sábado, 24 de fevereiro de 2018

Por que aprendemos melhor ciência quando se parece com um romance?


Palestra sobre

"Por que aprendemos melhor ciência quando se parece com um romance?

O Ensino das Ciências através de narrativas literárias."


por

Sara Soares
ISCTE- Lisboa - Departamento de Psicologia Social e das Organizações
e CIS-IUL - Centro de Investigação e de Intervenção Social

No RÓMULO- Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra

Dep. Física da Universidade - Piso 0

A palestrante e o tema da palestra  serão apreesntados por Carlos Fiolhais, director do Centro.

Segunda feira, dia 26 de Fevereiro 2018, 18 h

Entrada livre

ZOMBIES E CÁLCULO


Acaba de sair o n.º 225 da colecção Ciência Aberta:

Resumo:

Como pode o cálculo ajudá-lo a sobreviver a um apocalipse de zombies? Colin Adams, um dos divulgadores de matemática mais criativos e divertidos, revela o segredo nesta fantástica aventura de zombies.

Zombies & Cálculo conta a história de um professor de Matemática numa pequena cidade americana, que, a meio de uma aula de Cálculo Infinitesimal, se vê confrontado com um aluno retardatário cuja fome não é de conhecimento... À medida que o vírus zombie se espalha e a civilização se desmorona, o professor usa o cálculo para ajudar o seu pequeno grupo de sobreviventes a derrotar as hordas dos mortos-vivos.

Com este livro, os leitores ficam a saber como evitar ser comidos aproveitando o facto de os zombies apontarem sempre o seu vector tangente ao alvo, e também como usar o crescimento exponencial para determinar uma taxa de propagação viral. Também são tratados tópicos como a aceleração da gravidade, modelos predadores-presas, problemas de perseguição, a física do combate e muito mais. Um livro bastante útil: graças a ele, o leitor poderá sobreviver a um ataque zombie. E enquanto ele não acontece, pode divertir-se com a leitura.

Contendo apêndices que explicam a matemática do livro em maior pormenor mas de um modo acessível, Zombies & Cálculo é recomendado tanto para aqueles que foram recentemente apanhados pelo vírus do cálculo, como para aqueles cuja «doença» já se encontra num estado mais avançado. E ainda para aqueles que ainda não sabem sequer o que é o cálculo.

Bio do autor:

Colin Adams é professor de Matemática no Williams College, Massachusetts, Estados Unidos. É o autor, entre outros livros pedagógicos e de divulgação, do The Knot Book e How to Ace Calculus e vencedor do Distinguished Teaching Award de 1998 da Sociedade Americana de Matemática. É colunista de humor da revista Mathematical Intelligencer.

LISTA BIBLIOGRÁFICA de Richard Phillips Feynman (1918-1988) , Nobel da Física em 1965



Nos 100 anos do físico Richard Feynman, divulgamos uma lista 
bibliográfica de obras dele e sobre ele:


Obras do Autor disponíveis no RÓMULO CCVUC (por ordem cronológica de publicação)

The development of the space-time view of quantum electrodynamics : Nobel Lecture, 1965. [Stockholm] : The Nobel Foundation, 1966.

The character of physical law. Cambridge : MIT Press, 1970. ISBN 0262560038.

La nature de la physique. Tradution Hélène Isaac, Jean-Marc Lévy-Leblond, François Balibar. Paris : Éditions du Seuil, 1980. (Science Ouverte ; S23). ISBN 2020056585.

“Surely you're joking, Mr. Feynman!” : adventures on a curious character. London : Unwin Paperbacks, 1986. (Counterpoint). ISBN 0045300232.

FEYNMAN, Richard P. ; WEINBERG, Steven – Elementary particles and the laws of physics : the 1986 Dirac Memorial Lectures. Cambridge : Cambridge University Press, 1987. ISBN 0521340004.

QED : a estranha teoria da luz e da matéria. Tradução Ana Maria Ovídio Baptista. 1ª ed. Lisboa : Gradiva, 1988. (Ciência Aberta ; 25).

O que é uma lei física?. Tradução de Carlos Fiolhais. 1ª ed. Lisboa : Gradiva, 1989. (Ciência Aberta ; 35). ISBN 9726621380.

What do you care what other people think? : further adventures of a curious character. London : Unwin Hyman, 1989. ISBN 0044403410.

Uma tarde com o Sr. Feynman : que é a ciência?, Conferência Nobel e outros textos. Introdução, apresentação, notas e tradução A. M. Nunes dos Santos, C. Auretta. Lisboa : Gradiva, 1991. (Panfletos Gradiva ; 16). ISBN 9726622204.

Six easy pieces : essentials of physics explained by its most brilliant teacher. 3ª imp. New York : Addison-Wesley, 1995. ISBN 0201409550.

Está a brincar, Sr. Feynman! : retrato de um físico enquanto homem. Tradução Isabel Neves. 3ª ed. Lisboa : Gradiva, 1998. (Ciência Aberta ; 21). ISBN 726620384.

