Facts about the FCT/ESF science evaluation: the story so far

segunda-feira, 30 de Abril de 2007

ENTREVISTA A GUILHERME VALENTE


Entrevista inédita com o editor da Gradiva


Trabalhou em grandes editoras antes de criar a sua própria editora...

Passei por essas editoras em momentos muito diferentes da minha vida, da vida cultural, social e política do país. Na Europa-América e na Dom Quixote a questão social e política era um imperativo, um imperativo intelectual e moral. Uma preocupação sempre presente nos livros que queríamos editar. Formei-me na edição com um grande editor, o Francisco Lyon de Castro, uma recordação que guardo com muita saudade.

Quando foi isso?

Foi na década de 60. Também a Dom Quixote, posteriormente, com o Carlos Araújo -- outra figura da edição portuguesa cujo convívio foi também marcante para mim -- teve um papel importante no esclarecimento de muitos cidadãos, até aí afastados da política, para uma tomada de consciência crítica da situação que se vivia (em Portugal e no mundo, note-se). Para a Presença fui já com um conhecimento técnico mais elaborado e abrangente da actividade editorial. Foi outra experiência muito interessante, uma interacção muito enriquecedora com o Francisco Espadinha, um outro grande editor, com uma grande cultura, com uma visão global muito lúcida da actividade de edição, como o futuro viria a provar e hoje é evidente.

A sua formação tinha sido em Filosofia, não foi?

A minha formação fez-se com o interesse pelos livros, a filosofia, a literatura, o conhecimento; com a banda desenhada e os livros de aventuras que o meu pai me lia à noite quando eu ainda não sabia ler e desejava tanto poder lê-los. Com os seus ideais e o seu exemplo, que me foram transmitidos expressivamente por amigos dele que muito me ajudaram. É isto que um ensino público pré-primário universal tem de proporcionar também às crianças pobres. É assim que se promoverá, de facto, a igualdade de oportunidades, não nivelando por baixo e cretinizando todos, como vem acontecendo no básico e secundário, que é onde são «lançadas as sementes», com dizia há dias na RTP2 João lobo Antunes. Passei a minha vida desde jovem envolvido em movimentos culturais, desde o liceu, em Leiria, com gente notável da minha terra, à volta, designadamente, de um suplemento cultural, o “Pinhal Novo”, que terá marcado uma época na vida cultural e política da cidade.

Depois foi o trabalho nas editoras e o encontro, o trabalho e o convívio intelectual e humano inesquecíveis, na Universidade, com um homem e um professor admirável, A. Sedas Nunes.

Licenciei-me em Filosofia e fiz uma pós-graduação em relações interculturais. Da preocupação com o país que caracterizou a juventude da minha geração, da obsessão muito antiga em compreender as causas do nosso atraso e dependência endémicos, resultou a consciência da necessidade de promover a cultura científica, o que viria a determinar o a criação da Gradiva e a marcar o seu projecto editorial.

Sente-se parte da geração de editores formada por Lyon de Castro e por Espadinha?

Quando fui para a Europa-América era um jovem e o Francisco Lyon de Castro já era um grande senhor. Comecei cedo a ter responsabilidades na edição. Acho que, de certa forma, atravessei gerações de editores.

Que diferenças há entre as gerações de editores?

Antes do 25 de Abril, a questão política era, como já referi, um imperativo para os grandes editores com quem trabalhei. Depois do 25 de Abril, -- foi essa e é essa uma das virtudes da liberdade -- pôde emergir e manifestar-se a diversidade dos interesses, facto que iria reflectir-se na variedade da edição. Para mim chegara o tempo de tentar travar o combate pela cultura científica, de procurar participar no combate pelo conhecimento, pela educação.

Houve amigos que me diziam que não teria sucesso com os livros de divulgação científica, por a cultura portuguesa parecer ter, digamos, «horror à ciência», mas precisamente por isso era necessário publicá-los. E foi um êxito. A Gradiva fez aquilo a que os especialistas chamam «oferta criativa»: criar um público para os nossos livros. O que fizemos na realidade foi revelá-lo. Contei com a ajuda entusiasta de um pequeno grupo de amigos admiráveis, a que se foram juntando novos amigos de novas gerações, mantendo o ideal aceso. O mesmo diagnóstico sobre a realidade portuguesa, os mesmos grandes valores, as mesmas preocupações aproximaram-nos. Cito três da primeira hora que são exemplos: Carlos Fiolhais, José Mariano Gago, Jorge Dias de Deus.

O livro não é então um produto?

Conheci, de facto, quadros de editoras que me pareceram ver o livro como um «produto». Não sei onde trabalham hoje...

Há nos editores a este respeito um abismo geracional?

Acho que há modas, entusiasmos e receios.

Há dias um colega e amigo, o António Lobato de Faria, disse algo com que não estou de acordo e talvez venha a propósito da questão que coloca. Para ele, cito de memória, não faz sentido a existência de editoras de “vão de escada”. Não subscrevo, de modo nenhum, esta ideia, que me choca. As editoras de "vão de escada” fazem muita falta, desempenham um papel essencial. Não me importaria de pertencer a uma associação de protecção das editoras de “vão de escada”. Manifestação da paixão pelos livros, foram e são, frequentemente, fontes de criatividade e diversidade editorial. São fundamentais na sociedade plural para cujo desenvolvimento quero trabalhar.

Do mesmo modo, também não estou certo de que ele tenha razão quando afirma ser a concentração empresarial inevitável. E não é, seguramente, desejável. Estou de acordo, claro, quando diz que as editoras são empresas, que têm de ser bem dirigidas....

Que diferença faz a Gradiva?

Permita-se-me pensar que a Gradiva, também a Gradiva, tem a sua identidade própria. Continua a ser, deliberadamente, uma editora de média dimensão, por isso as personalidades do editor, para o bem e para o mal, dos seus quadros e principais colaboradores são marcantes. Na Gradiva toda a gente, toda, tem consciência do que temos feito e sabe o que vamos fazer. Acho, sinceramente, que, tal como outras editoras, temos um estilo próprio, que o público identifica e, francamente, tem apreciado. Uma diferença, que julgo ser cada vez mais notória, é não editarmos apenas ficção, que é o que vejo, sobretudo, a encher as livrarias.

O nosso grande objectivo, o que desejamos, é contribuir para a promoção do conhecimento e do espírito crítico e isso passa pela leitura de bons livros de todos os géneros e realiza-se significativamente, na minha opinião, no relevo que temos dado à cultura científica. A ciência e a democracia, cultivadas frequentemente pelos mesmos grandes homens, e o desenvolvimento emergiram e cresceram juntos, com o livro e a liberdade.

Conte-nos como criou a Gradiva...

O projecto editorial foi meu, mas resultou do convívio e do debate de ideias com muitas pessoas, da suposição de que uma editora como a que pensávamos seria necessária. O próprio Prof. Sedas Nunes, que tentara, em várias ocasiões, levar-me para a Universidade, encorajou o projecto da Gradiva. Como me dizia -- permitam-me que recorde essas suas palavras ditadas pela amizade, claro -- era mais necessário um bom editor do que mais um bom professor.

Lembro-me que, na altura, o Francisco Espadinha, com amiga preocupação, me advertiu ser muito difícil fazer uma editora sem sólidos recursos financeiros. Mas conseguimos. Fizemos a Gradiva sem um tostão, vivemos sempre com o dinheiro que ganhámos e continuamos a ser hoje absolutamente auto-suficientes. Mais uma prova de que as editoras de “vão de escada” não são casos condenados à partida, que a liberdade é uma fonte de imprevisível novidade.

Como assegura a qualidade das obras que publica?

O especialista de qualquer especialidade não é, enquanto tal, claro, um editor. O editor é alguém que, independentemente da sua própria especialização e dos eventuais interesses académicos que possua, deve ter uma formação intelectual e cultural que lhe permita dialogar com as várias especialidades. Tem de ser capaz de avaliar as necessidades culturais da sociedade em que vive e para a qual trabalha, de avaliar e descodificar os pareceres do grupo de consultores em que se apoia. A Gradiva beneficia, a Gradiva foi e é, como já referi, o resultado da ajuda, do convívio e da interacção intelectual inestimável de um grupo notável de amigos, igualmente fascinados pela edição: Mais exemplos: Nuno Crato, Jorge Buescu, Paulo Crawford, Desidério Murcho, A. Manuel Baptista, Paulo Gama Mota, Jorge Lima, vários outros e, claro, a fantástico equipa permamente da Gradiva, dos serviços editoriais aos fantásticos serviços comerciais que temos. Mas, como se compreende, devem ser minhas as decisões, são, de facto, meus os erros.

O desafio para nós é editar bons livros em todas as áreas, mas livros que tenham ou possam fazer leitores. Um livro que se publica mas não tem leitores não é apenas um prejuízo económico, é também uma má escolha cultural, um erro de prioridade. Também no trabalho de um editor como nós se deve, talvez, adoptar o critério da «igualdade na consideração de interesses», tão bem apresentado na obra de Singer, Ética Prática, que editámos.

Deve ser difícil a um editor ter uma grande obra e não a publicar porque não se vai vender...

Certamente. Vamos, é claro, avaliando em cada momento as disponibilidades que temos. Os recursos são sempre limitados e é necessário geri-los tendo em conta não só a continuidade dos projectos, mas também as responsabilidades laborais, sociais, da empresa e do empresário. Sinto fortemente essas responsabilidades e honrá-las e valorizá-las é para mim muito gratificante. Realiza-me igualmente. Ao contrário do que acontece na gestão do Estado – mas não devia acontecer, claro -- na gestão privada os erros doem e pagam-se. Não entendo como podemos tolerar que desempenhem funções governamentais, «gerirem» desperdiçando a riqueza que todos nós produzimos, esta gente sem competência, sem experiência de trabalho e liderança onde a vida é a sério, que inunda todos os governos que temos tido. Não admira que aconteça o que acontece.

Os grandes editores estrangeiros disseram-me sempre ser este o negócio mais difícil do mundo. Há quem diga que editar é um palpite, mas não é assim, evidentemente. Talvez seja um palpite informado por um complexo de factores. Também por isso é uma actividade particularmente lúdica e tão fascinante. Na realidade muito depende de nós. Por isso nunca me preocupei muito com aquele receio da entrada de editoras estrangeiras em Portugal. Sinceramente, se fosse mais novo e não tivesse esta vontade de meter noutras coisas, levaria mesmo a Gradiva para Espanha...

