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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

"Morrem das formas mais parvas"

O Odisseia é um canal de televisão onde tenho visto programas de grande interesse científico, artístico e humanístico, se é que esta diferenciação faz algum sentido. Tem sido, pois, um dos poucos canais que me levam a ligar a "caixa que mudou o mundo".

Mas, tal como outros canais temáticos (isto não falando dos generalistas), para sobreviver, deve ter de ceder àquilo que atrai muita gente. E o que atrai muita gente em questão de televisão, como noutras questões, nem sempre está de acordo com o que é verdade, certo, recomendável, tolerável... isto à luz do estado civilizacional que conseguimos alcançar. O dinheiro, nestas coisas de comunicação social tem de vir de algum lado e o lado de que vem reivindica certos níveis de audiências...

Percebo isso, mas de maneira alguma o posso aceitar.

Não posso aceitar que um canal de televisão, ou outra qualquer instância, por mais que tenha feito ou faça pela divulgação do conhecimento, ceda, ainda que pontualmente, à ignomínia.

No Odisseia vi o pior que já pude ver na categoria de "entretenimento", o que nunca imaginei sequer ver. Pior, muitíssimo pior, do que os big brothers e afins: sugerir (ou, mais do que isso, afirmar) que a morte de certas pessoas em certas circunstância é uma coisa divertida e... merecida.

Refiro-me ao programa 1000 formas de morrer, que se apresenta como "série documental" baseada em "mitos e histórias reais" para "desmistificar o tabu da morte" e onde (ena!) se faz a "recriações de alguns acontecimentos mais trágicos". Contam, pois, os seus autores, com a propensão humana (talvez exista mesmo) para a banalidade (no caso, é possível desmitificar a morte entre dois momentos de publicidade) e para a barbárie (como nos deliciamos com o extremo sofrimento do outro).

No texto de apresentação do dito programa li o seguinte: "com recurso a explicações científicas e ainda animações geradas através da técnica CGI (Computer Generated Imagery), os telespetadores poderão compreender, de forma mais simples, muitas das calamidades que enfrentamos diariamente e que podem provocar a morte, sejam elas catástrofes, doenças ou até mesmo os ‘simples’ germes".

Triste texto: pretendendo garantir qualidade, salvando o lugar que o programa ocupa no Odisseia, ofende a ciência e a tecnologia, bens preciosos que devem estar inequivocamente ao serviço do que é certo, sob o ponto de vista ético; pretendendo esclarecer o telespectador, ofende-o ao sublinhar a simplicidade da mensagem que lhe destina, como se ele não pudesse alcançar mais do que isso.

Perguntei a vários conhecidos se estão a par do tal programa, onde se conta que certas pessoas "morrem das formas mais parvas", e percebi que aqueles que o vêem, acham-no... giro, interessante, engraçado... Afinal, aquelas mortes só acontecem a quem é mesmo estúpido! Corolário: merece morrer. Nada menos do que isso.

Bingo! A orientação discursiva do programa foi inteiramente construída nesse sentido e revela-se um êxito. Quem sabe, sabe! Tiremos o chapéu a quem a imaginou e concretizou: trata-se de especialistas que a apresentam como brincadeira mas não é brincadeira, estão muitos milhões em jogo...

Serão muitos os que se embalarão nesta orientação, do princípio ao fim de cada episódio e, com muita naturalidade, desligarão a televisão para dormir descansadamente o sono dos justos, sem que nenhuma dúvida os assalte.

A existência de um tal programa e a sua aceitação (pelos vistos em vários países do civilizado ocidente) revela a nossa grande ignorância em matéria de Direitos Humanos.

Na Declaração Universal (que pode ser consultada aqui) plasmou-se o que de melhor a herança greco-latina e judaico-cristã permitiu discernir (para o que aqui interessa retiro o seguinte: no preâmbulo afirma-se a "fé nos direitos fundamentais do homem, na dignidade e no valor da pessoa humana"; no artigo 1.º esclarece-se que "todos os seres humanos nascem... iguais em dignidade" e no artigo 3.º que "todo o individuo tem direito à vida").

Plasmou-se, mas isso não basta: é preciso educar. É preciso educar para que as pessoas possam perceber o que efectivamente palavras tão simples querem dizer. E, ainda que assim seja, nem todas perceberão, mas é um passo...

4 comentários:

  1. Um casaco sem botões ou fecho não serve. A morte é isso. O ponto no fim da frase.A fechar. Sendo última, faz ainda parte de existir. Não vi o programa, não sei o que considera mortes parvas. De um certo ângulo particular -o de cercear todas as minhas possibilidades -, a morte aparece-me sempre algo parvóide. De um modo geral assume outras preponderâncias.

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  2. Perhaps, permita-me que esclareça o seguinte: a expressão "mortes parvas" não é minha, consta no texto de apresentação do referido programa e traduz a sua essência. Por isso está entre aspas.
    Cordialmente, MHD

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  3. Inteiramente de acordo com HD.
    É um dos mais estupidificantes "programas" a que já assisti.
    Entrámos, já há anos, numa vertigem em que, para alguns mentores mas também para muitos consumidores, tudo vale e nada se questiona.
    Dos astros "científicos" aos "extraterrestres" conspiradores, das "aparições" benignas (?) à validação da violência "gratuita",vale tudo.

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  4. Já vi o programa diversas vezes. Se o formato é bastante questionável, o interesse não. E não morre só quem é estúpido. Há situações que podiam acontecer a qualquer um de nós e principalmente aos mais jovens e incautos.

    Por exemplo, há dias passava na rtp uma competição de saltos para a água nos Açores. É incrivelmente perigoso, um pequeno deslize, uma entrada na água menos perfeita e pode ser o fim. E para uma actividade que qualquer jovem gosta de experimentar tendo para tal oportunidade, estranha-se a falta de avisos.

    Neste mesmo programa surge um caso destes. Os intestinos desfeitos pela pressão da água. Um jovem que na brincadeira saltou de um penhasco e entrou na água de pernas abertas.

    Ou outro, que comentei com um colega. Um homem que numa auto-caravana decidiu deitar lixivia na fossa porque cheirava mal. A reacção química foi de tal forma violenta que morreu intoxicado antes de conseguir sair do veículo. "Ainda bem que me avisas, é o tipo de coisa que era capaz de me dar para fazer"!

    Por mais questionável que seja, salva vidas. Esperaria que alguém reparasse nisso também, passada a indignação.

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