quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Sindicalismo Docente e Desemprego dos Professores


Trancrevo o meu artigo de opinião, saído hoje "Público":

“Uma vez constituído o sindicato, passam a dominar nele — parte mínima que se substitui ao todo — não os profissionais (comerciantes, industriais, ou o que quer que sejam), mais hábeis e representativos, mas os indivíduos simplesmente mais aptos e competentes para a vida sindical, isto é, para a política eleitoral dessas agremiações” (Fernando Pessoa, 1888-19359).

Por se tratar de um mal endémico que atinge cada vez maior percentagem da população cursada superiormente, o desemprego dos professores atinge, como tal, proporções inusitadas. Todavia, esta situação é demasiado profunda para nos atermos, apenas, aos sintomas actuais sem procurar a sua etiologia.

Façamos, portanto, um flash-back recuando à época imediatamente a seguir a 25 de Abril. A exemplo do Estado Novo, o Partido Comunista sabia que a Educação era a porta de entrada para a politização das camadas estudantis juvenis porque, como nos ensina a sabedoria popular: “De pequenino é que se torce o pepino”. Desta forma, de uma maneira geral, os lugares provisórios da carreira docente foram distribuídos por pessoas filiadas nesse partido político ou simplesmente politizadas por ventos soprados de Moscovo sem ter em conta as respectivas habilitações literárias chegando a ponto de haver “professores” a darem aulas a alunos com idênticos ou, até, mais estudos. Conta-se até o caso de um desse “professores” que, no primeiro dia da apresentação das aulas, esclareceu os seus alunos: “Perguntem-me tudo o que quiserem, só não me façam perguntas sobre a matéria que supostamente vos devia ensinar mas que desconheço”.

Por não pecarem pela ingratidão e para, por outro lado, em sentimento menos nobre, terem as costas quentes, logo esses “milicianos” do ensino procuraram a sombra protectora da Fenprof que, assim (e nem sempre pelos melhores motivos), se tornou o sindicato docente com maior representatividade em número de associados. Eram estes “professores” recrutados, devido ao boom a que se assistiu na escolaridade, de entre estudantes universitários dos cursos mais diversos ou até de menor habilitação académica.

Na altura, este facto levou-me a escrever: ”O estudante de Direito, quando está ainda a aprender – dá aulas e intitula-se professor! Quando já sabe, defende em juízo e é titulado como advogado” (Jornal de Notícias, 25/06/1992). Exemplos idênticos eram o pão nosso de cada dia no caso de outros estudantes universitários de outros cursos. Alguns destes estudantes, menos acomodados a esta situação terminaram as suas licenciaturas seguindo as carreiras profissionais para que se tinham habilitado. Outros, os mais cábulas e/ou habituados a um vencimento no fim do mês, não as terminaram, deixando-se ficar no ensino até aí se conseguirem encaixar definitivamente, fazendo passar a imagem de uma espécie de serviço prestado à comunidade educativa, como se de uma obra de caridade se tratasse sem proventos remuneratórios.

Veja-se o caso dos estudantes que se tornaram militares. Aos estudantes universitários incorporados no serviço militar obrigatório, como oficiais milicianos, e, como tal, arriscando a vida em vários teatros de guerra em terras de África, por carência de oficiais do quadro permanente (recorde-se que, antes desta situação, a Academia Militar tinha um número de excessivo de candidatos para um escasso número de vagas) , não tendo os seus cursos sido interrompidos por vontade própria, só nos derradeiros anos de guerra lhes foi permitido o ingresso na Academia Militar, podendo vir, com isso, a preencher promoções para a patente de capitão. Segundo muitos analistas políticos, foi este facto que gerou, por parte dos chamados oficiais de carreira, o clima de descontentamento que esteve na génese do 25 de Abril.