Os grupos estrangeiros estão aí, mas não são totalmente portuguesas -- a Presença, entre as de grande dimensão, por exemplo, e a Gradiva (perdoem-me a vaidade, é um dos meus defeitos, e o juízo em causa própria...), entre as empresas de média dimensão -- as editoras mais interessantes e sólidas?

Costuma dizer-se que um autor marcou uma geração. Acho poder dizer-se com maior propriedade que os editores podem marcar gerações. A Europa-América, a Portugália e a Livros do Brasil, marcaram a minha geração, várias gerações. George Steiner dizia que o editor é como um professor, um professor que chega a mais gente!

É isso que tem acontecido com a sua editora?

A Gradiva que, como já disse, não se confunde comigo. Há pouco tempo um jovem cientista português, Ivo de Sousa, recebeu um prémio nos EUA e o "Público", a Teresa Firmino, suponho, perguntou-lhe porque tinha ido para Física. Respondeu que tinha sido por causa dos livros de ciência da Gradiva. Quando contactámos o João Magueijo, autor de Mais Rápido que a Luz perguntámos-lhe se conhecia a Gradiva e ele respondeu «Se conheço a Gradiva? Cresci com a Gradiva!”. E poderia citar recorrentes testemunhos. Houve uma época em que me diziam serem os alunos de Física do Técnico designados por «geração Gradiva». Tudo isto é evidentemente muito gratificante para todos nós, sobretudo para mim que estou a envelhecer... Quando um editor consegue publicar um livro que faz leitores é um sentimento de realização indescritível! Sucedeu isso agora no género em que mais desejávamos que isso acontecesse, um livro para crianças: os livros do Capitão Cuecas põem os miúdos (7-10 anos) irresistível e comprovadamente a ler. Em todo o mundo. E os míudos que lêem não têm problemas na escola, nem mesmo na desmotivadora, triste, escola que continuamos a ter.

Um livro científico pode ser considerado uma obra de literatura?

O Harold Bloom e, mais recentemente, o Ian McEwan (num artigo que o Expresso traduziu) afirmaram que a grande literatura aparece hoje sobretudo em livros que não se apresentam especificamente como literários, particularmente nas obras de cultura científica, e referiram vários nomes quase todos, aliás, editados pela Gradiva.

Como tenho vindo a dizer, na obra de João Lobo Antunes estão talvez as mais belas páginas de expressão literária dos nossos dias. Poderia citar no mesmo registo António Damásio, e também Jorge Buescu, os nomes que agora me ocorrem, e, claro, o Carlos Fiolhais, com a sua força comunicadora e sensibilidade, e o Nuno Crato, que cultiva um português que já pouca gente escreve, textos que deviam ser lidos nas nossas escolas.

Que opinião tem do Plano Nacional de Leitura?

Muito boa. E à partida estava muito céptico. Só o facto, posterior, de saber que seria dirigido por uma pessoa com a experiência, a isenção, a seriedade da Dra. Isabel Alçada me fez esperar para ver. É que estava habituado à inutilidade das acções do Estado no âmbito da promoção do livro e da leitura. O Plano traz uma novidade que enfrenta uma das fixações mas ignorantes e bloqueadoras na cultura portuguesa: a redução do livro à obra literária. Não fazendo essa confusão, o Plano vai ser uma revolução na actividade das bibliotecas escolares e no próprio sistema de ensino. E os resultados virão, se entretanto a nomenclatura dos «especialistas» do Ministério não despedir a Dra. Isabel Alçada.

Então não se tem de começar com a literatura?

A escrita é, talvez, a mais extraodinária invenção humana, como escreveu Carl Sagan, e o livro (que o computador não substituiu, é um instrumento único na transmissão do conhecimento, de todo o conhecimento). Além disto, há muita gente que começa a ler e se apaixona pela leitura com obras não especificamente literárias. Eu, por exemplo, comecei a ler com livros de banda desenhada. O meu filho começou a ler, cedíssimo, com livros sobre bichos. Hoje é um cientista e leitor da grande literatura. Ler é um exercício muito difícil! Quando se inicia a aprendizagem da leitura, para fazer esse exercício, resistir à preguiça e insistir, é necessária uma forte motivação. Obrigar as crianças a ler os livros que os adultos apreciam sobre os temas que a estes interessam é o que leva muitos miúdos a afastarem-se da leitura. É preciso descobrir livros que os miúdos queiram ler.

Identifica-se com a posição de Nuno Crato sobre a educação nacional?

Não me identifico, partilhamos as mesmas ideias, somos companheiros no mesmo combate. Defendo desde há muito, como ele defende, por exemplo, um regime intensivo de exames, recurso indispensável para mudar o sistema educativo (responsabilizar os estudantes, pais, professores direcção das escolas, ministério). Mas não foi por defendermos, de um modo geral, as mesmas ideias que publiquei os livros de Nuno Crato. Editamos as obras que veiculam ideias que entendo ser relevante conhecer e discutir, sem que tenha, evidentemente, de me identificar com elas.

Como é que explica o sucesso do livro sobre o “eduquês”?

Eu e o Nuno Crato falámos para milhares de professores durante os últimos anos. Os professores começaram a perceber o logro de que têm sido vítimas. Não só os professores, também os alunos mais esclarecidos e responsáveis.

Que logro é esse?

O logro do facilitismo, de se considerar, hipocritamente, aliás, que as desigualdades diminuem com o nivelamento por baixo, da falta de exigência, a ideia de que a escola é uma brincadeira, e não um esforço pelo qual tem que se passar para se poder progredir pessoal e socialmente. O logro do conjunto de teorias que temos designado pelo termo «eduquês», que, agora, toda a gente percebe o que é e considero estarem hoje, com a actual ministra (melhor, com o actual ministério, porque a ministra me parece não perceber muito bem o que anda a fazer) -- mais à solta do que nunca.

O problema é do ministério ou é antes dos ministros?

Há o secretário de estado e esta nomenclatura que domina o ministério e continua a impor-se aos ministros. Uma espécie de União Nacional dos «especialistas» a lutarem para manter o poder e o emprego. Apesar da aparência que está a iludir muito boa gente, a actual ministra identifica-se com eles ou, ignorantemente, serve-os, como transparece mesmo de afirmações que vai fazendo. Parecendo que está a mexer em tudo, não tocou em nada do que era essencial ser alterado: a ideologia que sufoca a escola, frusta o trabalho dos professores, corrói e inviabiliza o país.

Há uma identificação ou subordinação da ministra à nomenclatura como nunca se verificou antes. Marçal Grilo, Oliveira Martins e Júlio Pedrosa, este na sua passagem muito breve pelo ministério, não varreram o "eduquês", mas a sua estatura intelectual e académica, experiência profissional, espírito crítico e sensatez permitiram-lhes travar as manifestações mais delirantes da praga.

Tem então uma visão céptica do futuro da educação...

Vai ter de mudar e eu esperava que isso acontecesse com José Sócrates. Não é possível adiar mais e ele percebe seguramente onde está a essência do problema.... Os próximos resultados vão ser piores e José Sócrates sabe que não há desenvolvimento nem diminuição das desigualdades sem outra escola, um ensino que desafie alunos e professores, que qualifique e forme, que leve todos tão longe quanto possível.

E que eco enontra nos alunos e nos professores?

Estive em Leiria com o Nuno Crato e o Carlos Fiolhais, que também está envolvido neste combate. Eram mais de 200 alunos do 12º ano e dos primeiros anos do ensino superior. Fiz-lhes uma pergunta, a pergunta mais importante que poderiam fazer a si próprios: porque são os piores alunos da União Europeia? Compreenderam como têm sido vitimas de uma ideologia cretinizadora, que se implantou no sistema educativo por ser fácil e «útil» para muita gente: para eles próprios, para os pais, para os maus professores e para o ministério, por nada exigir a ninguém. Foi uma sessão inesquecível que terminou com a consciência empolgante do que está em causa. Sejam exigentes, pedimos-lhes, exijam a mudança. Aplaudiram de pé.

Talvez por isso, o debate com 300 professores para que tinha sido convidado insistentemente pela vereadora socialista da Câmara de Torres Novas marcado para uns dias depois teve de ser desmarcado. É que esses professores foram convocados oficialmente, para esse dia à mesma hora, para uma acção de formação, com presença obrigatória.

Um mês antes, a presença combinada de Nuno Crato num debate no Politécnico de Leiria fora vetada por um dos grupos participantes. E há mais. A besta totalitária, tal como Umberto Eco a apresenta num livro belíssimo, Cinco Escritos Morais (Difel), continua entre nós.

Se os nossos jovens não são menos dotados geneticamente do que os outros, qual é o problema?

Os nossos jovens não são menos dotados à partida do que os outros. Há muitas manifestações da qualidade da nossa gente, não há povos menos inteligentes do que os outros. O que falta na nossa escola é alma Faltam grandes desafios aos professores, aos alunos e mesmo aos pais.

A Gradiva além da ciência já apostou na ficção científica...

Foi um fracasso, também temos alguns... Um amigo, que aprecio muito, o João Barreiros, louco por ficção científica levou-me a fazer uma colecção muito bonita, cartonada, com excelentes tradutores, excelentes livros, mas eram livros para meia dúzia de leitores, e não nos podíamos dar ao luxo de fazer isso naquela época. Tenho muita pena, espero um dia ter outra oportunidade.

A boa ficção científica contribui para a promoção da cultura científica e fazer uma boa colecção é sempre um projecto que dá prazer a um editor. O Contacto de Carl Sagan suscitou a investigação à volta da questão do que se designa por «buracos de vermes». Contou igualmente o meu interesse pelo género de que fui na juventude leitor entusiasta. Devorei os livros da belíssima colecção «Argonauta» do grande editor Sousa Pinto, fundador da Livros do Brasil, leitura que contribuiu também para a minha formação intelectual e para o interesse pela ciência. O que o João Barreiros fez foi acordar esse meu interesse, mas a colecção não era viável, como ele percebeu. Havendo outros editores a praticar o género, decidimos acabar.

E os autores portugueses estão ao nível dos estrangeiros?

Não estão longe, certamente. Ainda não temos muitos, apesar do nosso desejo em os motivar, mas teremos cada vez mais e alguns muito interessantes. A dificuldade em conseguir publicá-los no estrangeiro residirá no facto de Portugal não ser ainda visto como um produtor de conhecimento científico, e da produção internacional, particularmente no mundo anglo-saxónico ser enorme. Mas o trabalho brilhante que está a ser desenvolvido por jovens cientistas portugueses no estrangeiro e, cada vez mais, também entre nós, vai contribuir seguramente para que se comece a reparar nos nossos autores do género. De qualquer modo Carlos Fiolhais está já editado no Brasil, tem surgido interesse de editores franceses pelos livros de Jorge Buescu e um dos livros de Nuno Crato foi-nos solicitado por um editor grego e outro norte-americano. Existem boas perspectivas de uma edição de João Lobo Antunes nos Estados Unidos -- é um grande autor em qualquer latitude.