The meaning of it all : thoughts of a citizen scientist. Massachusetts : Addison-Wesley, 1998. (Helix Books). ISBN 0201360802.

The pleasure of finding things out : the best short works of Richard P. Feynman. Edited by Jeffrey Robbins. London : Allen Lane, 2000. ISBN 0713994371.

Seis lições sobre os fundamentos da física. Tradução de Maria Teresa Escoval. 1ª ed. Lisboa : Presença, 2000. (Universidade Hoje ; 13). ISBN 9722325957.

"Nem sempre a brincar, Sr. Feynman!" : novos elementos para o retrato de um físico enquanto homem. Tradução Maria Georgina Segurado. 3ª ed. Lisboa : Gradiva, 2004. (Ciência Aberta ; 37). ISBN 9726621429.

O significado de tudo : reflexões de um cidadão-cientista. Tradução de José Luís Fachada. 2ª ed. Lisboa : Gradiva, 2005. (Ciência Aberta ; 110). ISBN 9726627680.

Classic Feynman : all the adventures of a curious character. Edited by Ralph Leighton. New York : W.W. Norton, 2006.

O prazer da descoberta : os melhores textos breves de Richard Feynman. Organização de Jeffrey Robbins ; tradução Ana Correia Moutinho. 2ª ed. Lisboa : Gradiva, 2011. (Ciência Aberta ; 151). ISBN 9789896161279.



Obras sobre o Autor disponíveis no RÓMULO CCVUC


GLEICK, James – Feynman : a natureza do génio. Revisão científica de Carlos Fiolhais ; tradução Ana Falcão Bastos, Luis Leitão. 1ª ed. Lisboa : Gradiva, 1993. (Ciência Aberta ; 61). ISBN 9726623278.

GOODSTEIN, David L. ; GOODSTEIN, Judith R. – A lição esquecida de Feynman : o movimento dos planetas em torno do sol. Tradução de Maria Alice Gomes da Costa.
Lisboa : Gradiva, 1997. (Ciência Aberta ; 88). ISBN 9726625351.

ROSENFELD, Rogério – Feynman & Gell-Mann : luz, quarks, ação. 1ª ed. São Paulo : Odysseus, 2003. (Imortais da Ciência). ISBN 858802327X.

MLODINOW, Leonard Feynman's rainbow : a search for beauty in physics and in life. New York : Warner Books, 2003. ISBN 044653045X.

O melhor de Feynman : evocação da vida e obra de Richard Feynman. Organização de Laurie M. Brown, John S. Rigden ; tradução Luís Leitão. 1ª ed. Lisboa : Gradiva, 1994. (Ciência Aberta ; 69). ISBN 9726623774.

GRIBBIN, John ; GRIBBIN, Mary Richard Feynman : a life in science. London : Viking, 1997. ISBN 0670872458.

LEIGHTON, Ralph Tuva or bust! : Richard Feynman's last journey. New York : W.W. Norton & Company, 2000. ISBN 0393320693.

OTTAVIANI, Jim Feynman. Art by Leland Myring ; coloring by Hilary Sycamore. New  York : First Second, cop. 2011. ISBN 9781596432598.



Outras obras de e sobre Feynman disponíveis nas Bibliotecas da UC


AUTORIA

FEYNMAN, Richard P. ; HIBBS, A. R. Quantenelektrodynamik : eine Vorlesungsmitschrift und Nachdruck von Originalarbeiten. Mannheim : Bibliographisches Institut, 1961. ISBN 3411004010.

Quantum electrodynamics : a lecture note and reprint volume. New York : W.A. Benjamin, 1961.

FEYNMAN, Richard P. ; YURA, H. T. The theory of fundamental processes : a lecture note volume. New York : W. A. Benjamin, 1961. (Frontiers in Physics).

FEYNMAN, Richard P. ; LEIGHTON, Robert B. ; SANDS, Mathew The Feynman lectures on physics. Massachusetts : Addison-Wesley, 1963-1964. 3 Vol.

Lectures on physics : exercices. Massachusetts : Addison-Wesley, 1964-1965. 3 Vol.

FEYNMAN, Richard P. ; HIBBS, A. R. Quantum mechanics and path integrals. New York : McGraw-Hill, 1965. (International Series in Pure and Applied Physics).

Statistical mechanics : a set of lectures. Massachusetts : W.A. Benjamin, 1972.

QED : the strange theory of light and matter. Princeton : Princeton University Press, 1985. ISBN 0691083886.

Photon-hadron interactions. Massachusetts ; W.A. Benjamin, 1989. ISBN 0201360748.

Feynman lectures on computation. London : Penguim Books, 1997. ISBN 0140284516.

Feynman lectures on gravitation. London : Penguim Books, 1999. ISBN 0140284508.

Six not-so-easy pieces : Einstein’s relativity, symmetry and space-time. London : Penguin Books, 1999. ISBN 014027667X.


SOBRE

GLEICK, James Genius : Richard Feynman and modern physics. London : Little, Brown and Company, 1992. ISBN 0316903167.