Estes factos, somados à incontroversa diminuição da natalidade da população portuguesa e ao aparecimento desregrado de escolas superiores de educação com privilégios concursais para a docência dos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico dos seus diplomados relativamente aos licenciados universitários, não podiam deixar de gerar o desemprego nos docentes que só agora começam a sentir verdadeiramente, e, sem uma solução à vista, os efeitos nefastos de uma política educativa que tem andado a reboque de um sindicalismo que pretende vestir o camuflado de mercenário a uma profissão em luta por questões meramente laborais, como sejam vencimentos e horários de trabalho. Como se se esgotasse o exercício docente na recusa sindical permanente de uma organização profissional de interesse público em que o Estado delegue poderes na assunção de responsabilidade de actos próprios de uma profissão havida como uma das mais nobres por Fernando Savater, filósofo e catedrático de Ética nosso contemporâneo: “Considero os professores e professoras como a corporação mais necessária, mais esforçada e generosa, mais civilizadora de quantas trabalham para satisfazer as exigências de um Estado democrático”.

Por demais evidentes, com raras e honrosas excepções, as tentativas de sacudir a água do capote não dão aos sindicatos o direito de alijar responsabilidades, por si próprias criadas, pelo desemprego dos professores devidamente habilitados. Deverá ser a própria sociedade civil a exigir que os responsáveis por esta situação expiem a sua culpa em acto de contrição pública, não as imputando a terceiros. É o mínimo que se lhes pode e deve exigir para que a culpa não morra solteira!

16 comentários:

  1. Não tem o direito de insultar e caluniar pessoas e instituições, neste caso o Partido Comunista Português. O PCP teve e tem uma visão da educação, processos e objetivos que nada tem a ver com a preconizada pelo fascismo. É portanto calúnia o que afirma. Como é calúnia o "politizados por ventos soprados de Moscovo", que foi tema recorrente da propaganda fascista. O ataque ao movimento sindical é outro sintoma de doença, não sua, mas da sociedade.

    «A exemplo do Estado Novo, o Partido Comunista sabia que a Educação era porta de entrada para a politização das camadas estudantis juvenis porque, como nos ensina a sabedoria popular: “De pequenino é que se torce o pepino”.Desta forma, de uma maneira geral, os lugares provisórios da carreira docente foram distribuídos por pessoas filiadas nesse partido político ou simplesmente politizadas por ventos soprados de Moscovo(...)»

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    1. Anónimo (23 Agosto, 22:54): Nunca foi minha intenção” insultar e caluniar” o Partido Comunista. Apenas constatei factos que imputei, simultaneamente, ao PCP e ao Estado Novo. E não só! Como é sabido, sociologicamente a política educativa sofre forte influência (ou total condicionamento) da orientação política dos partidos no poder.

      Mas para não poder ser acusado de me tornar juiz em causa própria, e porque “fora da observação dos factos e da experiência dos fenómenos, o espírito não pode obter nenhuma soma de verdade” (Eça), transcrevo um excerto do trabalho académico de dois professores da Universidade de Lisboa, respectivamente Maria João Mogarro e Joaquim Pintassilgo., intitulado “Educação, Cidadania e Alfabetização em Contexto Revolucionário”. Nele lê-se, no respectivo segundo parágrafo inicial, que se transcreve:

      “Nesse contexto, viram a luz do dia acções de natureza e origem diversas (movimento associativo estudantil, organizações partidárias, Movimento das Forças Armadas, grupos católicos, organizações populares, etc.), total ou parcialmente dedicadas à alfabetização, com particular destaque para as Campanhas de Alfabetização e Educação Sanitária, realizadas no Verão de 74, e para o chamado Movimento Alfa, com expressão no Verão de1976, os dois movimentos mais mediáticos e políticos a este nível, se não contarmos com as Campanhas de Dinamização Cultural do MFA, em que a componente de ALFABETIZAÇÃO ERA RESIDUAL” (maiúsculas da minha autoria).

      Ora, a ingenuidade ou a própria intencionalidade em “tirar o cavalinho da chuva” com o que se passava simultaneamente nas nossas escolas oficiais não colhe, se nos lembrarmos do clima das associações académicas dos então liceus em que se digladiavam as diversas correntes políticas, as RGA’s, as Reuniões Gerais dos Professores (e, por vezes, respectivos saneamentos), as orientações das tutelas oficiais, etc.

      Se não quisermos fugir à verdade, numa coisa não podemos estar de acordo quando escreve: “ O PCP teve e tem uma visão da educação, processos e objetivos que nada tem a ver com a preconizada pelo fascismo”. Isto porque há “ismos” que se compaginam com regimes ditatoriais. E estes exemplos não fogem à regra, embora possam apresentar intensidades diferentes.

