sábado, 28 de maio de 2011

RAIOS E CORISCOS AMEAÇAM CURSOS UNIVERSITÁRIOS DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES

“Há um limite em que a tolerância deixa de ser uma virtude” (Edmund Burke, 1729-1797).

Longo anos porfiei na procura da letra de uma canção da minha meninice, que se me negava na neblina da lembrança, que vim a recuperar no livro Crónicas de António José Saraiva (”A lógica do macaco”, p. 648), em que um macaco tocando a viola, assim, cantava:

“Do meu rabo fiz navalha
Da navalha fiz camisa
Da camisa fiz farinha
Da farinha fiz menina
Da menina fiz viola
Trim tim tim que vou para Angola”.

Nela encontro semelhança com o ensino politécnico que de um diploma fez um bacharelato, de um bacharelato fez uma licenciatura, de uma licenciatura fez um mestrado com fortes desejos de atribuição de doutoramentos. Por este facto, e porque, como nos avisa o adágio, “não me apraz porta que a muitas chaves faz”, recordo que, para acalmar os ímpetos republicanos de figuras gradas da sociedade portuguesa de então, no estertor da monarquia foram distribuídos títulos nobiliárquicos a granel que deram azo ao jocoso dito: “Foge cão que te fazem barão! / Para onde se me fazem visconde?”. Parafraseando o dito, aplicando-o aos graus académicos, escrevi: “Foge gato que te dão bacharelato! / Para que lado se me fazem licenciado?” ("Diário de Coimbra", 26/07/2001).

Por este facto, chegou a altura de, uma vez por todas, estabelecer de forma cristalina e em águas de boa fonte legislativa, as diferenças funcionais entre o ensino politécnico e o ensino universitário não deixando ao deus-dará uma espécie de terra de ninguém que os oportunistas logo tomam como sua e para que, outrossim, a confusão gerada entre estes dois sistemas do ensino superior não se transforme em bónus que os políticos em vésperas de eleições distribuem na mira de o transformar em moeda de troca de votos venham eles donde vierem.

Repare o leitor que a própria denominação de escola superior de “educação” não pressupõe que elas se possam assumir como ministradoras de diplomas em Comunicação Social, Música na Comunidade, Gerontologia Social, Turismo, etc., como se tratassem de universidades com as suas diversas faculdades e/ou departamentos.

Mas voltemos aos cursos de ensino propriamente ditos. Quando ainda só corria o boato dos licenciados pelas escolas superiores de educação virem a leccionar no 3.º ciclo do ensino básico, foi a direcção do Sindicato Nacional dos Professores Licenciados (SNPL) recebida em audiência pela então secretária de Estado da Educação, Ana Benavente. Ao ser-lhe evocado por mim (na altura presidente da respectiva mesa da Assembleia Geral) que a Lei de Bases do Sistema Educativo contemplava, em rigorosa exclusividade, a atribuição da docência do 3.º ciclo do ensino básico e do ensino secundário a diplomas universitários, com ar agastado e sem se dar por achada do alto da autoridade de que estava investida, retorquiu: “Mas a lei muda-se de um dia para o outro!”

Ainda mesmo no ano de 1996, o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, no dossiê “Repensar o Ensino Superior”, defendia “a consolidação de um sistema dual, politécnico e universitário”, preconizando a necessidade de se proceder “rapidamente à análise das funções das Escolas Superiores de Educação”. Pressurosa, em defesa da sua dama, Ana Maria Bettencourt (então coordenadora da Escola Superior de Educação de Setúbal), hoje presidente do Conselho Nacional de Educação, contra atacava, com descabida virulência: “Em matéria de formação de professores, o pensamento dos reitores é pré-histórico”.

Mas, a procissão ainda ia no adro. Corria há dias em blogues de professores uma notícia dada à estampa ontem no "Público", subscrita por Clara Viana, intitulada “Ministério quer Escolas Superiores de Educação a formar docentes do secundário”. Devido à extensão da notícia (a página inteira do jornal), reproduzo, apenas, os três parágrafos iniciais que transmitem uma perspectiva geral do assunto. Assim:

“A formação inicial dos professores do ensino secundário poderá vir a ser também atribuída às Escolas Superiores de Educação do ensino politécnico, que actualmente apenas têm competências para formar educadores de infância e docentes dos 1.º e 2.º ciclos. Esta possibilidade é defendida pela Direcção-Geral dos Recursos Humanos do Ministério da Educação (DGRHE). Mas conta com a oposição declarada da Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES). Para algumas associações de professores, constitui um novo ataque à qualidade de formação inicial dos docentes.