Autores como Sagan, Dawkins, Hawking, vendem bem entre nós?

Sim, muito bem. Sagan é o autor emblemático da Gradiva. Cosmos -- uma obra admirável, imperecível, tão actual com antes nas suas mensagens essenciais (porque não volta a RTP a passar a série, a nova cópia da série? Seria um contributo singular para a educação dos portugueses) -- despertou também em Portugal inúmeras vocações. Vamos editar em Setembro, nos dez anos da sua morte, um livro inédito, agora lançado nos Estados Unidos.

É o editor do Calvin e Hobbes. Tem apostado na banda desenhada...

Calvin, Zits, os cartoons são um sucesso e Gradiva domina esse sector. Quanto à edição de banda desenhada é um antigo sonho meu. Como disse, comecei a ler com ela e os meus valores são os dos heróis da banda desenhada. É por isso que continuo, teimosamente., talvez ingenuamente, a pensar que a justiça, o bem e a verdade, acabam sempre por vencer. Mas não há público para a banda desenhada, pelo menos para a que gostaria de editar. Confirmei esta minha avaliação com a edição de Largo Winch, que considero uma da mais interessantes produções da escola franco-belga, um thriller muito bem construído e desenhado no ambiente da concorência entre grandes empresas.

Mas o maior sonho era editar toda a série do Príncipe Valente, com a qual cresci. Não o consegui, mas tenho, agora, pelo menos, a consolação de ver a Gradiva distribuir a obra, editada por uma das tais editoras de «vão de escada», a Livros de Papel, dirigida por José Vilela. Os álbuns são preparados por um homem incrível, Manuel Caldas, um especialista e admirador apaixonado da obra de Harold Foster, que dedica horas e horas a recuperar as tiras realizando a que é seguramente a melhor edição de sempre, em todo o mundo, do Príncipe Valente.

José Rodrigues dos Santos é hoje a jóia da coroa da Gradiva?

A nossa coroa só tem jóias... O José Rodrigues dos Santos é um autor que gostei muito de encontrar e que publicamos com um grande entusiasmo e empenho. Porque é autor de um género de literatura que existe muito pouco e faz muita falta em Portugal e que tem muitos méritos. É um livro que as pessoas lêem, bem escrito, uma narrativa escorreita. Não conheço autor português contemporâneo que tenha a capacidade narrativa de construção de cenários que encontramos nos livros de José Rodrigues dos Santos. As suas obras veiculam muita informação interessante e enriquecedora, prendem, agarram vários tipos leitores. Hoje mesmo, entrei num táxi e vi que o motorista tinha um livro na consola do carro, ao seu lado... A Fórmula de Deus. Estava triste, disse-me, por estar a chegar ao fim do livro, que fora lendo em todas a paragens. Queria mais. A minha filha, uma leitora compulsiva desde criança ( tenho de agradecer à Isabel Alçada, à Ana Maria Magalhães e, claro ao meu bom amigo Severino Coelho, com a sua colecção «Uma Aventura», na Caminho) manifestou um dia o mesmo sentimento quando terminava a sua primeira leitura de O Conde de Monte Cristo. É curioso que Eduardo Lourenço, que terá lido o Codex 632 com gosto, me tenha referido o José Rodrigues dos Santos como um Alexandre Dumas português...

Vale a pena ler

Título: Aprender com as Coisas
Autor: Stéphane Ferret
Tradução: Francisco Oliveira
Editor: Asa, 2007

"Escusado será dizer que admiro os grandes historiadores da filosofia, do mesmo modo que admiro os grandes autores. O que contesto, sobretudo, é essa redução da actividade filosófica à actividade enciclopédica ou, melhor ainda, esse encantamento da actividade filosófica pela história da filosofia. Atrevo-me a dizer que os autores importam pouco, o mesmo se passa com a sua época, que a sua língua pouco interessa, que eles não são nada, face à realidade dos problemas. Quando colocamos os autores em primeiro lugar, como uma figura de proa, há fortes possibilidades que a síndroma da palavra de evangelho entre em acção. O efeito de sacralização que daí resulta parece-me relevar de uma piedade pueril, para não falar de dogmatismo cómico do género "guardião do templo"." (Stéphane Ferret)

domingo, 29 de Abril de 2007

UMA ILHA NA LUA 2


Já aqui falei de "Uma Ilha na Lua" (Antígona, 1996) de William Blake. Neste livro, o escritor, pintor e visionário inglês satiriza não só a ciência como a filosofia (não admira: os inimigos da ciência costumam sê-lo também da filosofia). Atente-se no saboroso diálogo do Cap. V, que a seguir se transcreve. Aqui um dos personagens caricaturados (Ângulo Obtuso) é o neoplatonista Thomas Taylor (1758-1835), o primeiro a traduzir para inglês as obras completas de Platão e Aristóteles, e o diálogo em que participa é tão hilariante como a experiência científica falhada do Cap. X.

Ângulo obtuso, Ardebardo, Aradobe & Tiro Léria encontraram-se todos no escritório de Ângulo Obtuso.

"Diga-me," disse Aradobe, "Chatterton era um Matemático?"

"Não, " disse Ângulo Obtuso. "Como é que podes ser tãs néscio que penses que era?"

"Oh, eu não penso que ele era - só perguntei se era, " disse Aradobe.

"Como é possível pensares que não era, & perguntares se era?", disse Ângulo Obtuso.

"Oh não, senhor. Eu pensava que sim, que ele era, antes de me dizer, mas depois fiquei a pensar que não era."

Disse Ângulo Obtuso: "Em primeiro lugar pensavas que era, & depois, quando eu disse que não era, já pensavas que não era. Bem, eu sei que-"

"Oh, nada disso, senhor, eu pensava que ele não era, mas perguntei para saber se ele era."

"Como é que isso pode ser?, exclamou Ângulo Obtuso. "Como é que podes perguntar & pensar que ele não era?"

"Bem," disse ele, "veio-me à cabeça que ele não era".

"Mas porque é que então", insistiu Ângulo Obtuso, "disseste que ele era?"

"Eu disse isso? Caramba! Não pensava ter dito tal coisa."

"Não foi o que ele disse?", perguntou Ângulo Obtuso.

"Foi", disse Ardebardo.

"Mas o que eu quis dizer - " disse Aradobe, "Eu - eu - eu não consigo pensar. Caramba! Senhor, bem gostava que me dissesse como é que isto pode ser."

Então Ângulo Obtuso pôs o queixo na mão & proferiu. "Sempre que pensares, deves pensar por ti mesmo."

"Mas como, Senhor!" exclamou Aradobe. "Sempre que penso, devo ser eu a pensar?".

Bloody Miracles

Relíquia sagrada? Não, apenas uma solução coloidal de óxido de ferro(III) hidratado, FeO(OH)

Segundo Plutarco, «Não acreditarei em tal história, ainda que me seja contada por Catão», era um provérbio romano popularizado durante a vida de Marco Pórcio Catão, o antigo ou o censor, (243 a.C. - 149 a.C.) considerado exemplo de virtuosidade pelos seus pares - Catão que não deve ser confundido com o seu bisneto homónimo, de quem os contemporâneos diziam «A causa vencedora apraz aos Deuses; a vencida a Catão». Isto é, quiçá por influência epicurista, considerava-se há 2200 anos que a implausibilidade de algo invalidava qualquer argumento de autoridade.

Com a demonização do epicurismo, o referido provérbio parece igualmente ter sido demonizado e alastrou pelo antigo império romano o avidum genus auricularum apontado por Lucrécio - o facto de a população receber avida e acriticamente tudo o que lisonjeia a superstição e fomenta o espanto - idiossincrasia abordada por David Hume a propósito dos «milagres». E é de milagres que este post trata, mais concretamente de milagres envolvendo sangue.

De facto, este tipo de «milagres» são bastante comuns, perdurando até hoje na forma de estátuas e imagens que choram sangue. O fenómeno, referido por Joe Nickell, do Committee for Skeptical Inquiry (CSI), no livro «À procura de um milagre», inspirou o episódio da série satírica South Park que mais acusações de blasfémia motivou, o episódio Bloody Mary, disponível para download aqui. Existem ainda alguns «relatos» de manifestações análogas em hóstias, encontrando-se um exemplo de uma hóstia sangrenta em Portugal, na igreja de Santo Estêvão em Santarém, referida como a igreja do Santíssimo Milagre.

As relíquias sangrentas mais comuns têm origem na Idade Média, época em que imperava o lucrativo negócio de venda de relíquias, em que abundavam prepúcios, cordões umbilicais, bocados da cruz, pregos da dita e demais recuerdos cristológicos para além de um gigantesco mercado de souvenirs anatómicos de santos, mártires e afins.

Por exemplo, a igreja do castelo de Wittenberg, onde Lutero - o comércio de relíquias é denunciado no Traité Des Reliques - pregou as suas 95 teses tinha... 19013 relíquias (!). Do espólio de Wittenberg constavam vários frascos com leite da Virgem, palha da manjedoura onde a lenda coloca o nascimento de Cristo e mesmo um dos «inocentes» massacrados (sem registo histórico) por Herodes! Para mim, o paradigma do avidum genus auricularum manifesta-se na Santa Casa de Loreto venerada ainda hoje como sendo a casa da sagrada família em Nazaré que muitos acreditam piamente ... ter sido transportada por anjos para Itália, algures no século XV!

Entre as mais veneradas relíquias da Igreja Católica Apostólica Romana estão amostras de sangue de santos, existindo apenas em Itália 190 destas relíquias, das quais algumas liquefazem «sobrenaturalmente» por ocasião de cerimónias religiosas.

Luigi Garlaschelli é um químico orgânico da Universidade de Pavia que integra a CICAP, Associação Italiana para o Estudo do Paranormal, e se dedica a estudar do ponto de vista químico estes supostos milagres sangrentos (entre outros fenómenos vendidos como paranormais). Garlaschelli forneceu explicações alternativas perfeitamente naturais para os diversos fenómenos de liquefacção, nomeadamente para os mais famosos «milagres» do género, os de são Lourenço em Amaseno (uma mistura sem pinga de sangue contendo ceras com uma temperatura de fusão de aproximadamente 30 ºC) e de San Gennaro ou são Januário (um gel tixotrópico).