      Para abreviar razões, que o assunto mais não merece, desde quando relatar factos pode ser tomado como insulto ou calúnia a pessoas ou instituições? Mesmo a terminar, e mesmo considerando isso desnecessário, agradeço-lhe a ocasião que me proporcionou, com o seu comentário (embora lhe faça a justiça de julgar não ter sido essa sua intenção), em esclarecer o leitor do espírito que o enformou.



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  2. Quem começou a leccionar em 1974 era do PCP?
    Os Professores do 1º Ciclo formavam-se nas Escolas do Magistério Primário, até serem criadas as ESEs nos anos 90.
    Os Educadores de Infância começaram por se formar em escolas Particulares, depois no Magistério e nos anos 90 nas ESEs.
    Como se formavam os professores do 2º e 3º ciclo? Não era nas Universidades?
    As ESEs começaram a ser criadas entre os fins dos anos 80 e anos 90 e esses professores não contam?
    Nunca houve tanto rigor quanto às habilitações para o ensino como depois do 25 de Abril, antes haviam Diplomas de ensino particular, licenças de leccionação, etc....
    Todos os professores que estavam no sistema sem habilitações foram obrigados a habilitar-se.
    Este artigo em de quem desconhece a realidade e não tem memória, de 1974 a 2012 vão 38 anos.

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    1. Prezada Isabel Branco Pires:

      Cumprindo a promessa de responder ao seu comentário (que agradeço),começo pelo respectivo final quando diz ser este artigo (o meu artigo) de quem não tem memória. Fiquei preocupado, ou mesmo arrasado. Busquei nas prateleiras dos meus livros, o soneto de Camões “Alma minha gentil…) e tentei (re)decorá-lo em recordação de saudosos tempos escolares em que a recitação fazia parte das aulas de Português. Levei bem mais de uma hora, e tentei por todas as formas levar o meu intento avante. A páginas tantas, perante as dificuldades sentidas, levantei-me e armado em peripatético fiz vários percursos no meu escritório. Debalde! Só consegui decorar “alma minha”. Gero-se em mim um verdadeiro pânico (terá sido para não ficar “demodé” desta doença da moda?) e perguntei-me: “Será que estou a ficar desmemoriado?”. Felizmente não passou tudo de um sonho mau por ter lido o diagnóstico desta leitora sobre a minha falta de memória antes de me deitar já de madrugada!

      E já que falamos de memória, rectifico: a primeira escola superior de educação foi criada em Viseu, no ano da graça de 1983. Ou seja, as simples previsão da criação das escolas superiores de educação (e cito do seu comentário:” entre os fins dos anos oitenta anos noventa” ) saíu completamente furada.O ano de1983 não é tão elástico que se enquadre entre o final de duas décadas!

      Pergunta a leitora do meu post: “Quem começou a leccionar em 1974 era do PCP?” Claro que não. Alguns não eram; outros, talvez, fossem das multidões que, em Lisboa, na Praça do Comércio ou Terreiro do Paço, vitoriavam Salazar! Vá lá a gente saber quem era ou não trânsfuga…

      De boa justiça se deve reconhecer que antes de 25 de Abril existiam as regentes escolares (algumas tendo como habilitação a 4.ª classe ou pouco mais) que o ciclone da Revolução fez professoras do ensino primário enquanto o diabo esfrega um olho, bem como complementos de habilitação de professores de outros graus de ensino feitos a martelo. Mas, para não a incomodar mais (e principalmente possíveis leitores interessados em ouvir as duas partes para daí tirarem as devidas ilações e pertinentes ilações ), aqui termino o meu depoimento/resposta ao seu comentário, embora correndo o risco de alguma coisa ter ficado por dizer. Mas como o bom povo nos ensina: “Há mais marés do que marinheiros!”

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  3. Ainda consigo ficar atónita: Chegámos ao ponto de serem publicados em jornais ditos "de referência" pretensos relatos produzidos por qualquer cabeça inventiva, ao serviço não se sabe de quem. "logo esses “milicianos” do ensino procuraram a sombra protectora da Fenprof que, assim, (e nem sempre pelos melhores motivos) se tornou o sindicato docente com maior representatividade em número de associados". E o autor/inventor é tão, tão ignorante que nem sequer sabe que a FENPROF não é um sindicato, mas sim uma federação de sindicatos, nem sequer criada logo após o 25 de Abril.