SCHWEBER, Silvan S. QED and the men who made it : Dyson, Feynman, Schwinger, and Tomonaga. Princeton : Princeton University Press, 1994. ISBN 0691036853.

GOODSTEIN, David L. ; GOODSTEIN, Judith Feynman's lost lecture : the motion of planets around the sun. London : Jonathan Cape, 1996.

MEHRA, Jagdish The beat of a different drum : the life and science of Richard Feynman. Oxford : Clarendon Press, 2000. ISBN 0198518870.



RÓMULO CCVUC
Fevereiro 2018

MJ

A INVENÇÃO DA CIÊNCIA



Minha recensão no último As Artes entre as Letras:

É um grande livro em dois sentidos: pelo tamanho e pela qualidade. Saído entre nós em Setembro de 2017, mas, como há muita gente da cultura distraída, praticamente não apareceu, como merecia, nos habituais destaques do fim do ano. O título é “A Invenção da Ciência” e o subtítulo, esclarecedor, é “Nova história da Revolução Científica”. A Revolução Científica, na tese bem justificada do autor, situa-se entre 1572, quando o astrónomo dinamarquês Tycho Brahe observou uma nova estrela no céu (era o que chamamos hoje uma supernova, uma estrela não nova, mas velha que explode de surpresa no céu) e 1704, quando o físico, e também astrónomo, inglês Isaac Newton publicou o seu famoso tratado sobre óptica, no qual expõe as conclusões de experiências que tinha efectuado décadas antes, sobre as propriedades da luz, concluindo que as cores, por ele decompostas com a ajuda de um prisma, eram inerentes à luz e não aos objectos. A observação e a experiência, as duas servidas pelo raciocínio lógico (muito em particular pela matemática), são os dois pilares da, como então se dizia, “nova ciência”, ou como hoje se diz, da “ciência”, uma vez que a ciência tal como a conhecemos teve a sua origem nesse período, o período de gigantes da ciência pois além de Brahe e Newton brilharam, e entre outros, Galileu, Kepler, Descartes, Gilbert, Harvey, Boyle, etc. David Wootton, professor de História da Ciência da Universidade de York, no Reino Unido, enfatiza neste seu livro que, se a nossa vida hoje é como é, tal se deve em grande medida à ciência que surgiu neste período que convencionámos designar por Revolução Científica. Foi uma mudança extraordinária, uma transformação da nossa maneira de ver o mundo que teve o impacto que está à vista de todos.

O conteúdo do livro está meticulosamente argumentado. Houve um período antes da Revolução Científica, que foi o tempo das descobertas marítimas, que em boa parte foram obra dos portugueses, houve o período da Revolução Científica, e houve finalmente o tempo posterior, onde se assistiu às consequências da grande mudança. Como seria de esperar num livro de história de 823 páginas, o conteúdo é erudito (e que grande erudição mostra o autor parece que leu tudo!), mas, no entanto, a escrita é clara e fluente, seduzindo o leitor que, sem temer o tamanho da obra, se abalance à leitura. É uma obra da historiografia anglo-saxónica que prima pela clareza: o autor considera o leitor inteligente e, para o convencer, usa um manancial de factos inteligentemente encadeados por uma interpretação persuasiva. Wootton demarca-se claramente de algumas teses pós-modernas, alicerçadas em concepções relativistas. É bastante salutar, neste tempo impregnado não apenas pelo pós-modernismo, mas também (e o que é pior) pela pós-verdade, ler uma obra honesta, baseada na investigação de fonte primárias e secundárias, que só considera factos reais e não alternativos e não se deixa levar por algumas das vozes que têm feito moda na pós-modernidade. Por exemplo, a ideia do filósofo americano Thomas Kuhn, autor de “A Estrutura das Revoluções Científicas”, que advoga a existência de períodos de estagnação científica, entrecortados por revoluções como por exemplo a revolução quântica. Mas, de facto, Revolução Científica houve só uma. A ciência tem sido desde ela um trabalho permanente, um trabalho baseado num método então proposto. Wootton apresenta-nos com um pormenor muito rico o tempo incrível e irrepetível no qual esse método ficou estabelecido, quando se percebeu como é que se podia descobrir. Desde essa altura a humanidade deixou de ser a mesma, pois ficou aberta a via da descoberta. A explosão da ciência de que o nosso tempo é testemunho (nunca houve tantos cientistas como hoje) começou entre o final do século XVI e o início do século XVIII graças à nova forma de pensar dos referidos gigantes. A revolução quântica na física, que Kuhn discute, é um resultado da Revolução Científica, tal como tinha sido, por exemplo, a revolução darwinista. Wootton distingue a Revolução Científica, de mudanças, ainda que significativas, de teorias na ciência. A Revolução Científica foi profunda e mudou-nos a todos como, noutro plano, a Revolução Francesa, uma transformação política e social rápida e violenta que veio apregoar a liberdade e a igualdade, ou, mais próximo do plano da ciência, a Revolução Industrial, que provocou uma explosão económica, isto é, a passagem, da pobreza para a riqueza, ainda que mal distribuída. Tratou-se de inventar a ciência, como noutras revoluções se tratou de inventar a igualdade ou a riqueza.