Um frasco selado contendo uma substância sólida acastanhada, supostamente o sangue seco de San Gennaro, o patrono de Nápoles, é o protagonista de uma cerimónia solene em que o «milagre» da liquefacção da dita massa sólida é encenado numa catedral apinhada de fiéis (cerimónia relatada magistralmente por Mark Twain no livro Innocents Abroad).

A liquefacção do sangue do santo é uma parte integrante da vida de Nápoles e uma garantia de «boa sorte» para a cidade. O frasco, guardado num cofre na Catedral de Nápoles, é levado em procissão pelas ruas da cidade várias vezes por ano sendo depois conduzido ao altar-mor onde é submetido a rituais específicos. Numa atmosfera rondando a histeria, especialmente por parte das «tias de San Gennaro», após os hocus pocus e demais rituais necessários à manutenção da lenda, o arcebispo ergue o frasco, agita-o e declara que o sangue se liquefez. A notícia é saudada com uma salva de 21 tiros em Castel Nuovo.

Como naquelas mensagens em cadeia que todos recebemos, a lenda urbana desenvolvida em torno do «milagre» garante que a cidade será atingida por uma qualquer calamidade, seja uma erupção do Vesúvio ou a derrota do Nápoles, a equipa local de futebol, caso a cerimónia não tenha sucesso (provavelmente causado por um dignitário com uma sacudidela menos vigorosa). De acordo com algumas testemunhas, a última vez que o sangue não se liquefez aconteceu em 1987, quando Nápoles elegeu um presidente da câmara comunista.

A cerimónia centenária, ou mais concretamente o dito milagre, é alvo de cepticismo também centenário e pelo menos desde o século XVIII que os cientistas tentam demonstrar que a dita liquefacção pode ser explicada sem invocação de milagres (nem de sangue). Em 2005, para grande consternação de muitos, a astrofísica Margherita Hack, porta voz da CICAP, afirmou uns dias antes do milagre programado que «Não há nada místico acerca disto. Vocês podem fazer este apelidado sangue na vossa cozinha».

Hack transmitiu os resultados da investigação de Garlaschelli aos habitantes da Neapolis que outra lenda diz ter sido fundada por Parténope, uma das sereias que não conseguiu encantar Ulisses. Isto é, a astrofísica afirmou que o sangue milagroso não passa de um gel à base de ferro que podia perfeitamente ter sido sintetizado com os materiais e conhecimento disponíveis no século XIV, data em que surgiu pela primeira vez o tal «sangue milagroso», em 1389, mais de um milénio após o martírio do santo.

Ou seja, o frasco, vendido como um dos milagres mais estabelecidos da Igreja, contém muito provavelmente uma mistura tixotrópica. A tixotropia é uma propriedade de algumas substâncias cuja viscosidade baixa (maior fluidez) quando sujeitas a vibração, agitação ou outra forma de perturbação mecânica, solidificando quando deixadas em repouso. Alguns exemplos comuns de géis que apresentam estas propriedades são alguns tipos de tintas ou mesmo o vulgar ketchup.

Neste caso a substância sólida deve ser um gel contendo FeO(OH) - que pode ser sintetizado a partir de sal de cozinha, calcário e um mineral de FeCl3 abundante na região - que se assemelha a sangue seco. Aliás, como a própria Enciclopédia Católica reconhece, é pelo menos suspeito que a quase totalidade das relíquias que exibem comportamento análogo sejam veneradas (muitas desde a mesma altura) perto de Nápoles ou tenham origem nesta região.

Estes «bloody miracles» são fáceis de confirmar como fraudes centenárias bastando para isso que a Igreja de Roma ceda as supostas relíquias para análise, algo que me parece muito pouco provável. De facto, a Igreja considera que «as devoções de longa data profundamente enraizadas no coração do povo não podem ser varridas sem escândalo nem distúrbios populares» e como tal afirma não existirem problemas morais «na continuação de um erro que foi transmitido em boa fé por muitos séculos».


Referências:
Garlaschelli, L., Della Sala, S., Ramaccini F.; «Working Bloody Miracles» Nature, 353, 507 (1991).
Epstein, M. and Garlaschelli, L.; «Better Blood Through Chemistry: A Laboratory Replication of a Miracle»; J. Scientific. Expl., 6, 3, 233-246 (1992).
Garlaschelli, L., Della Sala, S., Ramaccini F.; «A Miracle Diagnosis»; Chemistry in Britain, 30,
2, 123-125 (1994).
Garlaschelli, L., «Chemistry of 'Supernatural' Substances», J. Soc. Psyc. Res., 62, 852 , 417 (1998).

O que é um argumento?


Um argumento é um conjunto de afirmações encadeadas de tal forma que se pretende que uma delas, a que chamamos a conclusão, seja apoiada pela outra ou outras, a que chamamos a premissa ou premissas. Um argumento só pode ter uma conclusão, mas pode ter uma ou mais premissas. A diferença mais importante entre um argumento e um raciocínio é que num argumento pretendemos persuadir alguém de que a conclusão é verdadeira, ao passo que num raciocínio queremos apenas saber se uma determinada conclusão se segue ou não de um determinado conjunto de afirmações.

Ao passo que as afirmações que usamos nos argumentos são verdadeiras ou falsas, os argumentos não podem ser verdadeiros nem falsos, pois não são afirmações, mas sim conjuntos de afirmações. As pessoas são morenas ou louras, mas os conjuntos de pessoas não são morenos nem louros. Quando os argumentos têm uma certa estrutura, ganham uma propriedade deveras interessante: torna-se impossível, ou altamente improvável, que as suas premissas sejam verdadeiras e a sua conclusão falsa. Nesse caso, dizemos que o argumento é válido — o termo é aqui usado não no sentido popular de “valioso” nem “interessante”, mas no sentido muito preciso indicado.

Nos argumentos válidos é impossível ou altamente improvável que as suas premissas sejam verdadeiras e a sua conclusão falsa. Repare-se que apenas se exige que seja impossível ter premissas verdadeiras e conclusão falsa para que um argumento seja válido. Mas um argumento pode ser válido e ter conclusão falsa — desde que tenha pelo menos uma premissa falsa. Por isso, a validade é uma condição necessária da argumentação cogente, mas não suficiente. Noutro artigo veremos quais são as outras duas condições necessárias para que um argumento ser cogente, além da validade. Para já, é tempo de dar um exemplo de um argumento válido muito simples:

Se a vida faz sentido, Deus existe.
A vida faz sentido.
Logo, Deus existe.

Este argumento é válido. O que significa que mesmo sem saber se as premissas são verdadeiras ou não, sabemos isto: que se as premissas forem verdadeiras, a conclusão também o será. Mas será um bom argumento? É o que veremos noutro artigo.

HAWKING E A BREVE HISTÓRIA DO TEMPO


A recente "levitação" do Stephen Hawking num voo parabólico (o físico quer ir mais alto, apesar da sua deficiência física, e subir ao espaço num voo suborbital!) e a recente publicação em português do seu novo livro "Brevíssima História do Tempo" com Leonard Mlodinow suscitam-me a divulgação do seguinte texto sobre esse extraordinário "best-seller" que é "Breve História do Tempo". O texto resultou de uma iniciativa da Biblioteca Municipal de Oeiras sobre os "Dez Livros que Mudaram o Mundo", que deu origem a um livro com o mesmo título publicado pela Quasi em 2005.


É sempre arbitrário escolher dez livros que tenham tido um impacte grande na história da humanidade, mas a comissão a quem a Biblioteca Municipal de Oeiras encarregou da selecção de títulos achou que, dos dez livros a figurar a "top ten", três deviam ser de ciência. Atendendo à pouca atenção que a ciência normalmente costuma merecer nos círculos literários, é caso para dar os parabéns a Oeiras!

Os livros escolhidos foram "A Origem das Espécies", do inglês Charles Darwin, "O Erro de Descartes", do português António Damásio, e "Breve História do Tempo", do inglês Stephen Hawking. Há ainda na lista "A Interpretação dos Sonhos", do austríaco Sigmund Freud, mas pode discutir-se se a psicanálise é ou não ciência (Popper, por exemplo, discutiu-o). Darwin é indiscutível, porque mudou de facto o mundo, ou melhor a nossa visão do mundo: depois de Darwin a nossa visão da história natural passou a ser outra comppletamente diferente. O livro de Damásio é sem dúvida notável, mas a sua inclusão no "top" só poderá ser compreendida por algum, aliás compreensível, portuguesismo. De facto, não temos ainda distância suficiente relativamente à obra para podermos aquilatar do seu real impacte. Finalmente, quanto a Hawking, também não é também líquido que seja um "must": para representar a física, poder-se-ia pensar, decerto com mais propriedade, numa obra de Galileu (por exemplo, os extraordinários “Discursos sobre Duas Ciências Novas”), de Newton (por exemplo, o indiscutível “Princípios Matemáticos de Filosofia Natural” ou de Einstein (por exemplo, o conjunto de cinco artigos que submeteu à revista alemã “Annalen der Physik”, no “ano milagroso” de 1905).

Mas Hawking tem a seu favor, para inclusão na lista dos livros mais notáveis de sempre, os números de vendas. "Breve História do Tempo" já vendeu, desde a sua primeira edição em 1988, cerca de dez milhões de exemplares em todo o mundo, não só no original em inglês, mas em mais de quarenta outras línguas, incluindo o português (a edição portuguesa foi da Gradiva, no mesmo ano da publicação em Inglaterra). Dez milhões de livros são, de facto, muitos livros! Deixa José Saramago ou António Lobo Antunes ou mesmo o desconhecido autor do muito vendido "O Homem que Mordeu o Cão" a enorme distância. Significa um livro por cada português, criança, de meia idade ou ancião. Como a Terra tem cerca de seis mil milhões de habitantes, significa que um em cada seiscentos habitantes da Terra compraram o livro!

E leram-no? Talvez não, com toda a probabilidade não o leram ou só leram uma pequena parte. Trata-se de um livro com um título apelativo – para já não falar do subtítulo "Do Big Bang aos Buracos Negros" - mas não se trata de uma obra fácil de ler. É por isso altamente meritório que o programa "Oeiras a Ler", que enquadrou os "Dez livros que mudaram o mundo", tenha tentado promover a sua leitura. Para abrir o ciclo sobre os “dez livros” a Biblioteca Municipal de Oeiras escolheu precisamente a obra de Hawking. Foi reconfortante ver o Auditório Municipal de Oeiras praticamente cheio, a uma hora nocturna, para uma conversa à volta do livro e do seu autor. Na organização de eventos culturais ou de quaisquer outros, não há milagres, mas sim organização e trabalho.