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    1. Isabel Campeão: Seja-me permitido ficar ainda mais atónito por poder não me ser atribuido o 1.º lugar do pódio do estupor (=espanto)! Isto, pelo que depreendo da sua prosa (me dirá se sim ou não!), por os “jornais ditos ‘de referência” não seleccionarem os artigos que compartilhem com os seus leitores as suas preferências políticas.

      Em louvável respeito pelo direito de expressão, se reparar (e de certo reparou, em deleite próprio) que o jornal em referência, o Público, já tem publicado tanto artigos de opinião meus como do secretário-geral da Fenprof. Ou seja, pelos vistos, para si, como diria Eça, “a mim nada é permitido! Ora cebo! Estranha forma, portanto, de encarar os princípio consignados nas verdadeiras democracias, em que a República Democrática Alemã, um férrea ditadura, pertence ao passado.

      Em picuinhices de datas, sou chamado de ignorante por, segundo esta leitora, ter eu escrito que a Fenprof foi criada “logo após o 25 de Abril”. Dei-me ao trabalho de reler o meu artigo: não escrevi! E como não escrevi, para me utilizar de um eufemismo, trata-se de uma falsidade. O que escrevi, e transcrevo (3.º §, 5 primeiras linhas): «Façamos, portanto, um flash-back recuando à época imediatamente a seguir a 25 de Abril. A exemplo do Estado Novo, o Partido Comunista sabia que a Educação era a porta de entrada para a politização das camadas estudantis juvenis porque, como nos ensina a sabedoria popular: “De pequenino é que se torce o pepino”». Ou seja, a referência que faço “à época imediatamente a seguir a 25 de Abril”, reporta-se ao Partido Comunista que, embora em parentesco chegado com a Fenprof (Federação Nacional de Professores, está feita a correcção!), criada em Abril de 1983, não são uma e mesma coisa por ter uma parcela de associados de outras cores políticas.

      Seja como for, agradeço-lhe o ter-me proporcionado o facto desta troca de impressões que espero ter sido útil para clarificar posições antagónicas.

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  4. Vou apenas comentar os parágrafos, que a minha reflexão sobre o que me rodeia permite. Factos "cronológicos", deixo-os para as pessoas do "metier" (que não é o meu caso, sou, apenas uma cidadã interessada nas "coisas da Escola") e, muito particularmente, para quem os experienciou na 1ª pessoa, que nem tenho a certeza de ser o caso do autor desta "opinião".
    Começo por achar tremendamente tendenciosa e desonesta a transcrição – datada – de Fernando Pessoa. Aliás é curioso, que no mesmo texto (in "Ideias Filosóficas"), Fernando Pessoa afirma «... nenhuma associação de classe é uma associação de classe...», reduzindo assim a mito «...a corporação mais necessária, mais esforçada e generosa, mais civilizadora de quantas trabalham para satisfazer as exigências de um Estado democrático» de Fernando Savater, "nosso contemporâneo"...
    Quanto ao descontentamento dos "chamados oficiais de carreira génese do 25 de Abril"... O Povo saiu à rua e o Povo, é quem mais ordena!
    Acabei por não perceber, sequer, a quem deve a sociedade civil exigir responsabilidades...

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    1. FG:Começo por a informar que “o autor desta opinião”, em frase sua, experienciou, nas épocas revolucionária, anteriores e posteriores, todos estes casos, e duplamente: quer como docente de diversos graus de ensino (do antigo liceal, hoje secundário, e universitário público) quer, ainda, como presidente da Assembleia Geral de um sindicato docente de que se demitiu (em coerência para consigo próprio) aquando da criação da chamada Plataforma Sindical dos Professores de que era porta-voz o actual secretário-geral da Fenprof.