Ao serviço do seu argumentário, as citações de Wootton são bem escolhidas, as ilustrações (algumas a cores, em extratexto, bem escolhidas) elucidativas, as notas e referências, no fim dos capítulos e do livro, numerosas e informativas. A tradução de Pedro Garcia Rosado é assaz cuidadosa. Nada melhor do que deixar um parágrafo – escolho o parágrafo final por ser uma súmula - para dar a saborear só não só estilo mas a mensagem do livro:

“A ciência – o programa de pesquisa, o método experimental, a interligação da ciência pura e da nova tecnologia e a linguagem do conhecimento revogável – foi inventada entre 1572 e 1704. Ainda vivemos com as suas consequências e parece provável que os seres humanos sempre venham a viver assim. Mas nós não vivemos apenas com os benefícios tecnológicos da ciência: o moderno modo científico de pensar tornou-se de tal modo parte da nossa cultura que já é difícil pensarmos num mundo que ficou para trás, e onde as pessoas não falavam de factos, de hipóteses e de teorias, onde o conhecimento não assentava na evidência e onde a natureza não tinha leis. A Revolução Científica tornou-se quase invisível por ter sido tão surpreendentemente triunfante.”

A obra, com primeira edição em 2015, do prelo da editora londrina Allen Lane, veio prestar, através desta edição em português, um benefício inestimável à cultura nacional, onde a A Temas e Debates prestou um serviço inestimável à cultura portuguesa, ao publicar este livro, com um preço bastante acessível para o seu elevado valor. A cultura, em particular, a cultura científica é um bem precioso, e é a luz que nos pode guiar nesta época trumpiana cuja escuridão nos faz recear. Essa luz foi acesa há cerca de três séculos. Façam o favor de ler “A Invenção da Ciência” e digam depois se não se sentem mais iluminados.


quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

"Classica Digitalia". Novidades editoriais

Informação chegada ao De Rerum Natura.

Os Classica Digitalia têm o gosto de anunciar duas novas publicações, com chancela editorial da Imprensa da Universidade de Coimbra e Annablume (São Paulo).

Todos os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital, em acesso aberto.

Além do usual circuito de distribuição da IUC, a versão impressa das novas publicações encontra-se disponível em todas as lojas Amazon.

NOVIDADES EDITORIAIS

Série “Humanitas Supplementum" [Estudos]

- Christian Werner, Memórias da Guerra de Troia: a performance do passado épico na Odisseia de Homero (Coimbra e São Paulo, Imprensa da Universidade de Coimbra e Annablume, 2018). 242 p.
[O enfoque deste livro é a forma como as personagens do poema falam do passado, em particular, de um passado significativo para muitas delas, a Guerra de Troia. Falar do passado em um poema homérico implica algumas noções-chave exploradas neste livro: tradição, memória, fama (kleos) e gêneros de discurso. O principal aspecto ligado a todas essas noções é a performance discursiva do falante que constrói o passado para seu interlocutor: o aqui e agora implicado na performance diminui a distância entre passado e presente de uma forma algo homóloga à própria performance do rapsodo que apresentava os poemas homéricos diante de uma plateia na Grécia Arcaica e Clássica.]
Série “Autores Gregos e Latinos" [Textos]

- Ana Alexandra Alves de Sousa (coord.): Hipócrates. Juramento; Dos fetos de oito meses; Das mulheres inférteis; Das doenças das jovens; Da superfetação; Da fetotomia. Tradução do grego, introdução e comentário (Coimbra e Sao Paulo, IUC e Annablume, 2018). 158 p.
[O presente volume contém a tradução, com uma breve introdução, de cinco tratados hipocráticos de temática ginecológica. Acompanham a tradução notas botânicas e médicas, atualizadas, da autoria de especialistas nas respetivas matérias. Os temas dos tratados são os fetos e a infertilidade das mulheres. A propósito daqueles fala-se de partos difíceis e de nados mortos; e sobre a infertilidade referem-se processos para detetar uma gravidez e descrevem-se procedimentos para promover a fecundação e limpar a matriz em caso de aborto.]

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Terapias alternativas: quando as portarias substituem as provas


Artigo de David Marçal e Carlos Fiolhais saído hoje no Pùblico: 

Foi publicada no dia 9 de Fevereiro no Diário da República uma portaria (45/2018) que regula os requisitos das licenciaturas em medicina tradicional chinesa. É mais uma peça de uma avalanche legislativa que começou em 2003 e que ganhou particular dinamismo a partir de 2013, no governo de Passos Coelho. O que esta legislação faz é colmatar a falta de provas científicas de eficácia e segurança de várias terapias alternativas, da homeopatia à medicina tradicional chinesa, substituindo-a por portarias e decretos-leis. Permite aos terapeutas alternativos pendurarem nas paredes dos seus consultórios cédulas profissionais passadas pela Administração Central de Saúde, o que induz o público no erro de pensar que estas têm fundamentação científica. Mas estão longe de a ter. Tem inteira razão a Ordem dos Médicos, que publicou um vigoroso protesto.

