão da sequência que interrompe o gene  sigmaK é essencial para a formação correcta da superfície do esporo, por sua vez importante para a interação do esporo com as células do hospedeiro durante a infecção, sabemos agora que nalgumas estirpes epidémicas o gene sigmaK não está interrompido. A previsão é de que estas estirpes tenham descoberto um modo, manipulando o tempo de activação da proteína SigmaK, de gerar um esporo com uma superfície alterada, que em certas circunstâncias pode representar um modo de “esconder” aquilo que seria um esporo normal do hospedeiro, facilitando assim a infecção”, segundo Adriano Henriques.


Os investigadores do Laboratório de Desenvolvimento Microbiano do ITQB NOVA

Devemos temer os químicos?

Créditos: Dicasfree

O Diário de Notícias (DN) publicou hoje a minha opinião sobre o receio generalizado dos químicos, que pode ser lida aqui: Devemos temer os químicos?.

Surgiu a ideia deste texto após ter lido uma notícia, na semana passada, precisamente sobre os perigos dos químicos. Esta notícia tinha por base um estudo que analisou as substâncias químicas no interior das casas dos Estados Unidos da América. Apesar do artigo científico apresentar uma análise ponderada, a notícia saiu com um tom algo alarmista. Além disso, também o químico monóxido de di-hidrogénio (H2O) foi descrito como um perigo, mesmo tendo reconhecido que se tratava da água. 

Assim, é de valorizar o trabalho do DN pela abertura em publicar agora este texto, que esperamos que ajude a esclarecer conceitos. 

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Os cigarros electrónicos são inócuos como iogurtes?


O meu artigo mais recente no PÚBLICO:



Foi aprovado em Conselho de Ministros na passada quinta-feira um projecto de lei que altera a Lei do Tabaco, que passa a incluir no conceito de fumar os novos produtos de tabaco sem combustão, A intenção já era conhecida e a deputada Isabel Moreira tinha reagido antecipadamente, afirmando que isso seria “a mesma coisa que equiparar cigarros a iogurtes”. 

Para além da nicotina, os líquidos dos cigarros electrónicos contêm substâncias relativamente inofensivas. Mas estas são aquecidas e podem ocorrer reacções químicas. Será que os produtos dessas reacções, aquilo que realmente é inalado, podem ser problemáticos? Num estudo publicado em 2014, investigadores procuraram agentes cancerígenos e tóxicos no vapor de cigarros electrónicos de 12 marcas. E detectaram vários, como formaldeído, tolueno ou acetaldeído. Mas em quantidades muito menores do que as que há no fumo de cigarros convencionais. O formaldeído está presente numa quantidade nove vezes mais baixa. E há 450 vezes menos acetaldeído no vapor de um cigarro electrónico. Mas nem tudo são boas notícias. Uma outra investigação de 2015 encontrou partículas muito pequenas de cobre, numa concentração seis vezes superior à do fumo de tabaco. Foram detectadas também espécies reactivas de oxigénio (radicais livres), associados à carcinogénese, em quantidades semelhantes às dos cigarros convencionais.



Quanto à nicotina, apesar de ser extremamente viciante, considera-se que na maior parte dos casos não causa problemas significativos de saúde em adultos. Mas não é inofensiva. Um relatório de 2014 do Centro para o Controlo e Prevenção de Doenças norte americano concluiu que a exposição durante a gravidez afecta negativamente o desenvolvimento cerebral do feto, aumenta o número de partos prematuros e de nados-mortos. Durante a adolescência também tem consequências negativas no desenvolvimento do cérebro.
Os cigarros electrónicos parecem bem menos tóxicos, mas estão muito longe de serem inócuos. E isso vale também para os “vapeadores” passivos. Uma investigação de 2014 concluiu que estes estão expostos a componentes prejudiciais do vapor em segunda mão, tais como hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (cancerígenos) e metais, dispersos em partículas muito finas que se podem depositar nos pulmões. Os investigadores alertam em particular para riscos de toxicidade do “vapeamento" passivo em crianças.


Todos os meus textos publicados na mesma rubrica: http://www.publico.pt/a-serio