A pergunta é legítima: por que é que o livro de Hawking vendeu e vende tanto se afinal não é fácil de ler? De facto, a maioria dos presentes na audiência da Biblioteca Municipal de Oeiras tinha adquirido uma das edições do livro do prelo da Gradiva, fosse ela a primeira, fossem as várias que se lhe seguiram, incluindo a espectacular edição ilustrada saída em 2001. A resposta é fácil: o livro vende simplesmente porque o autor é uma pessoa cuja tragédia pessoal é bem conhecida. O seu corpo encontra-se paralisado por uma doença do sistema nervoso central e está, por isso, preso a uma cadeira de rodas computadorizada. Neste livro de Hawking e em praticamente todos os outros dele, a capa mostra o retrato do autor, com um sorriso aberto, mas com o corpo manifestamente frágil. Em "Breve História do Tempo", Hawking faz uma única e curta referência à sua doença. Conta como ela lhe foi diagnosticada quando ainda era estudante em Oxford, tendo-lhe sido dados apenas dois ou três anos de vida (já lá vão quase 40 anos, Hawking já fez 64 anos!). Conta como conseguiu resistir à doença com a ajuda da mulher e de uma mão cheia de amigos, terminando o doutoramento, arranjando emprego como professor na prestigiada Universidade de Cambridge, casando e tendo três filhos (tudo isso por esta ordem).

Uma das motivações de Hawking para escrever o seu livro foi, segundo ele próprio revelou, o pagamento das propinas da filha. De facto, escrever livros que se vendam bem é uma maneira honesta de ganhar dinheiro, no caso muito dinheiro. Mas o livro em causa e os outros serviram também para pagar os cuidados de médicos e de enfermagem que o seu estado de saúde permanentemente requer. Supondo que Hawking ganhou dois euros por cada um dos seus livros (tomando um preco médio de vinte euros e um contrato de direitos de autor de dez por cento), dez milhões de livros significam vinte milhões de euros, uma quantia astronómica, isto é, que não é fácil de conceber. Para quem ainda pense melhor na antiga moeda, vinte milhões de euros são quatro milhões de contos. Hawking, se não houvesse pirataria, bem poderia deixar a astrofísica e viver apenas dos rendimentos...

Mas Hawking prefere continuar com a astrofísica. Em "Breve História do Tempo", trata as questões do "Big Bang", a grande explosão com que o Universo se iniciou há cerca de quinze mil milhões de anos, e dos buracos negros, os corações remanescentes e altamente massivos de estrelas grandes que, depois de velhas, explodiram. Do "Big Bang" tudo sai, devido à força da explosão. Para um buraco negro tudo entra, devido à poderosa atracção gravitacional. Hawking, um dos grandes especialistas em buracos negros, teve a ideia, quando estava a terminar o seu doutoramento, de que o "Big Bang" era afinal um buraco negro ao contrário, aquilo a que poderíamos chamar um "buraco branco". E teve também a ideia de que o Universo, que reconhecidamente começou com o "Big Bang", poderá um dia acabar como um buraco negro, um grande buraco negro. Nesse caso, estaríamos todos nós dentro de um buraco negro, portanto perdidos. Mas descanse o estimado leitor que os dados mais recentes indicam não apenas que o Universo está em expansão mas que está em expansão acelerada devido a uma misteriosa força de anti-gravidade. Este é um mistério que permanece por esclarecer...

Hawking, apesar de agnóstico, fala muito de Deus em todo o livro. Talvez essas repetidas referências teológicas também ajudem, para além da condição física do autor, a explicar o êxito do livro. A última palavra do livro é precisamente Deus, quando Hawking refere a possibilidade de virmos a conhecer o "plano de Deus". Já Einstein, que recusava a ideia de um Deus que se preocupasse com as acções humanas (o Deus da tradição judaico-cristã), gostava de usar a metáfora de Deus (para ele Deus era o mundo, a realidade física). A frase de Einstein "Deus não joga aos dados com o Universo" significa que as leis da física não podem ter um carácter probabilístico. É conhecida a resposta de Bohr a Einstein: não cabia a Einstein dizer a Deus o que Ele devia fazer. Outras frases de Einstein falam também de Deus: “Deus é subtil, mas não é malicioso” significa que é difícil comprender a realidade, mas que não uma missão impossível; e “Só quero saber se Deus teve alguma escolha na feitura do mundo” significa que o grande sábio suspeitava que as leis físicas eram únicas e obrigatórias. Hawking vem na senda de Einstein "invocar o santo nome de Deus” e não será em vão se servir para mais pessoas se inquietarem com os grandes mistérios do mundo que a ciência procura resolver.

O livro de Hawking aborda magnas questões que sempre hão-de preocupar a humanidade: de onde vimos e para onde vamos. Questões como estas estão no seio da nossa cultura. A ciência, ao procurar responder-lhes, é decerto uma parte importante da cultura humana. Hawking poderá não ser, decerto que não é, um cientista da craveira de Galileu, Newton ou Einstein, mas já fez imenso pela cultura científica ao colocar, como Sagan e outros modernamente fizeram, as grandes questões cosmológicas à disposição de todos nós.

NO DIA EM QUE PRIMO LEVI SE RECORDOU DO CANTO DE ULISSES


Em 1944, Primo Levi tinha 25 anos de idade. Havia sido capturado um ano antes por milícias fascistas e estava preso em Auschwitz. Assistira todos os dias à evidência do “mal absoluto” e todos os dias fizera um esforço, igualmente absoluto, para lhe sobreviver. Era um velho, portanto. E, tal como os velhos, muito velhos, a sua memória estava quase apagada.
Contudo, uma certa manhã, quando iniciava uma caminhava - que sabia durar mais ou menos uma hora - com um camarada de infortúnio, Jean Samuel, o Pikolo, Levi sentiu-se suficientemente livre para se lembrar de um texto clássico: “O Canto de Ulisses” de Dante Alighieri, que antes de toda a tragédia, havia aprendido de cor, interiorizado, tornado uma parte de si, convertido, enfim, numa fracção da sua identidade. É esse assombro pela redescoberta de um poema maravilhoso que ele conta no livro que escreveu entre Dezembro de 1945 e Janeiro de 1947 e ao qual deu um enigmático título: “Se isto é um homem”.

Vale a pena determo-nos nesse exercício de liberdade que a educação possibilita e que, por isso mesmo, transcrevemos de seguida, não sem antes notarmos a aclamação que o próprio Dante faz do destino dos homens através da fala do seu herói, por ela reiterar essa ideia: “Não fostes feitos para viver como brutos / Mas para seguir virtude e conhecimento”. Talvez tivesse sido esta fala que fez com que Levi se lembrasse da Divina Comédia…

“Quem sabe como e porquê me lembrei disto: mas não temos tempo para escolher, esta hora já não é sequer uma hora. Se Jean é inteligente, vai perceber

Da flama antiga o mais alto dos cornos,
Murmurando, tornou-se tremulante
Como por vento archote verdascado.

A crista ele agitava lado a lado
Como se a língua falasse;
Uma voz se formou que até nós veio:
Quando…

A este ponto paro e procuro traduzir. Um desastre: pobre Dante e pobre Francês! Todavia a experiência parece prometer: Jean admira a bizarra semelhança da língua, e sugere-me a palavra apropriada para traduzir «antiga». E a seguir ao «Quando»? O vazio. Um buraco na memória. «Eneias não lhe pusera ainda o nome.» Outro buraco. Emergem alguns fragmentos não utilizáveis, «…Amor por filho jovem, pai idoso, jurado amor de esposo que a Penélope o coração de gáudio preenchia…» será mesmo exacto?

… Ao mar, pois, eu me fiz, mar alto aberto.

Disto sim, disto estou certo, estou em condições de explicar ao Pikolo, de discriminar por que é que «eu me fiz» não é «je me mis», é muito mais forte e audacioso, é uma corrente quebrada, é atirar-se a si próprio para além de uma barreira, nós conhecemos bem este impulso. O mar aberto: Pikolo viajou pelos mares e sabe o que significa, é quando o horizonte se fecha sobre si mesmo, livre, direito e simples, e só permanece o cheiro do mar: coisas doces ferozmente longínquas (…)

«Mar aberto.» «Mar aberto.» Sei que liga com «… dessa companha escoltado que nunca ao meu destino me largara», mas já não me lembro se vem antes ou depois. E também a viagem, a viagem temerária para além das colunas de Hércules, que tristeza, sou obrigado a ter de a contar em prosa: um sacrilégio. Apenas salvei um verso, mas vale a pena meditá-lo:

… Não fosse alguém tal arraia transpor

«Transpor»: tinha de vir para o Lager para me aperceber de que «transpor» está relacionado com a expressão anterior, «eu me fiz». Mas não o revelo a Jean, não tenho a certeza de que se trate de uma observação importante. Quantas coisas mais haveria a dizer, mas o Sol já está alto, o meio-dia está próximo. Tenho pressa, uma pressa furibunda. Atenção agora, Pikolo, abre os ouvidos e a mente, preciso que entendas:

De vossa origem meditai n`altura
Que vos impede a vida como brutos
Mas por saber, por bem, sempre exaltada

Como se eu também o ouvisse pela primeira vez: como um tocar de trompete, como a voz de Deus. Por um momento, esqueci-me de quem sou e onde estou. Pikolo pede-me para repetir. Como é bom Pikolo, apercebeu-se de que está a fazer-me bem. Ou talvez seja mais; talvez, apesar da tradução superficial e do comentário primário e apressado, tenha recebido a mensagem, tenha sentido que diz respeito a todos os homens atormentados e a nós especialmente; e que diz respeito a nós dois, que ousamos raciocinar disto (…)

Os ânimos tão fortes eu excitei…

… e esforço-me, mas em vão, por explicar quantas coisas significa este «excitei». Aqui mais uma lacuna, desta vez irreparável. «… A Lua ao dia a luz já consentia» ou algo parecido, mas antes… Nenhuma ideia (…). Pikolo tem de me desculpar, esqueci-me de pelo menos quatro tercetos

… Quando distante vimos, nebulosa,
Isolada montanha que julguei
Das altas a mais alta que então vira.