A medicina tradicional chinesa assenta numa filosofia pré-científica. Também existe uma medicina ocidental antiga, que não é científica. Cinco séculos antes de Cristo o grego Hipócrates defendeu a teoria dos quatro humores corporais: sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra. Para o romano Galeno, no século II, que acreditava na teoria de Hipócrates, havia dois tipos de doentes: os curáveis e os incuráveis. Os curáveis, dizia ele, curava-os a todos, enquanto os incuráveis morriam todos. Nos séculos XVI e XVII, Hipócrates e Galeno começaram a ser postos em xeque. Com o surgimento da ciência moderna, baseada na observação, na experiência e no raciocínio, derrubou-se a ideia de que a validade do conhecimento assenta na sua antiguidade. No domínio da geografia, apurou-se, logo no século XV, que muito do conhecimento clássico estava pura e simplesmente errado. Para Aristóteles as regiões equatoriais eram demasiado quentes para serem habitáveis, mas as viagens dos portugueses, que passaram o equador em 1475, mostraram que Aristóteles estava equivocado (já agora, Aristóteles também não acertou no número de dentes da mulher, decerto porque nunca pediu à sua para abrir a boca!). Galileu escreveu, em 1615, que tinha descoberto, com o seu telescópio, factos inteiramente contrários às convicções dos filósofos e que, por isso, eles deviam mudar de opinião.

Já no século XX foi ultrapassado o paradigma do médico guru, cujo conhecimento emanava da sua personalidade e da sua experiência, que não podia ser questionado. A moderna medicina, baseada nas provas, assenta numa ideia muito simples: deve ser avaliada a eficácia e a segurança de todos os tratamentos usando métodos estatísticos seguros. Uma afirmação não é verdadeira porque pessoas muito importantes a defendem ou porque está escrita em livros muito antigos, mas sim porque é provada. Existe uma hierarquia de provas, em que no nível mais baixo está a publicação de um caso clínico (que nada prova) e no mais alto as revisões sistemáticas da literatura médica, que retiram conclusões de todos os ensaios clínicos bem feitos acerca de um determinado tratamento. É por causa da medicina baseada na ciência que hoje vivemos mais e melhor.

Os terapeutas alternativos, quando se vêem confrontados com os maus resultados das suas práticas, invocam, tal como Galeno, uma aplicabilidade retrospectiva, restringindo-a aos casos em que aparentemente resultaram. Alguns deles, pretendendo ser mais sofisticados, alegam que também têm provas, socorrendo-se de uns poucos ensaios clínicos, escolhidos a dedo, por vezes mal feitos, e ignorando todos os outros. Mas, se estão mesmo convencidos de que é verdade aquilo que afirmam, aqui fica o desafio: abdiquem de todos os regimes de excepção e aceitem aprovar os tratamentos alternativos com a mesma exigência que é necessária para introduzir medicamentos ou tratamentos normais no mercado. Podem não gostar, mas isso é a medicina científica. O problema é que, se o aceitassem, seria obviamente o fim das suas terapias alternativas. Pois como se chama uma medicina alternativa que provou ser segura e eficaz? Simplesmente medicina.


A recente portaria das licenciaturas em medicina tradicional chinesa usa uma linguagem pré-científica que não corresponde ao entendimento actual dos seres vivos. Fala de coisas misteriosas como yin e yang, qi, ramificações jing lu, síndromes dos zang fu, nas quatro camadas e nos três aquecedores. Por redução ao absurdo poderíamos dizer que essas coisas existem porque constam da portaria 45/2018. Ora isto não faz qualquer sentido: é a ciência que deve informar o poder político e não o contrário.

David Marçal e Carlos Fiolhais

Il(e)iteracia científica: um caso de estudo



Artigo recebido da jornalista Vera Novais (Observador):


Sabia os riscos que corria quando decidi escrever sobre os impactos que o consumo de leite tinha na saúde. E rapidamente decidi que não iria falar nem com aqueles que são contra o consumo de leite, nem com os profissionais que dependem da venda deste produto. Assumi, e assumo, que neste caso (como em outros) não tinha de ouvir dois lados da questão, tinha de ouvir apenas um: o lado da Ciência. Esta foi uma das críticas que recebi: parcialidade. Mas não foi a única.

Escolhi profissionais ligados à saúde ou à academia, sem qualquer relação com a indústria do leite e que, à partida, me dariam respostas isentas e baseadas nos conhecimentos científicos mais atuais. Continuo confiante de que assim o fizeram. Escolhendo como fontes estes profissionais de áreas distintas, deixei aberta a possibilidade de a informação dada ser divergente ou mesmo contraditória. Mas isso não aconteceu. O que me deixa também um pouco mais segura em relação ao trabalho que produzi.

