
“A visão convencional serve para nos proteger da dolorosa tarefa de pensar” (John Kenneth Galbraith, 1908-2006).
Anos atrás, no Diário de Coimbra (10/08/2005), Celestino Quaresma, presidente do Conselho Directivo da Delegação Regional de Coimbra da Ordem dos Engenheiros, chamava a atenção para o facto dos candidatos aos cursos de engenharia estarem dispensados da disciplina de Física do ensino secundário.
Julgo poder ser apontada como uma das causas desta insólita situação o facto de esta ser uma das disciplinas que mais reprovações promovem nos exames nacionais do secundário levando os cábulas a fugirem dela como o diabo da cruz. É sabido, por outro lado, que a oferta dos inúmeros cursos superiores de engenharia, quer universitários, quer politécnicos - sempre que há dificuldade em nomear um curso esquisito, na tentativa de lhe dar um ar respeitável, dá-se-lhe o nome de engenharia disto, daquilo e daqueloutro – excede, por vezes, a sua procura. Assim, havia que criar condições para que a clientela não escasseasse ainda mais.
Num sistema educativo, abrindo brechas por todos os lados por falta dos alicerces de uma boa “instrução primária” e sólidas paredes dos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico, e em que o ensino secundário tem sido o único pilar de sustentação, em certos casos, o acesso ao ensino superior, mormente em estudos humanísticos, tornou-se numa espécie de fantochada em que a dificuldade foi superada pelas «Novas Oportunidades» e «Provas de Acesso ao Ensino Superior para Maiores de 23 Anos».
Antes de todo este processo de facilitismo em atribuir, de mão beijada, diplomas do 9.º e 12.º anos e de licenciaturas (geradas pelo «Processo de Bolonha», que diminuiu a duração das licenciaturas fazendo com que os jovens continuem a estudar para além delas na procura de um lugar ao sol ou para iludir o verdadeiro flagelo social do desemprego), publiquei um longo artigo, intitulado, «Exame de Aptidão à Universidade, por que não?», em que deixei escrito:
“Em idos tempos, houve o exame de aptidão em que, por exemplo, a admissão ou exclusão do aluno que desejasse ir para o curso de medicina ficava a exclusivo encargo das respectivas faculdades e das exigências por si havidas como necessárias. Hoje, um aluno que - em primeira escolha e por declarada vocação, mas sem as elevadíssimas classificações que roubam ao estudante do ensino secundário os prazeres de uma juventude vivida em plenitude - queira ingressar em medicina (por vezes, apenas, por uma décima de valor), encontra como solução de recurso matricular-se em outro curso universitário, ou mesmo de ensino politécnico, no âmbito da saúde. E quando nem isso consegue, acede, numa espécie de roleta de azar, a cursos de segunda, terceira ou mais escolhas em matérias para que não está minimamente vocacionado e muito menos conhecedor da desilusão do exercício profissional que o espera!
Por isso, defendo que deve competir à Universidade estabelecer o perfil do aluno que reúne condições para a sua frequência sem estar dependente, unicamente, da classificação do diploma do ensino secundário e respectivos exames nacionais que, não raras vezes, pouco dizem a verdade ou espelham a realidade. Mesmo correndo o risco de me repetir, quantas vezes um aluno merecedor de maior classificação que um outro, mas porque em situação diversa de avaliação, por diferente ser o critério da escola que frequentou ou as condições de maior ou menor exigência em que é avaliado, não sai prejudicado?
Será o regresso do Exame de Aptidão à Universidade (ainda que adaptado aos tempos que correm) uma solução óptima? Com o aval da sabedoria popular, ‘o óptimo é inimigo do bom’. Contentemo-nos, portanto, com o bom ou até o menos mau. O que já não é nada mau, convenhamos!” (Público, 05/09/2005).
Precisamente duas semanas depois, foi publicado o testemunho de António Sousa Pereira, presidente do «Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar», da Universidade do Porto, em que é dito, entre outras coisas que “o facto de não haver falta de candidatos para o curso não significa que o método de seriação seja justo.” Confrontado com a qualidade dos alunos que entram no curso, esclarece que “nem todos correspondem ao padrão que esperamos, dadas as provas que prestaram [no ensino secundário] para entrar, e apresentam taxas elevadíssimas de insucesso. E se, alguns encontram o seu caminho, outros não, o que deixa a sensação que outros mais vocacionados terão ficado de fora” (Diário de Notícias, 19/o9/2005).
Por se tratar de um problema equacionado mas não resolvido, saiu a público, há escassos dias, uma entrevista de Manuel Sobrinho Simões, professor catedrático da Faculdade de Medicina do Porto e cientista de renome internacional, com o sugestivo título, de que me apropriei para este post, «Sistema de acesso a medicina é estúpido» (Expresso, 24/12/2009).
Na entrevista o sistema de acesso a medicina português é tido como o pior de todos, porque ao “ter em consideração apenas o secundário é um falso sistema justo”. Como uma das possíveis medidas para alterar esta situação “defende há muito que deviam ser as faculdades a elaborar as provas de admissão, tal como acontece, por exemplo, na Universidade de Jefferson, nos Estados Unidos, onde dá aulas”. E acrescenta: “Ali são as próprias universidades a terem interesse em seleccionar os bons alunos, até porque depois há exames nacionais e isso vai ser importante para o prestígio de cada universidade”.
A finalizar, inevitável, surge a pergunta: “Se há muita gente a contestar o actual sistema de acesso, porque é que a situação não muda?” Como que espelhando o imobilismo nacional que parece “sentir-se bem entre o já pensado”, como diria o filósofo contemporâneo Jean-François Lyotard, a resposta não se fez esperar: “Não muda, entre outras coisas, porque são os próprios pais e os alunos a terem medo da introdução de algo que altere o ‘status’ vigente”.
Julgo que o “status” vigente reside, em parte, na procura de escolas do ensino secundário que inflacionam as notas das disciplinas destinadas à entrada em medicina para mascarar uma possível deficiência de cultura filosófica e de leitura de escritores portugueses de renome que ajudem a não maltratar a língua materna. Isto, sem esquecer as explicações pagas a peso de ouro em que conta mais as carteiras dos pais do que a massa cinzenta dos filhos que “marram” dia e noite o que vem nos compêndios e nas fotocópias ficando, desta forma, sem muito tempo disponível para a cada vez mais necessária aprendizagem do idioma de Shakespeare e nenhum tempo para uma prática desportiva que lhes vivifique o cérebro de oxigénio. Em legado de Abel Salazar, “um médico que só sabe de medicina nem de medicina sabe”.
Na imagem: o médico e artista Abel Salazar.