Assim mesmo, não «muito alta», «das altas a mais alta» grau superlativo. E as montanhas, quando se vêem de longe… as montanhas… oh, Pikolo, Pikolo, diz qualquer coisa, fala, não me deixes pensar nas minhas montanhas, que apareciam no lusco-fusco ao anoitecer quando regressava de comboio de Milão a Turim! Chega, é preciso ir para a frente, essas coisas que se pensam mas não se dizem Pikolo espera e olha para mim.
Dava a minha sopa de hoje para saber ligar «a mais alta que então vira» com o final. Esforço-me por reconstruir através das rimas, fecho os olhos, mordo os dedos: mas não serve, o resto é silêncio. Dançam na minha cabeça outros versos: «… e a terra só de lágrimas foi vento…», não, é outra coisa. É tarde, chegámos à cozinha é preciso concluir:

Três vezes na voragem o voltou;
A quarta, como de Alguém foi desejo.
Ergueu-se a popa e se abismou a proa…

Detenho Pikolo, é absolutamente necessário e urgente que oiça, que entenda este «como Alguém foi desejo», antes que seja demasiado tarde, amanhã ele ou eu podemos estar mortos, ou nunca mais voltar a ver-nos, tenho de lhe dizer, explicar-lhe que a Idade Média, o tão humano, necessário e porém inesperado anacronismo, e outras coisas mais, algo de gigantesco que eu próprio só agora vi, na intuição de um instante, talvez o porquê do nosso destino, do nosso estar aqui hoje…”.

Correndo o risco de desfeitear ou mesmo mutilar este magnífico texto, acrescentaríamos quatro anotações:
- A poesia é absolutamente fundamental para (sobre)viver, na medida em que se constitui como um conteúdo estruturante do fazer-se e/ou tornar-se pessoa, como sublinha Levi ao escrever: «Transpor»: tinha de vir para o Lager para me aperceber de que «transpor» está relacionado com a expressão anterior, «eu me fiz»;
- A poesia faz bem, não no sentido pós-moderno e hedonista ou epidérmico do termo, mas no sentido universal, isto é, “diz respeito a todos os homens atormentados e a nós especialmente (…) que ousamos raciocinar isto (…)”; a poesia caracteriza e é expressão do universal humano e não apenas, nem primeiramente, narrativa ou história do e sobre o sujeito individual, ainda que, como é o caso, um relato pessoal possa ser expressão da universalidade da condição humana;
- A poesia é alimento para o intelecto e para a condição ética do humano; só assim se compreende a afirmação de Levi: “Dava a minha sopa de hoje para saber ligar «a mais alta que então vira» com o final”. E, na impossibilidade de concretizar esta “ligação”, apesar do esforço, resta a inutilidade e o silêncio; ao invés, a poesia, porque “é outra coisa”, suscita e sacia outras fomes;
- Finalmente, a poesia condensa, num misto de descrição e de expressão, “talvez o porquê do nosso destino, do nosso estar aqui hoje”. A poesia, quando capta a realidade e a expressa, constitui-se como uma instância de racionalidade e de sentido que permite, em simultâneo, perguntar e exclamar, seja positiva ou negativamente, “se isto é um homem”.

Referência Bibliográfica

Levi, P. (2002) Se isto é um homem. Lisboa: Público (Colecção Mil Folhas), 123-127.

Maria Helena Damião e João Manuel Ribeiro

sábado, 28 de Abril de 2007

FIEL E INFIEL


A minha crónica do "Público" de ontem aborda o modo como algumas empresas de novas tecnologias tratam os consumidores portugueses. As tecnologias podem ser novas, mas o Portugal onde chegaram é velho e relho. A racionalidade, por vezes, não chegou! Não é só a TMKafka, poderia referir a NetKafka, que persiste em telefonar de sítios anónimos às horas mais inconvenientes aos seus clientes propondo-lhes serviços que eles não querem...


Não lembraria a ninguém que se tenha de pagar menos se se for fiel e que se tenha de pagar mais se se for infiel. Mas lembrou às empresas de comunicações nacionais.

Descobri isso à minha custa. Ninguém na empresa de comunicações móveis de que sou cliente (ou melhor, era) me havia informado que eu tinha de lhe ser fiel durante um tempo (vá lá que não era para sempre, na saúde e na doença, até que a morte nos separasse), quando me deram um contrato para assinar. Devia estar em letras miudinhas, muito miudinhas. Mas eu, mesmo sem saber da obrigação jurídica, vivi na maior fidelidade até ter avariado uma peça de hardware. Aí disseram-me que tinha de fazer um novo contrato, mas - azar meu - tinha de me manter fiel ao primeiro pelo prazo estabelecido, isto é, tinha, apesar de não usufruir do serviço, de respeitar o compromisso de fidelidade.

Não gostei de saber. Eu queria mesmo ser fiel àquela empresa, que me tinha assegurado fartas e boas comunicações durante largos anos. Mas só pagando um contrato e não dois. E não percebia bem porque é que tinha de fazer segunda fidelização se já tinha a primeira, ou, em alternativa, porque é que tinha de fazer um contrato, mais caro, de infiel, quando tinha um outro, mais barato, de fiel. Seria, de resto, uma situação bastante caricata ser fiel e infiel ao mesmo tempo e logo à mesma pessoa, quero dizer empresa. Seria como o gato de Schroedinger, meio morto e meio vivo...

Expliquei o evidente paradoxo à senhora que me atendeu no centro das telecomunicações nacionais que fica nas Picoas, em Lisboa. Mas ela não estava interessada na lógica, ou melhor, a lógica da empresa devia ser quântica, enquanto eu queria uma lógica clássica. E, megarrápida, começou a tratar-me por "senhor Carlos". Também não gostei de ser assim tratado. Porque ou ela tinha suficiente intimidade comigo e me tratava pelo primeiro nome ou então não tinha e teria de acrescentar ao "senhor" o meu nome de família. A última pessoa que me tinha tratado por "senhor Carlos" tinha sido uma enfermeira com uma seringa na mão e, dessa vez, dadas as circunstâncias, não reagi. Mas nas Picoas fiquei picado, até porque não me lembrava de o doutor Lindley Cintra ter incluída essa entre as formas de maior cortesia que constam do seu livro "Sobre 'Formas de Tratamento' na Língua Portuguesa". Devia ser uma forma de tratamento moderna, ministrada nos cursos rápidos de formação dos operadores (no caso, dizer que houve um curso rápido é muito favorável, pois suspeito de que não deve ter havido curso nenhum).

Não, não havia ninguém acima na hierarquia para falar com o fiel cliente. O cliente naquele sítio não só não tinha razão como nunca teria razão ("the client is always right" é uma expressão inglesa, a qual, eu já devia saber, não tem tradução em português). Eu tinha mesmo de continuar a ser fiel e era assunto arrumado. A empresa não gostava obviamente de mim, mas queria-me preso a ela. Senti-me, salvo seja, trancado numa prisão. E, como todo o prisioneiro aspira à liberdade, tomei a súbita resolução de fugir. Ir-me embora para outra. Quando um cliente não tem razão num lado, espera tê-la noutro. Na pressa de me evadir, nem sequer contemplei a hipótese de todas as empresas de telecomunicações terem contratos de fidelidade escritos em letras minúsculas e de todas elas me tratarem por "senhor Carlos". Mas, antes de escapar, ainda dei uma chance à minha fiel companheira de tantas chamadas durante anos a fio (ou, se me é permitido o trocadilho, durante anos sem fio). Se fizesse o favor, importava-se de comunicar comigo se acaso houvesse alguma reconsideração?

Assim que saí, com a sofreguidão da infidelidade, à procura de outra, soou o "bip" das mensagens. Era a minha ex-empresa, à qual eu tinha de ser fiel, e a esperança renasceu. Mas ela, em vez de me dar razão e me querer de volta, queria apenas vender-me bilhetes para um concerto rock, com um desconto por ter acumulado não sei quantos pontos. Que pena estar já tudo acabado entre nós!

Encefalização, cardiocentrismo e medicina

«Diga-me onde mora o amor, no coração ou na cabeça?» Shakespeare in Mercador de Veneza.

A história da Medicina é indissociável da história da evolução e encefalização do Homem. De facto, é o cérebro não só alvo como razão de práticas médicas pelo menos desde o advento do homem anatomicamente moderno.

O homem é o mamífero superior cujas crias nascem mais impreparadas para o mundo, numa fase em que o seu cérebro mal começou a desenvolver-se. Isto é, nos humanos o cérebro continua a crescer com taxas próximas às fetais durante cerca de 1 ano; nos outros mamíferos (incluindo os restantes primatas) o crescimento rápido do cérebro ocorre apenas antes do parto.

O desenvolvimento de um cérebro (e crânio) maior não acarretou apenas vantagens. Por um lado, um cérebro maior necessita de mais energia - o nosso cérebro consome cerca de 1/5 da energia que produzimos - ou seja, implica uma dieta mais energética, e por outro lado para um bipedalismo eficiente a pélvis é necessariamente mais estreita.

O parto é assim um acontecimento muito arriscado nos humanos pois para além de um crânio do nascituro comparativamente maior e uma pélvis materna menor, durante o nascimento a cabeça do feto tem de efectuar uma rotação complexa. Ou seja, mesmo com o nascimento numa fase que podemos considerar fetal, a cabeça do nascituro é muitas vezes demasiado grande em relação à pélvis materna.

Na realidade, todos os nascimentos humanos poder-se-iam considerar abortamentos de fetos viáveis. Esse é quiçá o acaso da selecção natural que resultou no maior trunfo da Humanidade, aquele que distingue o ser do Homem do ser dos demais animais, já que a selecção natural privilegiou os exemplares capazes de dar à luz fetos viáveis sensivelmente a meio do tempo de gestação «normal», fetos com poucas conexões neuronais estabelecidas mas a cujo nascimento uma maior percentagem de gestantes sobreviviam. E é um trunfo que a evolução proporcionou porque o desenvolvimento cerebral extra-uterino é muito mais rico em estímulos, o que permite uma «programação» francamente mais diversa e flexível que a possível uterinamente.

Por outro lado, os perigos associados ao parto humano levaram ao desenvolvimento de comportamentos sociais únicos nos humanos, decorrentes da imaturidade da cria e da necessidade de cooperação na altura do parto - o homem é a única espécie em que a fêmea necessita auxílio na altura do parto pelas razões expostas. E esses perigos criaram ainda a necessidade do desenvolvimento de práticas que facilitassem o parto.

Existem poucos testemunhos das práticas médicas do Neolítico, embora a análise de crânios indique que já nessa altura se praticava a trepanação (perfuração do crânio), isto é, que existia uma cirurgia incipiente.