Para não ficar só com a informação dada pelas minhas fontes, tentei procurar fontes alternativas, mas confesso que tive alguma dificuldade em separar o que era realmente credível do que aparentava ser. Walter Willet, por exemplo, foi um nome recorrente nas minhas pesquisas, mas as suas declarações não eram, no entanto, compatíveis com a informação que tinha recolhido junto das minhas fontes. Quem estaria errado (se é que alguém o estava): as minhas fontes ou o professor e investigador da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de Harvard? O peso da instituição ecoava na minha cabeça, ao mesmo tempo que a minha campainha de alerta-contra-figuras-de-autoridade disparava.

As declarações proferidas pelo professor, que o site da faculdade classifica como “o nutricionista mais citado internacionalmente”, pareciam-me extremadas e as conclusões, tiradas dos artigos científicos, parciais. Mas o que sei eu? Ele é professor em Harvard. Não conseguindo garantir que não havia aqui algum enviesamento por parte deste investigador, fiquei-me pelas conclusões dos artigos de revisão e meta-análises que consultei. Outra das condições que assumi quando decidi escrever o texto era que me ia focar no impacto na saúde. Nada digo sobre os impactos ambientais da produção de leite ou sobre o bem estar animal que leva muitas pessoas a optar por não beber leite. Não que o tema não me interesse, apenas não era o meu foco. Não queria escrever sobre as questões que levam uma pessoa a deixar de beber leite — porque uma pessoa pode e deve fazê-lo se assim o entender —, mas sobre as alegações de saúde que são feitas para incentivar ou demonizar o consumo de leite.

Querer conclusões definitivas e não as incertezas da Ciência

Um texto que mexe com ódios e paixões acaba por também fazer mexer os dedos e não tardou a que os comentários começassem a chegar. Sobre quem argumenta que não bebe leite por questões ambientais ou éticas nada tenho a dizer, porque a decisão de cada um só a si pertence. Lembro, apenas, que esse não era o foco do artigo. Mas outros comentários demonstraram que ainda há conceitos de Ciência que não estão bem presentes na cabeça das pessoas. A começar pelos fatores que tornam algumas conclusões mais robustas do que outras.

Li todos os comentários (que já ultrapassaram uma centena e meia). Alguns mereceram um sorriso, outros um encolher de os ombros, mas pelo menos um deles deixou-me de olhos postos no ecrã, incrédula sobre o que estava a ler. Aí nasceu a necessidade de escrever este texto. O leitor criticava ferozmente o facto de eu ter escolhido médicos e nutricionistas no papel de especialistas de alimentação e saúde, mas não era o primeiro a dizer a tratar as minhas fontes como “supostos especialistas”. O que mais me marcou foi a interrogação do comentador: como é que eu podia informar os leitores corretamente se me limitava a dizer para que situações havia evidência científica ou não.

Aceito que “evidência” pode não ser a melhor tradução para “evidence”, em inglês, mas certamente que “prova” não será uma melhor tradução no contexto de resultados científicos. Fiquei sem saber exatamente como é que o leitor queria que fosse apresentada uma informação correta se esta não fosse baseada nas evidências científicas. Mas fiquei com uma pista. O leitor fazia referência a Harvard — talvez uma alusão à universidade de Walter Willet —, o sítio onde se apresentam conclusões, não evidências.

Faz-me pensar que as pessoas não lidam bem com as incertezas da ciência e com a evolução dos conhecimentos científicos. Querem afirmações definitivas. Mas, curiosamente, também acham que o jornalismo só é bom jornalismo quando ouve as duas partes — mesmo que essas duas partes sejam ciência versus pseudo-ciência, como alertava um dos leitores. Assumo que em muitos temas pode não haver consenso científico, mas quando se pretende debater resultados científicos não faz sentido dar voz a quem “acredita” e quem “não acredita”. E alguns dos leitores não acreditam, nem nos resultados científicos, nem nos médicos, nem nos académicos. As minhas fontes e os artigos científicos citados foram menosprezados e minimizados por alguns desses leitores, que depois me sugeriam como leituras e fontes alternativas, ou como prova daquilo que me diziam, documentários tendenciosos, sites duvidosos ou até as alterações do cardápio de uma universidade.

As pessoas não lidam bem com as informações que contradizem as crenças que têm e atacam-nas como podem, incluindo (como não poderia deixar de ser) com teorias da conspiração. A acusação é que os artigos de revisão e meta-análises são pagos pela indústria do leite para manipular a opinião pública.

Alguns dos leitores tinham a lição melhor estudada e citavam referências retiradas do site PubMed, uma base de dados para publicações na área da biomedicina e ciências da vida. Uma base de dados que as minhas fontes também usam. Mas o facto de estar alojado numa plataforma dos Institutos Nacionais de Saúde norte-americanos não lhe confere validade acima de qualquer dúvida.