Mais de metade dos 492 cursos de formação de professores e de ciências da educação existentes são ministrados em faculdades. O presidente da A3ES, Alberto Amaral, já pediu a intervenção dos respectivos ministros com vista ao esclarecimento da questão, o que ainda não aconteceu.

Segundo a agência, a Lei de Bases do Sistema Educativo é clara a este respeito, ao estipular que ‘a formação de professores do ensino secundário realiza-se em estabelecimentos do ensino universitário’. A subdirectora-geral dos Recursos Humanos da Educação, Helena Mascarenhas, não concorda e fez chegar ao presidente da A3ES uma comunicação onde defende que aquele artigo ‘não pode ser interpretado isoladamente’ já que, na mesma lei, existem outras disposições que apenas colocam como condição que a formação seja feita através de licenciatura e que este grau passou também, desde 1997, a ser conferido pelo ensino politécnico”.

De forma que se viria a tornar premonitória, escrevi há muitos anos atrás: " Pelo andar da carruagem, os licenciados universitários com destino à docência, de escalada em escalada, serão uma raça em extinção numa selva de predadores em que imperará a lei do mais forte; projectado num futuro não muito distante, espécime de museu antropológico (extinta revista “Sábado”, Nov./89).

Chovem novamente raios e coriscos sobre a formação dos professores com a própria Edviges Ferreira, da Associação de Professores de Português a não se opor quando lembra que as ESE também fazem parte do ensino superior: "Não há um ensino de primeira e outro de segunda ("Público", 27/05/2011). Se outros motivos não houvesse, como simples atitude de cidadania, porque “o Homem quando perde a sua capacidade de indignação perde a própria razão de ser” (Miguel Torga), a sociedade portuguesa deve constituir-se como pára-raios para que não surjam uma espécie de novas oportunidades para a formação de professores do ensino num grau de grande exigência, o ensino secundário, que não pode ser substituída, de forma alguma, por um sólido e perigoso suporte da arte de bem ensinar com belíssimas teorias pedagógicas crassas ignorâncias científicas, incrustadas como lapas no rochedo da antecâmara do ensino universitário.

Voltarei, brevemente, ao assunto pois é o futuro dos nossos jovens do ensino secundário que está em risco e, com ele, a Universidade Portuguesa que corre o risco de ver fechar grande parte da meia centena dos seus cursos, alguns deles já com escassa frequência de alunos, pelo desvirtuamento inicial da função das escolas superiores de educação: a formação de educadores de infância e docentes do 1.º ciclo do ensino básico.

11 comentários:

  1. José Batista da Ascenção28 de maio de 2011 às 13:10

    Pelo caminho que as coisas levam, um dia destes, todas as organizações que se multiplicaram e floresceram na área da educação e "similares" (!?) passarão a diplomar professores (de todos os níveis de ensino), habilitando-os com os graus académicos necessários: licenciaturas, mestrados, doutoramentos, "atribuição de cátedras" e tudo o mais que imaginar se possa, com excepção das... universidades.
    E as universidades pachorrentamente calmas...
    E os jovens a "acampar" em lugares inusitados, indiferentes (?) a coisas como estas...
    E os que produzem teorias educativas, muito ocupados...
    Para onde caminhas, meu país. Para onde?

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  2. Para se ser professor
    a primeira condição
    é ter perteita noção
    do que seja o pundonor!

    JCN

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  3. Concordo com o seu ponto de vista. Lembro o caso de uma colega de escola, no secundário, que se decidiu por seguir para uma ESE para o curso de Matemática e Ciências Naturais. Passou um ano e cansou-se, não da árdua tarefa do curso, mas da simplicidade e superficialidade do tratamento de temas. Mudou-se para o curso de Matemática e seguiu ensino. Terminou e sente-se realizada. Pôde comparar os dois sistemas e concluir que o conhecimento científico adquirido difere, e muito.
    Talvez esta "gente" da DGRHE seja oriunda de ESE e por isso mesmo se verifique um declive negativo na dificuldade, e grau de exigência, dos testes intermédios e exames nacionais. Quantos "educadores" estarão já infiltrados no GAVE? Quantas mentes terão já sofrido uma infecção pseudo-pedagógica e peuso-psicológica?

    Acredito que educadores e professores devam ter a capacidade de transmitir o seu conhecimento, no entanto, sou um defensor que não podemos ter um conhecimento limitado ao exigido nos programas, isto é, o nosso conhecimento não deve ter como limite, o que se pretende do programa. O que aconteceria aos alunos que pretendem olhar mais além se não tiverem quem lhes mostre e ilumine o caminho.

