segunda-feira, 30 de maio de 2011

100 ANOS DE SUPERCONDUCTIVIDADE (1)



Crónica semanal publicada no "Diário de Coimbra".

O caminho da descoberta científica não é uma auto-estrada.

Numa auto-estrada, o percurso está bem definido, os pontos de partida e de chegada estão bem determinados, há postos de abastecimento de tantos em tantos quilómetros para refrescar o cansaço, para retemperar a persistência.

A História do avanço do conhecimento mostra que o caminho da descoberta está muitas vezes pouco definido à partida. O descobridor pode ter uma ideia detalhada do que quer alcançar, pode ter um método (científico) para avançar, possuir hipóteses que propulsionam a caminhada, ter um plano para executar a sua actividade de descobridor. Mas é inúmeras vezes surpreendido pela alteração de rumo, por becos sem saída, pelo verificar que no fim não encontra nada de novo, nada que seja diferente do seu ponto de partida.

O descobridor tem como ponto de partida o conhecimento acumulado pelos descobridores que o antecederam, mas algumas vezes a sua caminhada obriga-o a reequacionar também os pontos de partida, obriga-o muitas vezes a recomeçar, por vezes mesmo de outros pontos de partida.

Muitas vezes a maior descoberta surge quase que por acaso ao longo da caminhada, embrulhada em espanto, encostada ou escondida sob o objectivo traçado, algo que não se estava de todo à espera.

Mas, para a descoberta de conhecimento novo por aparente seripendidade, fruto de um acaso não esforçado, é preciso que o descobridor esteja muito bem preparado. É preciso que saiba detectar criticamente a descoberta em que tropeça, que a saiba enquadrar na matriz do conhecimento acumulado e considerado correcto pela comunidade. Perante o acaso, a mais-valia do descoberto só se desenvolve se existir observação crítica e conhecimento sólido das bases do saber herdado.

Na história do avanço do conhecimento científico existem inúmeros exemplos de grandes descobertas fruto de aparente acaso, encontradas na esquina da experimentação.

O caso da supercondutividade, uma das descobertas mais importantes da Física do século XX, é um desses exemplos.

A superconductividade é uma propriedade que alguns metais e outros materiais apresentam de não “oferecerem” qualquer resistência à passagem de corrente eléctrica abaixo de uma determinada temperatura dita crítica. A condução de corrente eléctrica ocorre sem quaisquer perdas, o que faz com que a utilização destes materiais possa ter importantes e interessantes aplicações tecnológicas, com grande impacto sobre o nosso dia-a-dia.

Este ano comemora-se não só o centenário da descoberta da supercondutividade no mercúrio, em 1911, por H. K. Onnes (prémio Nobel da Física de 1913), como também os 25 anos da descoberta por J. Georg Bednorz e K. Alex Müller (prémios Nobel da Física em 1987) da supercondutividade a altas temperaturas em determinados materiais oxidados.

Estas efemérides são assim o mote de partida para a crónica da próxima semana onde relatarei o contexto das duas descobertas e alguns marcos importantes (como a teoria BCS enunciada em 1957) de 100 anos de superconductividade.

Num apelo à curiosidade, adianto, como exemplo, que bobinas feitas com materiais supercondutores permitem hoje o uso da imagiologia por ressonância magnética em diversas aplicações médicas.

(Continua)

António Piedade

2 comentários:

  1. os supercondutores tamém levaram a guerras e guerrilhas várias

    há muitas efemérides algumas começam com Hg

    outras com W

    o conhecimento acumulado não é sinónimo de progresso

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  2. Muito bela crônica, em que compreendemos a dimensão e importância da supercondutividade. E, agradeço António Piedade por aprender uma palavra que desconhecia “seripendidade”.

    Do caminho
    Na descoberta o conhecimento, e por este, a divina inquietação.

    Do sublime
    Do que é sublime estar em Deus, na divina inquietação.

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