Mais, alguns dos exemplos citados também não concluem aquilo que os seus leitores desejavam que concluísse. “Os povos que mais leite bebem são os que mais sofrem de osteoporose” ou “nos países onde o consumo de leite é mais baixo a longevidade é maior”. Ainda que esta associação até possa ser feita ou até possa ser válida (só vendo o estudo para o afirmar com certeza), há que lembrar que associação não é causalidade e que estes trabalhos não provam que é o consumo (ou não consumo) de leite que tem consequências diretas na saúde. Aliás, alguns dos artigos citados referiam isso mesmo, mas esta é uma parte que os comentadores do meu texto escolheram não referir nas suas argumentações. Outras vezes o argumento foi bem mais simples como: “Deixei de beber leite e sinto-me muito melhor”. Ou “eu, a minha família e amigos”, para aumentar a amostragem. Sim, há pessoas
que são intolerantes ao leite. Não, um exemplo de uma pessoa não serve para todas as pessoas. E sim, todas as pessoas são livres de beber ou não beber leite se assim o entenderem.

Felizmente, nem todos os comentários são maus e há quem veja Ciência, evidências e equilíbrio onde se pretendia que eles existissem. Estes são os leitores que espero que continuem a escrutinar o meu trabalho e que me alertem se alguma vez me virem desviar da rota.

Vera Novais

Referência:


"COSMOS" - MInha recomendação para o Plano Nacional de Leitura

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

"Terapias, Energias e Algumas Fantasias"


Acaba de ser publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos o livro da colecção  
"Retratos" da autoria de João Villalobos sobre práticas pseudo-científicas com o título de cima. O autor pediu a mim e ao Davida Marçal um depoimento sobre um estudo que defende a eficácia do reiki. Eis o excerto do livro que contém o nosso parecer:

"Entre 2007 e 2009, a enfermeira aposentada e reikiana Zilda Alarcão conduziu um projeto de investigação no Hospital de S. João do Porto, intitulado O Impacto da Terapia de Reiki na Qualidade de Vida dos Doentes Hemato-Oncológicos”, no qual participaram 100 pacientes, divididos em dois grupos, um integrando doentes submetidos àquela terapia complementar e os restantes num grupo de controle. Ou, na terminologia da autora, Reiki verdadeiro” e Reiki placebo”. Mais tarde, um research paper foi publicado no European Journal of Integrative Medicine, em 2015, mas o estudo teve eco na comunicação social portuguesa na altura inicial da divulgação dos seus resultados, em 2011. De acordo com as notícias de então: A investigação comprovou que os pacientes que recebiam Reiki duas vezes por semana tinham maior qualidade de vida do que os que não eram tratados com esta terapia” e as conclusões do estudo e a vontade dos doentes levaram a que a administração aprovasse a continuação da aplicação da terapia por profissionais de saúde, em regime de voluntariado, no hospital”. Para Zilda Alarcão, então citada, O terapeuta, ao permitir que a energia flua no ser humano irá diminuir a ansiedade, o sofrimento, a dor, a fadiga e todos os estados de dependência física. Favorece os sentimentos positivos, o sono e repouso, a concentração e aprendizagem e valoriza a autoestima”. Por seu lado, Fátima Ferreira, hematologista no mesmo hospital e à época presidente da Associação de Apoio aos Doentes com Leucemia e Linfoma, declarou à Agência Lusa, no decurso de uma mesa-redonda sobre o tema Contributo da medicina holística no tratamento dos doentes hemato-oncológicos Reiki, uma resposta credível” que os doentes que se submeteram a esta terapia complementar conseguiram ultrapassar melhor do que os outros os aspetos, quer fisiológicos quer psíquicos, da situação em si”. Fátima Ferreira referiu ainda que estudos efetuados demonstraram que os ratos com cancro submetidos a Reiki obtiveram também uma melhoria da imunidade celular”. Como tal, considerou que existem algumas evidências científicas experimentais que nos dizem que o Reiki pode ser benéfico. Tudo isto ainda não está cem por cento experimentado, mas há evidências nesse sentido e há o testemunho dos doentes”.

Após uma análise conjunta do mencionado research paper, e respondendo a uma solicitação do autor deste livro, os cientistas e ensaístas Carlos Fiolhais e David Marçal teceram severas críticas ao seu conteúdo. Concluem os investigadores que se trata apenas de um ensaio clínico com uma amostra bastante pequena (total de 100 pacientes). Independentemente dos seus resultados, nunca seria, por si só, suficiente para tirar qualquer conclusão substancial acerca da eficácia de um tratamento. Existem muitos artigos científicos que estão, pura e simplesmente, errados, não necessariamente por má-fé, mas sim por insuficiências metodológicas ou outros erros involuntários. Para se ter confiança na eficácia e segurança de qualquer tratamento é preciso muito mais do que um ensaio clínico com uma amostra de 100 pacientes. São precisos vários, de preferência realizados por grupos de investigação independentes, com amostras bem maiores. Têm de ter uma certa qualidade metodológica e ser analisados conjuntamente em revisões sistemáticas da literatura médica e meta-análises de dados”

