quarta-feira, 28 de setembro de 2011

CIGANA E CIGANO


Novo texto literário da escritora Cristina Carvalho:

Há muitos, muitos anos havia uma égua e em cima da égua, uma mulher de longo, enorme cabelo que lhe corria até abaixo da linha da cintura. A égua era branca e tinha uma crina branca, muito forte, muito bela, comprida, comprida! A mulher, sentada de lado em cima do lombo da égua afagava-lhe de vez em quando a crina, dava-lhe umas palmadinhas no pescoço forte e muitas vezes, à medida do trote, trote que trote, entortava-se a mulher de modo a poder dar-lhe um beijo ainda e outra vez, no pescoço. Ambas trotavam. Uma em cima da outra. A mulher, descansadamente, enquanto passeava ia escovando calmamente o seu belo cabelo que se revelava com ar de cobre sob o sol desse quente mês de Junho.

Alguém lhe seguia os movimentos. Atrás de si e do trotar da sua égua, um passo rápido, um passo forte, uma passada de cavalo acompanhava-a sem disfarce e sem engano. Ela à frente, ele atrás. O homem em cima do cavalo era jovem, tão jovem que fazia o chão tremer à sua passagem, tão jovem e belo que nada mais neste mundo ali e naquele momento, nada poderia fazer com que ele desistisse desse passo e intenção.

Ela seguia escovando o cabelo. Nem tormentas, nem saudades, nem passado ou novidades a fariam desistir deste passeio único e apaixonado. A sua égua marchava calmamente e livre, livre sem rédeas, sem mandos, sem ordens, sentindo apenas aquele corpo tão leve em cima de si.

É então, num certo momento, num arredondar da estrada que eu a vejo. Vejo os dois. Ela em cima da égua. Ele em cima do cavalo. Mas a luz do seu cabelo cega-me, mal a vejo, mal a distingo tal é o Sol que dela vem. E agora ele, vestido de preto de cima a baixo, e por baixo do grande chapéu que usa vejo-lhe os olhos a brilhar, a seguir a passada da égua mais à frente, atentos olhos, atento rosto. É esta beleza que eu contemplo escondida por detrás duma árvore e quase que a respiração me falta, quase que passo ao sobressalto quando sinto o raspar dos cascos da égua tão perto da minha sombra e agora o sopro poderoso da respiração do cavalo que monta o homem vestido de preto, homem sem sombra de tão jovem, de tão poderoso que é. Ela avança pelo trilho, afaga a crina e o lombo da égua, escova o seu cabelo de oiro e cobre, o seu grande orgulho, e eu muda e muda e muda desloco-me, mudo de posição, escondo-me mais, quase desapareço nesta prega dum tempo que já não existe, que vai desaparecendo aos poucos como desaparece o dia quando a noite se aproxima, inexoravelmente.

Mais à frente, no final do caminho, a tenda armada num descampado de ervas rasteiras. É um vasto campo sem fronteiras, sem amarras. Dum lado a encosta do monte, do outro a cama brilhante do rio que corre, leito lânguido, língua húmida, água branca, transparente, enxoval de peixes e rãs e de pedras cintilantes como estrelas baixas. Eles lá entram na tenda e eu na esquina do tempo; o que por lá se passa não sei, não compreendo, não vejo a luz. Ainda não vejo a luz dos seus olhos e dos seus cabelos. Apenas sei e sinto que o tempo que tudo engole, também nos engole, a mim, a ti, cigana do longo cabelo que montas a égua da crina branca, e a ti, cigano jovem vestido de preto em cima do belo cavalo e não é porque tens esse longo cabelo, e não é porque tens esse olhos negros que espreitam abaixo da aba do teu chapéu e não é porque égua és e não é porque és cavalo e não é porque sou eu, arredondada na esquina do caminho, que escapamos à fome, à gula do tempo.

Hoje, passados anos, tantas luas já andaram e tantos sóis já giraram, tanta estrela se apagou, o grande vento soprou, águas de invernos passados, sopro de verãos desejados, aqui me encontro sentada nesta cadeirita baixa, atrás da minha banca recheada de peúgas de todas as cores e para todos os gostos. Estou velha e gorda. Já não tenho agilidade nenhuma. Apenas o meu olhar continua vivo, ardente e fixo. Reparo nas pessoas que se refugiam do calor debaixo dos toldos brancos das bancas dos feirantes, dos toldos que ondulam por via duma fraca brisa que flutua e finge frescura. Escalda e estoira o chão alcatroado, quase que derrete, o calor é tanto e tanto e eu, agachada na terra, escondida nas minhas roupas compridas e escuras, puxo o lenço preto mais para a frente, mais para a testa, restam-me os olhos; ninguém pára na minha banca, ninguém quer comprar nada e muito menos peúgas…

Mesmo em frente, do outro lado da rampa da rua por onde escorrem as bancas e os toldos, há um inesperado espaço e nesse espaço, abertura, hiato, não um cavalo nem uma égua mas uma carrinha branca e dentro do espaço de sombras dessa carrinha de portas laterais bem abertas, um escuro muito escuro porque a luz do Sol vai cegando e no escuro muito escuro, deitado nuns cobertores, acalorado, um homem, um outro homem sem cavalo, sem rasto de égua; um homem a dormitar. Do lado de fora, na rua, de frente para a boca aberta do escuro da carrinha, uma mulher escova o seu longo cabelo preto e branco e olha-se e torna a olhar-se e mais uma vez ainda, num espelhito pendurado no fecho duma das portas…

O tempo passou. Os animais já morreram. Nós ainda por cá andamos.

Cristina Carvalho

1 comentário:

  1. José Batista da Ascenção28 de setembro de 2011 às 16:19

    O tempo passa, passa...
    Eu, por exemplo, pergunto: de que cor há-de (há de?) ser a crina de uma égua branca?
    Afinal, a mulher trotava ou descansava? Ou fazia ambas as coisas?
    E também há a respiração poderosa "do cavalo que monta o homem vestido de preto"
    Feliz da mulher?
    Feliz do homem?
    Feliz do cavalo?
    Felizes todos? Alguns? Algum? Alguma?
    Ai o estilo, o estilo...
    Mas deixem, há-de (há de?) ser de mim, ou do tempo que passou por mim.

    E contudo o texto é bonito, sensível. Real?

    Cordialmente.

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