      Posto isto, à laia de introdução para que fui solicitado, para não a deixar prisioneira de um terrível dúvida, e passando ao lado de considerar “tendenciosa e desonesta” a citação que faço do pensamento, sobre o sindicalismo, de um dos maiores vultos da Cultura portuguesa, Fernando Pessoa, detenho-me, apenas, no facto da crítica (do autor da “Mensagem”) incidir, em transcrição, sobre dirigentes sindicais “para a política eleitoral dessas agremiações” ( e há que fazer justiça a quem a cumpre esse preceito, a eito e a jeito, para se manter “eternamente” nesses cargos). Justiça feita, portanto!

      De forma alguma, só numa leitura distorcida a bel-prazer de quem a faz, este pensamento torna em mito a corporação enaltecida por Fernando Savater (afastado da docência na Universidade Autónoma de Madrid, em 71, por motivos políticos). Nada nos autoriza a dizer que esse termo se refira, tão-só, a organizações sindicais ou ordens profissionais. Pode tratar-se, apenas, do conjunto de pessoas que exercem a mesma profissão, caso da corporação dos bombeiros, por exemplo. Os professores não sindicalizados (que os há em percentagem apreciável) não deixam por esse facto de formar uma corporação, “sctricto sensu”, no exercício de um magistério comum.

      Faltava ao seu comentário, como soe dizer-se, a cereja em cima do bolo argumentativo. Ficou, apenas, guardada para o fim com o genérico de o “povo é quem mais ordena”. Permita-me duvidar, nem sempre. Um simples exemplo, q.b: Na Coreia do Norte é o povo quem mais ordena? Deus a oiça, e assim aconteça!

      Quer mesmo saber a quem pedir responsabilidades sobre o estado actual do nosso ensino? Em simples opinião pessoal (e eu bem sei, que as opiniões valem o que valem) muita (concedo, ou apenas alguma) dessa responsabilidade cabe a um certo sindicalismo que proletarizou os professores como se a sua função, com os atributos que lhe concede Fernando Savater, se esgotasse em questões meramente laborais…ou políticas, mesmo dando de barato que “o homem é um animal político” (Aristóteles)!

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    2. Boa noite professor Rui,
      Primeiro, agradeço a amabilidade da resposta ao meu comentário. Não a esperava, porque nem estava certa de ter conseguido publicar o comentário. A minha "esposta segue em 2 partes porque ultrapassa os "4096"...
      Professor Rui, já sabe, que não sou professora, nem tenho qualquer ligação à Escola, se não o facto de ter 2 filhos em idade escolar e, muito particularmente, a atenção de cidadã preocupada como futuro do meu País, que, para mim, será sempre fortemente determinado Pela Educação.
      Posto isto e também "à laia de introdução" quero dizer-lhe, que quando leio, seja um livro, seja um artigo de jornal; tenho sempre a expectativa de que essa leitura me "acrescente" mais qualquer coisa... e essa "qualquer coisa" pode ser apenas o facto de me pôr a reflectir sobre algo em que nunca tinha pensado.
      Quando afirmei achava a introdução "tendenciosa e desonesta", não pretendi insultá-lo... achei mesmo que era "tendenciosa", porque uma introdução destas, do meu ponto de vista, condiciona absolutamente tudo o que vai escrever a seguir e também, a predisposição de quem vai ler. Outra vez do meu ponto de vista, não é isso que pretende quem decide "partilhar" uma opinião...
      "Tendenciosa e desonesta" porque: primeiro, o facto de Fernando Pessoa ser «...um dos maiores vultos da Cultura portuguesa...» (apesar de não ser professora, nem ter, sequer formação superior; conheço a sua obra e até sei que é o autor da "Mensagem" e reconheço o "tamanho do seu vulto"), trata-se – para mim - igualmente, de uma opinião – a de Fernando Pessoa... Não passa a ser um facto, uma verdade, um "mito"(enfim algo provado e comprovado), só porque foi Fernando Pessoa que escreveu! Não posso, portanto "fazer-lhe essa justiça"
      Segundo, porque Os sindicatos, são uma conquista e são muito importantes para a saúde e vitalidade da Democracia. Os sindicatos são constituídos por pessoas, os associados e, da minha observação (atenta), porque não sou professora, mas sou "velhota" ... Constituídos, maioritariamente, por gente generosa e abnegada. Os "caminhos" que os sindicatos trilham imanam da nossa (cidadãos/associados), participação ou da falta dela... Portanto aqui acrescentava ao "tendenciosa e desonesta", injusta.
      Por último, o seu artigo defraudou as minhas expectativas – as tais que tenho sempre que leio algo – porque, as afirmações que faz, não são novidade, outros têm uma leitura semelhante desses tempos, de que não partilho; mas não é aí que me sinto defraudada, porque essa é a sua (e doutros) leitura e eu só sei que tenho uma diferente, porque há diferentes... eu sinto-me defraudada, porque afinal o seu artigo era, mesmo, e só, aquilo que a "introdução anunciava"... para "desancar os sindicatos"! Numa altura que – considero – dramática para a nossa Democracia e, particularmente, para a Escola Publica o grande problema são... os Sindicatos?!

