sexta-feira, 6 de outubro de 2017

DOIS NOVOS LIVROS DE REGINA GOUVEIA


Regina Gouveia nasceu em 1945 no Brasil mas veio logo aos dois anos para Portugal, ou mais precisamente para Trás os Montes. Licenciada em Ciências Físico-Químicas, seguiu a carreira de professora do Ensino Secundária, na qual já está aposentada. Para além da didáctica da Física e da química, a sua paixão é a poesia, a ficção e a escrita infanto-juvenil. Publicou nessas áreas vários livros, alguns deles premiados.  Dela acabam de sair dois livros, em edição de autora e portanto dificilmente acessíveis no mercado. Os dois reeditam obras anteriores que estavam esgotadas mas acrescentam inéditos.  Daí o título duplo de cada um deles: "Quando o mistério se dilui na penumbra / Magnetismo terrestre" e "Requiem pelo planeta azul / Reflexões e Interferências". As capas, semelhantes, apoiam-se em aguarelas da autora.

 No primeiro livro, a primeira parte inclui um conjunto de poemas quase todos inéditos. O segundo tem um título já usado por António Gedeão (e inspirado em Camões): "Máquina do Mundo". Vale a pena lê-lo para se entender o estilo da autora:

  "Não havia espaço
  Não havia tempo.
Apenas um nada, grávido de tudo,
Numa ínfima parte do segundo,
o nada deu à luz a máquina do mundo
que irrompeu do útero e, despudorada,
foi abrindo frestas
uma escuridão densa e recatada".

É, convenhamos, uma bela descrição poética do Big-Bang! Outros poemas têm por título o nome de  pintores (Júlio, Resende, Paul Klee, etc.), escultores (Rosa Ramalho), músicos (Mussorgsky, Schoenberg, não esquecendo o químico músico russo Borodine) e também cientistas (Kepler e Galileu, dois poemas que fazem lembrar Eugénio Lisboa). Mas há também poemas com nomes de planetas (Vénus e Mercúrio) e outros mais pessoais ("In illo tempore", "Nos mistérios da noite", por exemplo). No final surge um poema  um poema mais longo que dá o título à colectânea.

"Magnetismo terrestre" teve 1.ª edição em 2006, na Calendário das Letras. Tem prefácio  de José Ferreira da Silva, professor de Física da Universidade do Porto e é acompanhado por fotografias do Nordeste Transmontano de  Fernando Gouveia, excepto uma de Maria Manuel Gouveia. Alguns poemas da edição de 2006 passaram para "Reflexões e Interferências".

Mais uma vez se encontram alguns poemas de inspiração física. Vejamos um intitulado Big-Bang, que retoma o tema da origem do mundo, dando-lhe agora um tom mais pessoal:

"Na minha infância, o Universo estendia-se do Castelo até às Eiras,
envolvendo a Praça e  o Cabecinho onde ficava a minha escola.
À volta eram ladeiras que velavam o sono do rio lá no fundo
Era assim o meu mundo que, para mim, era maior do que o infinito
e que em cinco linhas aqui ficou descrito,
contrariando assim, à evidência. uma das conjeturas da ciência.
Desde o seu Big-Bang o meu Universo contrai-se, não se expande."

O segundo livro contém também na primeira parte um conjunto de poemas inéditos. O título está explanado neste poema, intitulado  "Navio azul":

"Terra, navio azul no oceano cósmico infinito.
Fingimos não escutar o teu apelo aflito,
esquecendo que contigo
    iremos naufragar."

A segunda parte, tem prefácio de Fernando Gouveia, é  a reedição de "Reflexões e Interferências" (1.ª edição, Palavra e Mutação, 2002). Escolho o poema "Elasticidade":

"Não sei se obedece à lei de Hooke ou não,
mas é elástico o coração.
Uns são mais elásticos, outros não.
Uns têm o amor como bandeira
podem amar a humanidade inteira,
outros vão amando aqui e além, outros amam sempre alguém
e há os que nunca amam ninguém.
Tem que haver uma razão para tanta desigualdade.
Só vejo uma explicação, a constante da elasticidade".

Na senda de Gedeão, o poema casa física e poesia. Não admira que a autora tenha ganho em 2005,  Ano Internacional da Física, o prémio Rómulo de Carvalho, o verdadeiro nome de António Gedeão. Regina Gouveia é uma das vozes da poesia portuguesa contemporânea que, com êxito estético, ousa cruzar ciência e literatura.

