quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Magueijo, Majorana e os neutrinos


Hoje, às 18h30, na FNAC do Colombo, em Lisboa, tenho o gosto de apresentar o livro do físico João Magueijo (na figura), "O Grande Inquisidor" (Gradiva) que acaba de sair na Gradiva. Não podia ser mais actual pois se trata de uma biografia de Ettore Majorana, o físico italiano desaparecido misteriosamente em 1938 depois de ter estudado os neutrinos (há até um neutrino com o seu nome). E os neutrinos têm estado na ordem do dia. Deixo um bocadinho do livro, com a descrição dos neutrinos por João Magueijo, esperando assim abrir o apetite para um magnífico livro que é tanto de divulgação científica como de história da ciência moderna.

Carlos Fiolhais
"Termos descoberto a existência do neutrino é por si só quase um milagre, e no entanto o universo está infestado deles. Há tantos neutrinos como partículas de luz e mais, mas muito mais, neutrinos que átomos ou quaisquer partículas associadas à matéria vulgar. Movem-se por toda a parte, em todas as direcções, a uma velocidade próxima da da luz, atravessam tudo, atingem o nosso corpo aos biliões a cada segundo que passa, vindos dos céus, do chão, da linha do horizonte, de toda a parte.

Se alguma vez conduziu nas ruas de Palermo, talvez tenha reparado num número comparável de scooters a rodearem o seu carro vindas de todas as direcções concebíveis, e também a ultrapassarem-no a uma velocidade próxima da da luz; pelo menos, é o que parece. Conduzir em Palermo é uma metáfora perfeita do movimento
dos neutrinos. A semelhança, no entanto, fica-se por aqui. As scooters de Palermo, uma vez por outra, embelezam os carros dos habitantes com os efeitos extravagantes
de choques aparatosos; já os neutrinos são demasiado tímidos para este tipo de exuberância. Na verdade, são tão modestos e introvertidos que, apesar de biliões deles nos atingirem a cada segundo que passa, atravessam o nosso corpo como a um fantasma. São precisas várias horas para que um único neutrino interaja com os átomos do corpo de uma pessoa. Para os neutrinos, a matéria do universo é perfeitamente transparente, diáfana, imaterial; do mesmo modo, nós próprios não nos apercebemos dos efeitos do colossal mar de neutrinos que nos envolve.

A maior parte das hordas de neutrinos que nos atingem vem do Sol, mas a Terra é tão transparente para eles, que à noite recebemos uma chuva de neutrinos vinda de baixo, e o brilho do Sol no «canal de neutrinos» é aproximadamente o mesmo de noite e de dia.

A situação é de tal maneira estapafúrdia que, quando por fim construímos o primeiro telescópio de neutrinos, tivemos de o pôr no Pólo Sul — para observar os céus do hemisfério norte! Usámos a Terra como «lente», ou filtro, para que os muitos quilómetros de gelo do Pólo Sul funcionassem como película nesta peculiar câmara
de neutrinos.

Foi preciso esperar por 1956 para conseguirmos detectar o primeiro neutrino, com recurso a um truque muito engenhoso. Teve de o ser, uma vez que qualquer vulgar neutrino consegue atravessar vários anos-luz de matéria como se se deslocasse no vácuo, sem paragens em que possa dar-se a conhecer.

Sendo assim, como é possível que Ettore já soubesse da existência de neutrinos nos anos 30? A resposta pode muito bem ter a ver com o seu desaparecimento.

Os neutrinos podem ser tímidos, mas detêm o segredo da mais mortífera das armas humanas. Sem o segredo do neutrino, as armas nucleares não seriam possíveis. Cada vez que há uma detonação nuclear, é lançada uma vaga tremenda de neutrinos. Embora sejam demasiado discretos e tímidos para causarem qualquer dano directo, são fundamentais para a deflagração."

João Magueijo

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