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    3. Em relação ao Fernando Savater (afastado da docência na Universidade Autónoma de Madrid, em 71, por motivos políticos), só o referi, porque para mim, um sindicato é uma corporação e, talvez porque não sou professora, em termos puramente abstractos, não percebi porque é que uma corporação é "boa" - deve ter sido por isso que o mencionou (à parte do enaltecimento) - mas se tiver a designação de sindicato é "má"! Ok, admito, que tive que procurar o significado de "sctricto sensu"...
      Para terminar e "passando ao lado" «...Um simples exemplo, q.b: Na Coreia do Norte é o povo quem mais ordena?», sim, continuo a achar que o Povo é quem mais ordena! E é, também, por essa razão que considero o Ensino tão importante e defendo a Escola Publica "com unhas e dentes"... Porque um Povo esclarecido "ordena" mais! Sabe professor, eu nunca me sinto "inocente" de nada que se passe à minha volta. Ignorante? Sim, muitas vezes! Inocente? Nunca. A Democracia é como o amor... Tem que se estar atento e "alimentar"... e isso, professor Rui, não tem a haver com Deus, tem a haver com o Homem!

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    4. Boa-noite Minha Senhora: Deve ter sido a primeira vez que me deu o prazer de ler um dos meus inúmeros posts publicados neste blogue. O que me leva a esta conclusão? È simples: o facto de dizer que não esperava a minha resposta ao seu comentário.

      Como posso comprovar, em comentários meus em outros posts, sempre tenho afirmado que os comentários, desde que cumpram as condições expressas no “De Rerum Natura”, muito valorizam uma discussão de ideias que, embora em desacordo, muito podem contribuem para a valorização e clarificação de pontos de vista pessoais: quer do autor do post, quer de quem o comenta.

      De resto, uma leitura transversal do meu post e do seu comentário poderiam (ou podem?) levar a pensar que em nada estamos de acordo. Nada mais falso. Num aspecto, julgo poder adiantar, nos identificamos, quase diria, a papel químico: a defesa intransigente da escola pública (com uma tradição que merece o maior respeito que deve ser preservada a todo o custo) que não pode, muito menos deve, entrar em competição com os colégios com contrato de associação (principalmente daqueles que não cumprem os quesitos impostos por lei) por estabelecerem uma concorrência com os colégios privados criando uma espécie de ensino híbrido, nem peixe nem carne.

      Quanto a eu ter citado Fernando Pessoa foi um acto de procurar arrimo nessa eterna figura da Literatura Portuguesa.. Não seria ingenuidade da minha parte citar um zé-ninguém que veja no sindicalismo a solução de todos os problema? Mesmo que proletarizando a profissão docente com manifestações às portas das escolas, na presença dos seus alunos, com cartazes e palavras de ordem verdadeiramente ofensivos para entidades governamentais que superintendem na Educação (uma educação que, como o seu nome indica, se não deve circunscrever a mera instrução). E eu tenho testemunhos meus públicos (artigos de jornais e posts) do meu desacordo para com gente “ilustre” nesse domínio: Maria de Lurdes Rodrigues, por exemplo, triste exemplo.