Regina Gouveia vai estar em breve numa Conferência do Mês da Educação e Ciência da Fundação Francisco Manuel dos Santos, intitulada "A utilidade do inútil"

5 comentários:

  1. Apesar de não ter gostado da pequena amostra de poesia de Regina Gouveia aqui apresentada, escrevo este comentário sem a intenção de desrespeitar ninguém que se sinta tocado pelas minhas palavras.
    Para começar, as minhas criticas construtivas não irão além do seguinte poema:
    "Não sei se obedece à lei de Hooke ou não,
    mas é elástico o coração.
    Uns são mais elásticos, outros não.
    Uns têm o amor como bandeira
    podem amar a humanidade inteira,
    outros vão amando aqui e além, outros amam sempre alguém
    e há os que nunca amam ninguém.
    Tem que haver uma razão para tanta desigualdade.
    Só vejo uma explicação, a constante da elasticidade"
    Se a autora conseguiu casar realmente a física e a poesia, ambas do género feminino, no poema não dá para ver! Ainda assim, elogio o sentido de humor subtil que a autora revela quando reduz, de uma forma brilhante, a explicação da variação da intensidade do amor a uma constante de proporcionalidade físico-matemática. Saber cultivar a originalidade em campos poéticos, mecânicos ou eletromagnéticos, é, e será sempre, uma virtude!
    Por exemplo, eu, mesmo não sendo poeta, penso que o amor é maior do que a equação de Schrödinger!
    Resumindo e concluindo, este poema fez retinir as campainhas das minhas memórias literárias que me levaram a um excerto de A Capital, de Eça de Queirós, onde se usam palavras mais eloquentes do que as minhas:
    “ E a composição do Taveira, depois de falar com amargura dos prados e areais de Bragança, onde Felícia e Pote se tinham amado, na humidade da relva junto às espumas do mar, terminava com a mesma apóstrofe dilacerante:
    Oh! Minha prima Felícia! Nem minha, nem nunca mais!
    Desertos, desertos prados! Tristes, tristes areais!

    João Silva

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  2. Agradeço ao Professor Carlos Fiolhais e a João Silva os comentários aqui registados.
    Fiquei satisfeita com as palavras generosas do Professor mas, de modo algum, senti qualquer desrespeito nos de João Silva.
    Gostar ou não de determinada poesia e de determinado poeta tem muito a ver com o leitor: o seu percurso, a sua formação, a sua sensibilidade, etc, etc.
    Há poetas de cuja poesia não gosto, há poetas de que gosto muito, mas mesmo neste casos, há poesias que me agradam mais e outras de que gosto menos.
    Regina Gouveia

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  3. Mantendo uma atitude de respeito perante a poetisa Regina Gouveia, galardoada com o prémio Rómulo de Carvalho, coloco-me no lugar do rapazinho que inocentemente disse “O rei vai Nu!”, segundo Hans Christian Andersen.
    Para mim, claro, não há beleza em qualquer composição poética de Regina Gouveia onde se procura, debalde, encaixar, à martelada, meia dúzia de nomes científicos muito sonantes, nuns versos muito pobres de estilo popular repentista. Para mim, fica tudo muito artificial!
    Em António Gedeão, sente-se a Química:

    Encontrei uma preta
    que estava a chorar
    pedi-lhe uma lágrima
    para a analisar

    Recolhi a lágrima
    com todo o cuidado
    num tubo de ensaio
    bem esterilizado

    Olhei-a de um lado
    do outro e de frente
    tinha um ar de gota
    muito transparente

    Mandei vir os ácidos
    as bases e os sais
    as drogas usadas
    em casos que tais

    Ensaiei a frio
    experimentei ao lume
    de todas as vezes
    deu-me o qu'é costume

    Nem sinais de negro
    nem vestígios de ódio
    água (quase tudo)
    e cloreto de sódio.

    Cordialmente,

    João Silva

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  4. Não gosto de alimentar polémicas pelo que este será o meu último comentário.
    Cita Gedeão, um dos meus poetas de eleição. Pessoalmente teria escolhido outro poema porque o que "postou" não está entre os meus favoritos. Curiosamente, uma vez em conversa com a Dr" Natália Nunes, que tive o privilégio de conhecer, soube que também não era dos “mais queridos" do autor. Ainda a propósito de Gedeão, sei bem qual o abismo que nos separa e nunca tentei equiparar-me ao Poeta. Relativamente à sua opinião no que respeita à ligação ciência/ poesia na minha modesta obra, há quem pense de forma contrária e, felizmente, tenho alguns poemas dispersos em livros de Física e Química, e também em livros para o 1º e 2º ciclos (textos extraídos de livros meus aconselhados pelo PNL e pelo Centro de Ciência Júnior )
    Da inserção de poemas meus em livros didáticos, nalguns casos tenho tomado conhecimento por mero acaso, noutros tem-me sido solicitada autorização como é o caso de dois livros brasileiros, um em fase de edição e outro já editado (Química para o 1º ano do ensino médio, de Sérgio Frois, editora EDEBE ). Curiosamente, o poema ali incluído é o poema Big-Bang que o Professor Fiolhais incluiu no texto que comenta.

    Cordialmente
    Regina Gouveia

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  5. Se os responsáveis pelo blogue forem magnânimos, como é timbre das altas personalidades, também eu, em jeito de despedida, gostaria que me deixassem fazer publicidade a um manual de física, de que sou co-autor, escrito propositadamente - porque o meu coração é grande!- para os deserdados do ensino, os pobres alunos dos cursos profissionais, que por esse país fora têm transformado em mel físico-químico o néctar que recolhem prazenteiros de cada vez que leem as páginas do meu livro carregadas de didática da ciência.

    A bem da didática,

    João Silva

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