    Acredito no premiar o mérito e reforçar o desejo pelo conhecimento. Andar sempre a empurrar os que ficam para trás não nos leva mais longe, atrasa-nos.

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  4. É mais uma vitória do lobby das "ciências" da educação...

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  5. A formação actual de professores já é tão superficial, mesmo nas universidades, quanto mais nas ESE's ! Como é possível formar professores em tão poucos anos?

    Ivone Melo

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  6. Quem pretende doutrinar
    em querstões de magistério
    deve primeiro provar
    que possui carácter sério!

    JCN

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  7. Ser sério é, numa questão,
    não retirar ao contrário
    o seu direito primário
    de legítima expressão!

    JCN

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  8. Caro José Batista da Ascenção: À sua dupla indagação "para onde caminhas, meu país. Para onde?", só lhe posso responder, em boa consciência, que muito me admira (ou desgosta mesmo!) a quase apatia de toda uma classe docente perante o verdadeiro crime que se perspectiva para a futura formação de docentes para o ensino secundário. E, concomitantemente, para o desprestígio da instituição universitária oficial portuguesa.

    Será que, com raras excepções, os professores só se preocupam com questões de natureza laboral? Uns euros a mais ou a menos nos vencimentos, por exemplo? Nanja que tenha esta questão de somenos importância, mas, por outro lado, também considero que “nem só do pão vive o homem”. Ou deve viver!

    Todavia, comentários como os seus e de outros Colegas sobre temáticas como esta dão-me a esperança que os docentes do ensino secundário ainda se não encontram em estado comatoso. Apenas, adormecidos!

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  9. Prezado Botelho: Do seu comentário retenho a parte final, que reproduzo: “Acredito no premiar o mérito e reforçar o desejo pelo conhecimento. Andar sempre a empurrar os que ficam para trás não nos leva mais longe, atrasa-nos”.

    Também eu entendo que só num falso porreirismo que nos leva a ser complacentes para com a mediocridade se pode encontrar uma explicação para o facto de haver uma carreira docente única que não encontra paralelo em nenhum outro país do (dito) mundo civilizado.

    O caso da Colega por si mencionado, que resolveu tirar um curso universitário por não se contentar com um diploma das escolas superiores de educação para a docência do 2.º ciclo do básico, é paradigmático que nem todos pactuam com o facilitismo, ou a complacência em igualar desiguais ou mesmo oportunismo que subjaz a estas situações.

    Aliás, são situações como estas que fazem com que atrasemos um ensino de qualidade a que iguais direitos devem corresponder idênticos deveres. O lema que vigora é este: “Os direitos para mim, os deveres para os outros”. Pior do que isso, nem sequer prevejo vontade política para frear todos os disparates que se têm cometido nos últimos decénios. Pelo contrário, de quando em vez, são as próprias tutelas políticas da Educação que dão o seu empurrão…

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  10. Caro Fartinho da Silva: Cá estamos nós, se me permite a companhia, uma vez mais, do mesmo lado da barricada. Uma barricada que não nos traz a glória fátua de estarmos ao lado da maioria que tudo faz em prol da mediocridade do ensino, mas com a consciência de um dever cumprido de quem não luta por os interesses meramente pessoais.

    Li em tempos um pensamento, julgo que do brasileiro Rui Barbosa, e se a memória me não falha também, que dizia mais ou menos isto: Não julgues que com o teu exemplo endireitas o mundo, mas serás um canalha a menos nesse mundo.

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  11. Prezada Ivone Melo: Obrigado pelo seu comentário. Como diz, o próprio ensino universitário com a proliferação de cursos tem-se degradado como, aliás, o reconhece Maria Filomena Mónica: "Devido à irresponsabilidade dos governos, ao populismo dos parlamentares e à cobardia dos docentes, a universidade degradou-se para além do razoável".

    Mas eu julgo, tenho mesmo a certeza, que para esta enxurrada de descrédito muito tem contribuído um ensino universitário privado que passa diplomas com quem atribui o cartão de cidadão a quem pague um x pela sua obtenção.

    Quanto à duração dos cursos nem sempre a ela deve ser atribuída a causa do regabofe em que se tornou o ensino. As antigas escolas do Magistério Primário diplomaram professores com bastante mérito e a quem o país ficou a dever que os jovens discentes saíssem com o diploma da antiga 4.ª classe sabendo ler, escrever e contar como hoje no fim do 3.º ciclo do básico, na maioria dos casos, nem por sombras estão capacitados com professores das escolas superiores de educação licenciados e, como se isso não bastasse, com diplomas de mestrado por pressões dessas escolas e a água benta sindical. Sinais de um tempo em que mais vale parecer competente do que sê-lo propriamente!

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