Segundo ambos os cientistas: O artigo aqui discutido está muito longe, ‘a anos-luz’, de, por si só, justificar a eficácia do tratamento descrito. Num contexto de medicina baseada na ciência não basta, por si só, para fazer aprovar pelas autoridades de saúde um tratamento de medicina convencional. Além disso, o artigo foi publicado numa revista especializada em combinar medicinas alternativas com medicina convencional, que tem um factor de impacto de apenas 0,769. Isto significa que cada artigo publicado nesta revista é citado, em média, menos do que uma vez. Ou seja, é uma revista não muito influente na comunidade científica. Mais do que isso: uma revista sem grande credibilidade. Boa parte da bibliografia citada no artigo, e que apoia as suas ideias centrais, é também publicada em revistas “de nicho” das terapias alternativas (Complementary Therapies in Clinical Practice, Holistic Nursing Practice)”

Quanto às cura pela imposição das mãos, Fiolhais e Marçal consideram que A introdução do artigo menciona um processo de healing (cura). Neste processo, as mãos do curandeiro são colocadas a alguns centímetros do corpo do paciente, de modo a ‘harmonizar o bem-estar físico, emocional, mental e espiritual’. Este conceito, apesar de ser sustentado com uma serie de citações de revistas no campo, repetimos um campo “de nicho”, das teorias alternativas, não passa de uma ideia da medicina pré-científica. Mas não nos cabe a nós demonstrar a sua inexistência. A ciência funciona ao contrário, cabe aos seus proponentes apresentar provas da sua existência”.

De facto, os seres humanos e os outros seres vivos são ‘máquinas eléctricas’, isto é, são feitos de partículas carregadas, muitas delas em movimento (como no sistema nervoso), existindo naturalmente campos eléctricos e magnéticos, de fraca intensidade, em volta dessas cargas. Por exemplo, o corpo humano é emissor de ondas infravermelhas (o corpo é quente!). Mas a afirmação de que os órgãos pulsam a certas frequências’ carece de conteúdo: não indica que órgãos e que frequências. E, de resto, não há qualquer associação provada entre mudanças de frequências de órgãos, seja lá o que isto for, e doenças desses órgãos. Muitos defensores de medicinas alternativas falam de energia e até de aura em torno do corpo humano, mas usam palavras da física fora do contexto para designar conceitos, ou vazios ou, quando concretos, bem conhecidos. O Reiki, por exemplo, usa e abusa da palavra energia, mas quase nunca indica quantidades de energia. Ora a energia é uma grandeza física que pode ser medida: a unidade no SI é o ‘Joule’ e não encontramos valores nessa ou noutra unidade em escritos sobre o Reiki. Os campos electromagnéticos também têm unidades, que também nunca são referidas. Tudo é apresentado de uma forma vaga”.

 Mais ainda, consideram que O estudo não é de facto duplamente cego, uma vez que os terapeutas sabem que estão a fazer Reiki ou Sham Reiki, ao contrário do que afirmam os autores. A abordagem é aparentemente inspirada na que é usada para fazer ensaios clínicos de acupunctura, em que são usadas agulhas retrácteis que simulam a inserção na pele. Parece à primeira vista razoável, no caso de as pessoas que avaliam a condição clínica do paciente não saberem em que grupo estão os pacientes. Neste caso, trata-se de uma auto-avaliação, feita através das respostas dos pacientes a um conjunto de questionários acerca da sua percepção de qualidade de vida.

Mas o que é Sham Reiki? Ao contrário do método correspondente usado pela acupunctura, bem descrito na literatura, os autores nada esclarecem sobre o Sham Reiki. Apenas dizem que as sessões de Reiki são aplicadas por ‘Mestres Reiki’ e que as sessões de Sham Reiki são realizadas por pessoas sem qualquer formação em Reiki. Não sabemos, por exemplo, se os mesmos procedimentos são aplicados nos dois tipos de sessões, se os imitadores de Reiki de alguma forma simulam todos os procedimentos dos ‘Mestres Reiki’. De uma certa forma, o que se está a comparar é o efeito de um grupo de ‘curandeiros’ com um outro grupo, mal definido, sendo que um dos grupos é presumivelmente bem mais experiente e convincente do que o outro naquilo que está a fazer. Mesmo que haja uma diferença significativa neste ensaio na percepção de bem-estar dos pacientes nos dois grupos, isso pode simplesmente dever-se ao facto de os Mestres Reiki serem mais eficazes a induzirem uma sensação de bem-estar nos pacientes, e não a qualquer outra explicação do domínio mais esotérico. Ou seja, está-se a comparar um efeito placebo com outro. E sabe-se bem que os placebos não são todos iguais.

Os autores referem que o hospital onde trabalham, face aos resultados do estudo que apresentam, resolveu incorporar o Reiki na sua oferta terapêutica. Esta decisão, face à literatura publicada (incluindo o estudo aqui discutido), não tem qualquer fundamento científico e parece inadequada. O facto de um hospital adoptar um tratamento sem fundamento científico não é prova de que esse fundamento exista. É do senso comum que as pessoas se sentem melhor se se sentirem mais cuidadas e tiverem mais atenção. Mas isso não significa que a ‘magia’ do Reiki funcione. É natural que portadores de uma doença grave sejam particularmente sensíveis a cuidados que recebem, qualquer que seja o tipo desses contactos”, concluem os cientistas no seu parecer."

João Villalobos