segunda-feira, 27 de agosto de 2012

A memória da Lua


Declarações que prestei ontem a uma jornalista do "Correio da Manhã":

- O que recorda da chegada do homem à Lua?

- Já passaram 43 anos... Esqueci-me de muita coisa desse ano de 69, mas não dessa memorável emissão televisiva. Era um rapazinho de 13 anos a morar Coimbra e, embora estivesse no liceu, lembro-me também do ambiente da crise académica de 69 com a polícia contra os estudantes. A televisão era pequena e a preto e branco. As imagens, que hoje podem ser vistas na Net, tinham pouca definição. Havia uns vultos humanos que saltavam com a ligeireza de cangurus. Eu estava no início dos estudos de ciência e apercebi-me que eram os conhecimentos de física que permitiam a viagem à Lua. Não sei, a esta distância, se fui para física por causa disso, talvez não, mas alguma coisa terá ficado no inconsciente nessa época gloriosa em que se vivia a descoberta do espaço.Tenho a idade da televisão em Portugal, mas a memória mais antiga que tenho da televisão é a da vitória do Benfica na Taça dos Campeões em 1961 e, em 1966, do 3.º lugar de Portugal no Mundial de Inglaterra, as duas antes da viagem à Lua. Futebol e Lua, eis o que retenho dos ecrãs desses anos 60. Hoje digo aos meus alunos que a física explicam os movimentos nos dois casos e pelas mesmas leis, as leis de Newton. E, já agora, foi também a física que permitiu a invenção da televisão. Acho que foi boa ideia ter estudado Física. E continua a ser boa ideia para os jovens de hoje, que ainda há pouco puderam ver a Curiosity pousar em Marte.

- E havia controvérsia em torno do tema? Havia quem duvidasse?

- As pessoas minimamente cultas acreditavam, seguiam as emissões na televisão e na rádio (com comentários de Eurico da Fonseca, um auto-didacta fabuloso). Mas o país era largamente inculto e pobre. Quase não havia ciência em Portugal. Um comerciante de carnes declarou na época a um jornal nacional: "Que me interessa a mim a Lua se não posso vender carne fora do meu concelho!" Progredimos muito desde esse tempo. Progredimos? A teoria absurda de que o homem nunca foi à Lua e que tudo não passa de um filme é recente, estando espalhada pela Internet. Se "googlarmos" viagem a Lua encontramos em vários sítios a afirmação falsa de que o homem nunca foi à Lua. A Internet está, de facto, inundada de lixo. A teoria segundo a qual os astronautas nunca foram a Lua é completamente absurda. Está ao nível de teorias similares segundo as quais Elvis Presley ainda está vivo ou foi a CIA que fez os ataques às torres gémeas. Há gente para acreditar tudo, por lhes faltar cultura científica. Einstein disse: "Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana, e quanto à primeira não tenho a certeza". Einstein já sabia, mas a Internet dá-nos a certeza da segunda. As provas da ida à Lua são avassaladoras. Por exemplo, há espelhos lá colocados que reflectem luz laser enviada da Terra. E há fotografias tiradas por sondas de instrumentos deixados pelo homem na Lua, que serão lá encontradas quando se voltar lá. Eu já estive no Cabo Canaveral, na Florida, e, ao ver o gigantesco foguetão o Saturno V, senti a realidade e a grandeza do projecto. O mesmo ao ver o módulo lunar num museu de Washington. Neil Armstrong foi um grande homem que não vai ser esquecido. Tinha tanto de corajoso como modesto. Declarou simplesmente sobre a Lua: "Um lugar interessante. Recomendo." Tem razão. É um lugar tão interessante que temos de lá voltar.

2 comentários:

  1. 1) Identifique-se com o seu verdadeiro nome.
    2) Seja respeitoso e cordial, ainda que crítico. Argumente e pense com profundidade e seriedade e não como quem "manda bocas".
    3) São bem-vindas objecções, correcções factuais, contra-exemplos e discordâncias.

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  2. Cláudia da Silva Tomazi31 de agosto de 2012 às 15:00

    Está a ciência, está para leis de física o permitir:

    "a física que permitiu a invenção da televisão"

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1) Identifique-se com o seu verdadeiro nome.
2) Seja respeitoso e cordial, ainda que crítico. Argumente e pense com profundidade e seriedade e não como quem "manda bocas".
3) São bem-vindas objecções, correcções factuais, contra-exemplos e discordâncias.