      (Continua)

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    5. Estou por exemplo, também, contra um sindicalismo que se comprometeu e defendeu o triunfo dos medíocres. Vou ser mais preciso, dando-lhe um exemplo concreto, publicado no Jornal de Notícias (13/08/2012), intitulado “Professores com 9.º ano atiram licenciados para horário-zero”. Reza o artigo:


      “Os professores de Trabalhos Manuais estão a atirar para "horário-zero" os docentes de EVT. A denúncia é feita pela Associação de Expressão e Comunicação Visual, que enviou queixa para o provedor de Justiça. Se não se tivesse reformado neste ano, Adriano Costa seria um dos casos de "injustiça". Arquiteto de formação, tinha 37 anos de serviço e iria ficar sem componente letiva. À sua frente, com horário, ficou uma docente de lavores femininos. Na sua escola (EB2,3 de Gaia), dos 14 professores do grupo, apenas 6 ficaram com horário e, desses, 2 são de Educação Visual (EV) e 4 de Trabalhos Manuais”.


      Cito, agora, “ipsis verbis” (para lhe evitar a consulta ao dicionário de expressões latinas: literalmente), este pequeno naco de prosa do seu comentário: (…)” já sabe, que não sou professora, nem tenho qualquer ligação à Escola, se não o facto de ter 2 filhos em idade escolar, e muito particularmente, a atenção de cidadã preocupada como futuro do meu País, que, para mim, será sempre fortemente determinado Pela Educação”.

      Pelo que julgo saber, movimentos sindicais não se pronunciaram por uma questão laboral, como esta (o que seria difícil por terem pressionado os poderes públicos para uma carreira docente única, única por não encontrar paralelo em num cantinho europeu) que meteu no mesmo saco com quase idênticos direitos e diferentes e abisssais deveres todos aqueles que dão aulas independentemente das respectivas habilitações académicas. Neste caso concreto, será justo colocar uma docente de lavores femininos à frente dum arquitecto?

      Para Agostinho da Silva (1906-1996), decididamente, não. Não, quando escreve: “A única salvação do que é diferente é ser diferente até ao fim, com todo o valor, todo o vigor e toda a rija impassibilidade”.

      Serei eu reaccionário? È possível que sim, como aliás, como escrevi em tempos (sem me servir de muletas de ninguém), para muita gente, quem diz o que pensa é reaccionário, quem diz o que lhe manda o Partido é progressista. Evocando António Gedeão, um ilustre professore já falecido de um liceu de grande tradição, Liceu Pedro Nunes de Lisboa, de seu nome Rómulo de Carvalho: “Onde Sancho vê moinhos / D. Quixote vê gigantes. / Vê moinhos? São moinhos / Vê gigantes? São gigantes”. Segundo penso, já temos matéria argumentativa de sobra para nos retirarmos de uma discussão que corre o risco de se tornar numa espécie de “pescadinha de rabo na boca” , ou jogo de ping pong, que deve passar a ser dirimida pelo leitor no caso em questão: sindicalismo e sindicalistas!

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  5. Eu não sei se este artigo é de quem desconhece a realidade ou de quem finge desconhecê-la e pretende atirar mais demagogia anti-sindical para o espaço público. Eu não concordo com tudo o que dizem ou fazem os sindicatos, mas eles fazem falta à Democracia e é estúpido culpá-los pelos números de desemprego docente.

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    1. Errata (4.ª linha, 2.º §, da parte inicial do do meu comentário anterior):onde está "muito podem contribuem", corrijo para "muito podem contribuir".

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  6. Cara Isabel Branco Pires: Dado o adiantado da hora em que publiquei o meu comentário anterior (aliás, como adiantada era a hora que dele tomei conhecimento), responderei ao seu comentário mais logo.

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  7. Anónimo (24 Agosto; 02:45): Por norma, não sou de trocar galhardetes, mesmo que elogiosos. Muito menos, quando me acusam de estúpido por culpar os sindicatos pela elevada percentagem de docentes no desemprego.

    Agradecendo, todavia, o seu comentário apenas lhe peço que se debruce cuidadosamente sobre o meu post e meus comentários quando eu os responsabilzo (parcialmente) pelo desemprego dos professores devidamente habilitados, através de complementos de formação feitas a martelo que, de supetão, entupiram os quadros docentes e o escalão mais elevado da carreira docente, em benefício de dirigentes sindicais. Acredite (eu pelo menos assim o julgo) não se tratar de "procurar agulha em palheiro"!

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