Mas é o Antigo Egipto a nossa fonte mais profícua de informação sobre a evolução da Medicina. Existem vários papiros médicos que indicam a existência de uma medicina «mística» em que diversas divindades se relacionavam com a medicina, nomeadamente Anubis, Sekhmet, Isis, Selket, Thoth e Hórus, e os médicos mais reputados eram sacerdotes. Existiam assim «especialistas» de acordo com o Deus que os médicos serviam e as escolas médicas funcionavam nos templos. A divindade médica mais importante era Imhotep (-2700/-2625), um arquitecto e alto funcionário da corte do faraó Neterierkhet-Djeser para quem construiu a primeira pirâmide conhecida, a pirâmide de degraus de Saqqara, posteriormente divinizado.

Nestes papiros é possível confirmar que, como em muitas outras mitologias, os antigos egípcios consideravam a saúde o estado natural do Homem, sendo a doença resultado de punição divina ou de acção maléfica dos mortos. Os papiros prescreviam tratamentos empíricos para doenças em que a causa era visível e tratamentos mágicos nos casos em que era impossível o diagnóstico. O papiro ginecológico de Kahun (que trata também de matemática e veterinária), escrito há quase 4 000 anos, por exemplo, descreve a primeira poção contraceptiva de que há registo histórico - eventualmente por efeito emético - à base de excrementos de crocodilo. Já os papiros médicos de Londres são quase só os papiros «místicos» de Londres uma vez que as curas são essencialmente mágicas. Também neste caso a saúde reprodutiva está em evidência na forma de uma série de incantações contra o aborto. O papiro de Ebers, com 110 páginas o papiro mais extenso, é igualmente uma mistura de medicina incipiente e mágica.

O papiro médico mais interessante de todos é para mim o «papiro cirúrgico de Edwin Smith», o único em que a parte mágica está ausente. O papiro, muito antes de Hipócrates (460-377 a.C.), considerado o pai da Medicina, tem inscrito o primeiro registo de uma luxação do ombro, mas o mais interessante deste papiro é a descrição não só da anatomia do cérebro como de problemas neurológicos decorrentes de traumatismos cranianos.

Este documento, escrito por volta de 1700 a.C., mas que contém referências a textos escritos até 3000 a.C., reporta, entre outros, 27 casos de traumatismos crânio-encefálicos. Podemos apreciar no papiro a descrição de lesões no cérebro - que apresenta «rugas semelhantes àquelas que se formam sobre o cobre em fusão» - que afectam partes distantes do corpo. O papiro contém a primeira referência às meninges, «uma membrana que recobre o cérebro», e ao líquido cefaloraquidiano - um líquido no interior da cabeça. Um dos casos relatados indica como a fractura do osso temporal do crânio provocou a perda da fala no paciente, ou seja, descreve o primeiro caso documentado de afasia, muito antes de Paul Broca o ter feito em 1861! Para além disso, o papiro de quasi 4000 anos indica que os médicos egípcios provavelmente já tinham a noção de que o cérebro controlava o movimento.

Não obstante toda a evidência empírica sobre a importância biológica do cérebro, os antigos egípcios aceitavam a primazia «mística» do coração e este - assim como outros orgãos sobrenaturalmente «importantes» como o fígado - era removido cuidadosamento durante o processo de embalsamento do cadáver e guardado num recipiente onde permanecia preservado para a viagem até ao «mundo dos mortos». O cérebro era displicentemente removido pelas narinas e deitado no lixo, o que indica considerarem os egpícios não ter o cérebro qualquer papel no «Além»!

Os atomistas escaparam a esta visão cardiocêntrica do Homem, induzida por superstições míticas que remontam aos antigos egpcíos, que foi mantida no cristianismo e persistiu até ao século XVII. Nomeadamente Demócrito classificou o cérebro como a «cidadela do corpo», o «guardião do pensamento e da inteligência». Outros pensadores como Hipócrates, Herófilo ou Galeno, colocaram igualmente o cérebro como responsável pelo ser do homem.

No entanto, a interrogação de Shakespeare permanece indelével no imaginário e léxico de muitos e é transposta para as telas de cinema em filmes como, por exemplo, Regressa para Mim, protagonizado (apropriadamente) por David Duchovny, o Mulder da série «Ficheiros Secretos».

O que é a fé?

Acreditar em algo com base na fé é acreditar em algo sem ter razões que estabeleçam a sua verdade. Ao caracterizar a fé, S. Tomás de Aquino (1225–1274) contrastou-a com a mera crença sem conhecimento, por um lado, e com o conhecimento, por outro. A fé é semelhante à mera crença sem conhecimento porque em ambos os casos não há razões que estabeleçam a verdade daquilo que acreditamos. Mas a fé é também semelhante ao conhecimento porque envolve uma convicção muito forte da nossa parte.

Por exemplo, só podemos acreditar que o Futebol Clube do Porto ganhou o jogo com base na fé se não soubermos que isso aconteceu. Se soubermos que ganhou é porque temos provas disso e, portanto, não podemos ter fé.

Mas acreditar em algo com base na fé não é apenas acreditar em algo sem razões. Ter fé em algo implica também um elevado grau de convicção. Por exemplo, acreditar que Deus existe com base na fé é ter uma convicção praticamente inabalável na sua existência. Nesse aspecto, ter fé em algo envolve uma forte convicção, semelhante à convicção que sentimos quando sabemos que, por exemplo, o Porto é uma cidade portuguesa.

Assim, a fé é uma crença com elevado grau de convicção na verdade de uma afirmação, sem razões que estabeleçam a verdade dessa convicção.

Segundo a análise clássica de conhecimento há três condições necessárias para que um determinado conteúdo seja conhecimento: 1) tem de ser uma crença, 2) essa crença tem de ser verdadeira, e 3) tem de estar justificada. Em filosofia, usa-se o termo “crença” não como sinónimo de “crença religiosa”, mas para falar de seja o que for que um agente cognitivo considera que é verdade, tenha ou não justificações fortes para isso e seja ou não realmente verdade.

Assim, tanto a fé como o conhecimento são tipos diferentes de crença. Mas, como vimos, a fé exclui o conhecimento, no sentido em que não é possível ter fé naquilo que conhecemos. Assim, as seguintes proposições, representadas também no gráfico, esclarecem o conceito de fé, relacionando-a com a crença e o conhecimento:

— Se alguém sabe algo, essa pessoa acredita nisso. Mas pode-se acreditar em algo que não se sabe.

— Se alguém tem fé em algo, essa pessoa acredita nisso. Mas pode-se acreditar em algo sem ter fé.

— Se alguém tem fé em algo, essa pessoa não sabe isso. Logo, se alguém sabe algo, não pode ter fé nisso.

A fé é entendida por filósofos crentes, como S. Tomás, como uma fonte de verdade, a par da razão. A razão produz um conhecimento da verdade, recorrendo a provas e argumentos; a fé produz uma forte convicção na verdade mas sem conhecimento.

Diz-se por vezes que a fé e a razão são duas fontes diferentes de conhecimento, mas o que se quer dizer é que a fé e a razão são dois modos diferentes de chegar à verdade.

S. Tomás defendia que tinha estabelecido por via racional a existência de Deus, nomeadamente através dos seus cinco argumentos a favor da existência de Deus. Por isso, defendia que sabia que Deus existia. Logo, tinha de aceitar que não tinha nem podia ter fé que Deus existe.

Contudo, a fé continua a ser importante, segundo S. Tomás, por duas razões. Por um lado, a generalidade dos crentes não conhece nem compreende os argumentos a favor da existência de Deus que S. Tomás conhece; tem de aceitar que Deus existe pela fé na própria Igreja. Por outro lado, a razão não permite saber toda a verdade sobre Deus. Por exemplo, podemos saber que Deus existe, mas não que é trino (que é Pai, Filho e Espírito Santo). A fonte destas verdades não é a razão mas sim a fé.

Há harmonia ou conflito entre a razão e a fé? Há dois tipos de respostas a este problema: o fideísmo, na versão mais radical de Søren Kierkegaard (1813-1855), ou nas versões mais moderadas de William James (1842-1910) e Blaise Pascal (1623-1662); e a teologia natural, defendida por autores como Tomás de Aquino. O fideísta radical defende que a razão e a fé nos dão conclusões opostas sobre a existência de Deus, mas tanto pior para a razão: a fé é que conta. O fideísta moderado defende que a razão não dá uma resposta conclusiva quanto à existência de Deus, pelo que podemos aceitá-la por fé apenas. E os teólogos naturais, como Tomás de Aquino, defendem que há total harmonia entre razão e fé, podendo a razão provar que Deus existe, mas não outros aspectos da natureza de Deus, como vimos. A posição simétrica ao fideísmo é o ateísmo: dado que a razão não permite concluir que Deus existe, tanto pior para a fé.

sexta-feira, 27 de Abril de 2007

O ANTICICLONE DOS AÇORES

Os Açores, conhecidos no mundo pelo seu anticiclone, são também conhecidos pela muita e boa gente tanto nas artes, nas letras como nas ciências e nas técnicas que tem dado ao mundo. Um dos açoreanos que mais tem contribuído para a divulgação da ciência entre nós é Anthimio de Azevedo, nascido em Ponta Delgada (onde acabo de chegar…) em 1926, licenciado em Ciências Geofísicas, com a especialização em Meteorologia, técnico durante largos ano Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica e actualmente professor convidado na Universidade Lusófona. E contribuiu muito porque ele foi um rosto bem conhecido de todos os telespectadores por ter apresentado o boletim meteorológico de 1964 a 1990 na RTP e na TVI de 1992 a 1996. A sua presença irradiava conhecimento e bonomia!

O livrinho “O Anticiclone dos Açores”, publicado por João Azevedo Editores em 1986, é mais uma das suas contribuições para a difusão da ciência. O volume integra uma colecção sobre “Património Natural Açoriano”. Não há dúvida que o anticiclone dos Açores é um património natural nosso, apesar de lhe chamarem das Bermudas noutras longitudes. Eu acho muito bem que o tenham incluído na colecção: depois das aves nativas, dos cetáceos, do tabaco, do chá e dos tunídeos e antes dos atuns, bonitos e cavalas dos Açores.

O que é um anticiclone? E um ciclone (não, um ciclone não significa tempestade…) Anthimio de Azevedo elucida-nos:

“Anticlone é um centro de pressão atmosférica em que o ar atmosférico, mais frio e mais pesado, em cima, desce, aumentando a pressão junto ao solo: é um centro de pressão atmosférica alta, ou ‘uma Alta’, na gíria. Ao contrário, um ciclone é um centro de pressão atmosférica em que o ar atmosférico, mais quente e mais leve, em baixo, junto ao solo, sobe – como o balão de ar quente – baixando a pressão junto ao solo: é um centro de pressão baixa, depressão ou ‘uma Baixa’ “.

