domingo, 1 de outubro de 2017

Quando a RTP se propõe ensinar professores a ensinar, alguma coisa está muito mal

Imagem retirada daqui.

Como reagiria a Ordem dos Médicos se num sítio online da Rádio Televisão Portuguesa se lesse em título algo como "Tomografia Axial Computorizada: RTP Ensina", ou a Ordem dos Engenheiros se lesse "Construção de pontes sobre o mar: RTP Ensina".

Sendo que aqui a palavra "ensina" não significa explicar a leigos como se faz uma determinada coisa em prol da sua cultura geral, significa dizer a profissionais como fazer uma coisa que é da sua inteira competência.

Na verdade, as duas tarefas que referi são muito complexas e envolvem uma enorme responsabilidade, requerendo-se, da parte de quem as assume, formação reconhecida e autonomia profissional. Só as pode realizar quem conseguiu obter as devidas credenciais.

Penso que essas Ordens não reagiriam bem se lessem o que acima sugeri

Tudo muda quando passamos para o Ensino ou seja, para o trabalho dos professores.

É certo que não existe uma Ordem dos professores, mas a sociedade deveria pensar como se ela existisse. Isto significa, antes de mais, respeitar o saber (sobretudo disciplinar e pedagógico-didáctico) destes profissionais e, correlativamente, não invadir a sua área de trabalho, substituindo-os, naquilo que lhes cabe decidir e fazer. Eis algo que acontece.

Refiro-me, de modo mais directo, a ingerências por parte:
- de entidades supranacionais (que além de estabelecerem os rumos que entendem ser os certos para a educação escolar, produzem orientações directas para a docência);
- do ministério da educação (que não se limita a fixar a nível nacional conteúdos, objectivos e avaliação, prescrevendo métodos de ensino);
- de associações e fundações (que têm criado programas, actividades, materiais, testes, etc. para tudo o que já está na escola ou que se quer fazer entrar nela), frequentemente ligadas a empresas (sobretudo de recursos tecnológicos mas não só).

Pois, então, na afogadilha para se entrar na escola, e se "ajudar os professores", a RTP não podia ficar de fora: propõe-se, agora, ajudar "estudantes e professores a complementar os seus conhecimentos de cidadania" (ver aqui).
O portal RTP Ensina apresenta um conjunto de recursos - para alunos e professores - que podem contribuir para a educação para a cidadania. A RTP apresentou, ao longo das últimas décadas, rubricas e programas que podem auxiliar estudantes e professores a complementar os seus conhecimentos de cidadania. Na área de cidadania deste portal recuperamos alguns desses documentos com o objetivo de ajudar a cumprir as metas dessa disciplina (...).
Repare-se que estudantes e professores são postos em pé de igualdade, cabendo, tanto a uns como a outros, completar conhecimentos. Mais: na frase, os estudantes aparecem em primeiro lugar, não são, pois, os professores que devem "completar" os conhecimentos para os veicular aos alunos, de modo que estes, por serem alunos, os aprendam.

Pergunto-me, não sem admiração, o que leva uma entidade como a RTP, com uma vocação bem definida (vocação que, podendo ser educativa, não é escolar), a supor que tem saber e legitimidade para avançar com orientações para o sistema educativo, dirigindo-se directamente a quem é, de facto, profissional nesse sistema?

Lamentavelmente, no caso (semelhante a muitíssimos outros) não é só à RTP (ou a entidades congéneres) que se devem pedir contas por avançar por terrenos que não são seus. Essas contas devem ser pedidas, em primeiro lugar, às escolas e aos professores que permitem (e alguns agradecem) que alguém faça (mal) parte do seu trabalho e lho dê pronto a usar; ou, o que não é menos grave, que toleram a possibilidade de isso acontecer.

Há várias décadas que se diz que o ensino tem de voltar às mãos dos professores. A cada dia que passa esta declaração torna-se mais premente, por isso é preciso que os professores se consciencializem do seu campo de intervenção, o assumam e defendam. Campo que só eles conhecem com profundidade, amplitude e segurança, e, portanto, onde só eles podem intervir. Certamente não fechando portas, estabelecendo ligações com outros profissionais, mas sempre a partir das suas decisões de especialistas em ensino, que o são.

Não sei se a questão se resolve com a criação (sempre adiada) de uma Ordem dos professores (as ordens profissionais não têm apenas vantagens) mas sei que urge discutir o sentido da profissão docente no quadro da educação escolar.

3 comentários:

  1. Magnífico texto.
    Como professora sinto-me insultada.
    Infelizmente, a classe profissional à qual pertenço, certamente devido à sua heterogeneidade, nunca defendeu verdadeiramente os seus direitos e campo de ação.
    Agora estamos a colher o fruto do que muitos semearam com a sua inércia e indiferença.
    Maria Dulce Marques.

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  2. O professor, atualmente, sofre um processo de controlo administrativo e burocrático que o reduz a mero executante de uma cartilha. O mais grave é que os intérpretes dessa cartilha são todos menos o professor. E o professor sente-se muito mal nesse papel subordinado e menosprezado. Na realidade, são aqueles que fugiram de serem professores, que querem dizer aos professores o que é ser professor. Quanto menos professor e mais diretor, mais pretensiosismos e arrogâncias de pedagogos. É a inversão completa das competências. Com a desvantagem, para o professor, de ser um subordinado descartável. Argumentar está fora de questão. Discutir, muito menos. Ninguém argumenta e ninguém discute e ninguém tem dúvidas nas reuniões de professores. Porquê?
    "Não és pago para pensares e ninguém te perguntou nada. As regras também não são feitas por ti e, de qualquer modo, dispensamos a tua opinião, qualquer que ela seja. Considera-te feliz por te deixarem respirar..."

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  3. Helena Damião consegue levantar com este pequeno, mas fortíssimo, artigo de opinião algumas questões muito graves do ensino atual. Quando as autoridades político-educativas de um país conseguirem decretar, em letra de forma, que no serviço de um professor tem mais importância a frequência de ações de formação do que a função de ensinar, então poderemos fechar as escolas, porque se é verdade que as escolas sem alunos são como jardins sem flores, não é menos verdade que sem jardineiros as flores acabam sempre por ser abafadas pelas ervas daninhas.
    Antigamente, os professores tinham um estatuto especial ente os funcionários públicos. Considerava-se que ensinar trigonometria, leis de Newton ou poesia de Fernando Pessoa exigia uma sólida preparação universitária, aliada à robustez física e psíquica, de tal modo que os professores usufruíam de horas de redução nos seus horários em função da complexidade das matérias lecionadas e do avançar da idade que faz diminuir as capacidades cognitivas. Mas, para a ministra Lurdes Rodrigues, só interessavam as "melhorias das aprendizagens" e os milhões de euros que o Estado não tinha para pagar aos professores. Ela repetia muitas vezes "É bom para eles!", quando baixou os salários dos professores e lhes aumentou o horário de trabalho.
    Para mim, obrigar um indivíduo com 17 anos a ir à escola é a mesma coisa que obrigar um indivíduo de 17 anos a apanhar maçãs. A massificação raramente traz bons resultados!

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