sexta-feira, 20 de maio de 2011

A SAGA DO VASA


Minha crónica saída hoje no "Sol":

Um visitante da lindíssima cidade de Estocolmo não pode deixar de visitar o Museu Vasa, um museu construído expressamente para albergar o Vasa, grande navio construído nos estaleiros da capital sueca e naufragado, muito perto do seu actual pouso, na viagem inaugural a 10 de Agosto de 1628.

O Vasa repousou nas águas frias do Báltico ao longo de 333 anos. Só no dia 24 de Abril de 1961, fez há pouco 50 anos, foi resgatado, após uma demorada manobra de elevação, que requereu a passagem de cabos de aço por seis túneis debaixo do casco, a cargo de mergulhadores escafandristas, e o posterior içamento, efectuado com o auxílio de um pontão. O interior estava incrivelmente bem preservado: os arqueólogos tinham à sua disposição uma cápsula do tempo, vinda directamente do século XVII, que, depois de árduo trabalho de investigação, legaram ao público. Os numerosos turistas que hoje demandam o museu ficam impressionados ao contemplar os canhões de bronze (alguns deles já tinham sido salvos no século XVII, graças a primitivos submarinos com a forma de sino) assim como os vários artefactos da vida a bordo. Não faltam sequer os restos da meia centena de membros da tripulação perecidos no naufrágio, que os antropólogos forenses estudaram ao pormenor, e que hoje são exibidos na planta inferior do museu.

A pergunta é imediata: porque naufragou essa espécie de Titanic seiscentista? O rei Gustavo Adolfo, que mandou construir o navio, mobilizando avultados recursos, ficou visivelmente irritado quando, em viagem pela Prússia, soube do infausto evento. O comandante foi aprisionado (não, parece que não estava bêbedo!) e longamente interrogado pelo Conselho do Reino. O mesmo aconteceu com todos os marinheiros sobreviventes e com o construtor. As culpas eram por uns endossadas a outros e por outros endossadas a uns. No final, ninguém foi responsabilizado. Em última análise, o próprio monarca era o responsável por ter ordenado a execução de um projecto tão grandioso e exigente (o navio de 69 metros de comprimento e 52 metros de altura pesava 1200 toneladas). Um dos tripulantes resumiu o sentir geral: Só Deus saberá!

Mas hoje, de posse de meios científicos e tecnológicos que na época da construção eram simplesmente impensáveis, a resposta é: design deficiente. Na época, não havia obviamente desenho por computador nem simulações de estabilidade baseadas na matemática e na física. Tal como as igrejas na Idade Média e mesmo depois disso, os pequenos e grandes navios faziam-se por tentativa e erro. Cada novo navio poderia ser um bocadinho diferente desde que fosse essencialmente igual aos outros que já tinham dado boas provas. Muitas foram as tentativas. Infelizmente para o reino da Suécia, o Vasa foi um dos erros.

5 comentários:

  1. Escrevi um livro em 2009 que veio a entrar para o Plano Nacional de Leitura baseado no navio Vasa. Chama-se esse livro "O Gato de Uppsala".

    Deixo aqui o site

    www.gatoduppsala.wordpress.com

    Cristina Carvalho

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  2. Agradável a crônica do Dr. Carlos Fiolhais, sempre é interessante informações e discussões do tema marítimo. E pela ocasião, também lancei um livro, em 2009 que descreve bem estes navios e a ação dos navegadores no sec. XV ao novo mundo, caracterizando o primeiro núcleo de europeus no sul do Brasil.

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  3. De muitos erros se fez
    a verdade que hoje temos:
    o que importa é qur avancemos
    um passo de cada vez!

    JCN

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  4. Em cada dia que passa
    aumenta o nosso saber,
    constituindo uma graça
    sabê-lo reconhecer!

    JCN

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  5. Visitei este fantastico museu em 2006 retive que este navio foi construido por mestres Holandeses. Se fosse construido por Portugueses hoje não existia museu porque o navio não teria naufragado.

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