O livro, em bom papel, tem bons esquemas e boas fotografias de nuvens. Estas foram tiradas pelo fotógrafo Alexandre Delgado O’Neill, primeiro filho do escritor Alexandre O’Neill e da cineasta Noémia Delgado, nascido em 1959, e que infortunadamente faleceu de asma aos 33 anos de idade. Azevedo não acrescenta o Delgado ao nome do fotógrafo, pelo que à primeira vista ainda pensei que o poeta fotografava. Não era ele: era o filho. Se o poeta andava por vezes nas nuvens (um nefelibata, portanto), o filho fotografava-as…

Em Apêndice encontram-se adágios meteorológicos açoreanos, classificação das nuvens, escalas meteorológicas e nomes de tempestades tropicais no Atlântico Norte. Não desfazendo as nuvens, gostei mais dos provérbios. Por exemplo, em São Miguel, diz-se “Abril chuvoso, Maio ventoso fazem o ano formoso” (o tempo hoje aqui não está chuvoso mas pode virar de repente, que o anticlone é caprichoso). No Corvo diz-se “Quando o mar zurra atrás vem quem no empurra” e em S. Jorge “Morcego à noitinha bom tempo adivinha”. Os morcegos não só são úteis nas bibliotecas como nas ilhas…

Obesidade, açúcar e guerras da propaganda

Embora na última década a investigação cardiovascular tenha conhecido um crescimento exponencial, que se traduz num melhor conhecimento das alterações moleculares associadas à insuficiência cardíaca, este aumento de informação não teve o resultado esperado na prática clínica, visto que esta doença ainda apresenta um prognóstico sombrio, constituindo presentemente umas das principais causas de morte no mundo industrializado.

A insuficiência cardíaca é assim um problema de saúde pública com elevados índices anuais de morbi-mortalidade, tanto em países desenvolvidos como em desenvolvimento. O tratamento clínico com inibidores da enzima de conversão da angiotensina (ECA) e betabloqueadores, melhorou o prognóstico dos pacientes sintomáticos, mas o tratamento farmacológico apresenta grandes limitações, sendo o número de pacientes refractários muito alto.

As células estaminais, adultas e embrionárias, são extremamente promissoras em terapias regenerativas de corações doentes. Trabalhos muito recentes lançam luz sobre eventos a nível molecular e celular* que permitirão num futuro próximo alargar estas terapias.

Mas enquanto essas técnicas não estão disponíveis a prevenção é a melhor «terapia». O suplemento da Nature de 14 de Dezembro de 2006, Obesidade e diabetes (acesso livre), é devotado à «doença» do século, a obesidade. De facto, a obesidade implica uma panóplia de doenças crónicas, como a que é abordada especialmente neste suplemento da Nature, a diabetes tipo II, mas tem associadas igualmente outras disfunções metabólicas e, especialmente, doenças cardiovasculares, como reiteram a American Heart Association (AHA) e a Organização Mundial de Saúde. Aliás, em Novembro de 2006, os ministros da saúde da UE reuniram-se em Istambul para discutir formas de combater a obesidade.

O acúcar é normalmente apontado como um dos principais culpados pela obesidade, pelo que não é de espantar que existam inúmeras alternativas doces ao acúcar, por exemplo, sacarina, aspartame, frutose, sucralose, lactose, maltodextrina, ciclamato, acesulfame-k, sorbitol, steviosídeo, manitol, dextrose ou neohesperidina. Assim como não é de espantar que a concorrência neste campo seja feroz...

Dos Estados Unidos chega-nos a notícia de uma guerra publicitária entre dois gigantes dos edulcorantes artificiais, a Merisant (que comercializa aspartame sob as marcas comerciais Equal e NutraSweet - o equivalente em Portugal será o Canderel) e a McNeil Nutritionals (que comercializa sucralose com o nome Splenda). A Merisant processou a McNeil por causa da campanha publicitária desta última que inclui a frase «feito de acúcar, pelo que sabe a açúcar».

Claro que o problema da Merisant é não poder usar o equivalente na sua propaganda porque não teria o mesmo efeito dizer que o aspartame é feito de ácido aspártico e fenilalanina... Mas no cerne da questão está o facto de que o aspartame, que já foi lider incontestado do mercado dos adoçantes artificiais, tem vindo a perder terreno para a sucralose, que neste momento detém 62% do mercado norte-americano.

O julgamento da controversa frase, que segundo a Merisant induz os compradores a pensar que sucralose é mais «natural» que os concorrentes, contará com a presença de químicos que defenderão a causa de ambos os lados, mas na realidade para mim - opinião que mais químicos partilham comigo - ambas as companhias ( e muitas mais, não apenas na indústria alimentar) dever-se-iam sentar no banco dos réus por explorarem a iliteracia científica, neste caso química, do público em geral na promoção dos seus produtos.

Como escreve Joshua Finkelstein, editor da Nature, será interessante seguir este julgamento, especialmente porque a decisão final estará a cargo do júri e suponho que será um júri vulgar de Lineu, isto é, os jurados não serão escolhidos pela sua literacia científica.


*Por exemplo, a Cell de Dezembro de 2006 descreve duas descobertas revolucionárias neste campo. Uma equipa de cientistas do Massachusetts General Hospital e da Harvard Medical School em Boston, liderada por Kenneth Chien, identificou células estaminais embrionárias em ratos que se podem transformar nos vários tipos de células que constituem o coração, cardiomiócitos, células endoteliais vasculares e células musculares lisas, isto é, são percursoras não apenas das células que constituem o músculo cardíaco mas igualmente de todo o tipo de células cardíacas.

Os cardiomiócitos são células altamente diferenciadas que param a sua multiplicação logo após os primeiros anos de vida. A morte dos cardiomiócitos, por exemplo como consequência de um enfarte do miocárdio, origina uma fibrose tissular, que dependendo da extensão pode levar a insuficiência cardíaca.

Como afirmou Chien, «Este estudo documenta um paradigma para a cardiogénese, em que se mostra que a diversificação das linhagens de células musculares e endoteliais derivam de uma decisão a nível de uma única célula, a célula multipotente isl1+ que é uma célula progenitora cardiovascular».

No segundo artigo, a equipa liderada por Stuart Orkin do Howard Hughes Institute em Chevy Chase, Md., isolou células de um embrião de rato que expressam um gene cardíaco específico, o Nkx2.5+. Estas células diferenciam-se espontaneamente em cardiomiócitos e células do sistema de condução cardíaco - que conduzem os impulsos eléctricos que permitem os batimentos do coração. Os cientistas verificaram que algumas destas células - que expressam um segundo gene, o c-kit e a que chamaram c-kit+Nkx2.5+ - se transformavam em células musculares lisas.

A descoberta destas células mãe específicas para tecidos cardíacos é extremamente promissora porque a regeneração usando células estaminais embrionárias totipotentes tem riscos associados à possibilidade de crescimento descontrolado com formação de teratomas, um tipo de tumor.

A razão é arbitrária?

Objecta-se por vezes à racionalidade do seguinte modo: a razão não é o único instrumento na procura da verdade. Na realidade, não é possível defender a razão enquanto a única ou a melhor via para a verdade sem argumentar de forma circular. Tudo o que podemos fazer para defender a razão é apelar aos princípios da própria razão; e tudo o que podemos fazer para levantar objecções a outras vias para a verdade é uma vez mais apelar à razão. Mas isto é circular. Logo, aceitar ou não a razão e o pensamento crítico é uma questão de preferência pessoal ou arbitrária.

As pessoas que aceitam este tipo de argumento podem encarar a razão e o pensamento crítico como importantes e interessantes. Mas encaram-nos também como uma espécie de «jogo», em última análise sem fundamento, ao mesmo nível de outros «jogos» (como a tradição, a autoridade e a revelação religiosa); e estas pessoas pensam que não é possível decidirmo-nos, com base em quaisquer princípios, a favor de um dos «jogos» em detrimento de outro.

Este argumento está errado porque não tem em consideração todas as alternativas à nossa disposição. O argumento centra-se no suposto dilema de defender a razão (e levantar objecções à desrazão) recorrendo à razão ou a qualquer outro meio. A primeira alternativa do dilema é circular, a segunda arbitrária. Logo, conclui o argumento, não se pode defender a razão (nem levantar objecções à desrazão) de forma apropriada.

Habitualmente o argumento fica-se por aqui. Mas com certeza que temos de considerar a alternativa: como poderemos defender a desrazão ou a tradição, autoridade e revelação religiosa? Uma vez mais, temos um dilema: ou o fazemos racionalmente ou não. Não podemos defender a desrazão usando a razão porque isso é auto-refutante. Se há boas razões a favor da tradição, autoridade e experiência religiosa, então estas não são formas a-racionais de procurar a verdade. Nesse caso, limitámo-nos a alargar o domínio da razão. Se, por outro lado, defendermos a desrazão usando a desrazão, estaremos a usar o mesmo modo circular de raciocinar que usámos para defender a razão. Assim, qual das alternativas é melhor? Defender a razão circularmente ou defender a desrazão circularmente?

Defender a desrazão circularmente é pior porque não é apenas circular: é também arbitrário. Defender a razão circularmente não é arbitrário. A circularidade aqui envolvida é muito geral e é informativa. Qualquer estudante de lógica sabe como se faz para avaliar criticamente as próprias regras de inferência que usamos para raciocinar. Temos de usar um conjunto de regras para avaliar criticamente outro conjunto, mas qualquer conjunto pode ser e tem de facto sido criticamente avaliado pelos lógicos e filósofos (e não pelos defensores da desrazão). Só não podemos avaliar todas as regras de inferência ao mesmo tempo usando nenhumas regras de inferência. Mas o mesmo acontece com qualquer análise da desrazão: também aí teremos de usar regras de inferência, o que é auto-refutante se estamos a tentar argumentar contra todas as regras de inferência (isto não funciona nem mesmo por reductio, pois os próprios argumentos por reductio são apenas um tipo de regra).

A escolha não é, então, entre dois «jogos» igualmente sem fundamento e arbitrários, a razão e a desrazão. A escolha é entre a arbitrariedade circular (a desrazão) e a não arbitrariedade circular ou circularidade crítica (a razão). Claro que sempre que alguém apresenta uma razão a favor de algo, incluindo uma razão para preferir a não arbitrariedade à arbitrariedade, podemos — e devemos — colocar essa razão em causa. Mas isso é apenas o pensamento crítico em acção e, portanto, em si, uma refutação do pensamento acrítico e da desrazão.